quarta-feira, 12 de agosto de 2009



Personagem: Um Sítio Sossegado para Morrer (Parte III e Última)

Chamo-me Neli Castilho Neves, e esta é é a minha história.

Saí de Évora e do calor do Alentejo para fugir de casa dos meus pais. A desculpa oficial era que o curso só havia na capital, a verdade era precisar de sair da casa bafienta cheia de móveis de castanho muito escuro em que o sol só entrava para iluminar o pó suspenso no ar.

Apaixonei-me por um colega de curso duas semanas depois de começarem as aulas, com a rebeldia da juventude a contrariar a solidão melancólica no sangue, o meu primeiro namoro e amor da minha vida ainda hoje, de quem me lembro quando menos me espero. Trocou-me por uma loira de matemática, alguns meses depois, e exibiu a felicidade mútua até ao fim do curso.

Comecei a trabalhar depois dos estudos, dias aborrecidos daqueles que passam sem darmos pelo virar da página, num clima branco e asséptico sem objectivos. Envolvi-me com o director do centro, casado, durante alguns meses, até que foi transferido para Mirandela e nunca mais dele ouvi.

Deles dois, só restam fotografias de que me recortei.

O pior de viver sozinho numa cidade grande onde não se cresceu e não se têm muitos amigos é… tudo. Talvez os invernos sejam o pior, os céus cinzentos têm aquela química quase mágica de nos deprimir até as pestanas, e roubar o brilho dos olhos.

Refugiava-me em livros e histórias e salas de cinema cheias, mas onde se pode estar muito sozinha. Uma mulher só atrai sempre olhares e conversas, mas nunca nada me interessou muito, tornei-me apática e incapaz de ter relações sérias. Dias e dias à frente de uma televisão ligada em canal nenhum, o som a confundir-se com a chuva lá fora, comecei a perguntar-me se isto tudo valeria a pena, se não haveria mais nada. A solidão fez-me perder às voltas na minha própria cabeça.

Foi numa das poucas idas a Évora que isto acabou por mudar. Uma amiga que não via há mais de 15 anos deixou-me um cachorro nos braços e disse: “Toma, vais ver que vais gostar.”

Chamei-lhe Zulu, p’lo pelo castanho, ao meu boxer de 60 kilos e forte como um boi, que como um cão de cegos, me levou para longe do sítio sossegado que procurava para morrer.

 

A conclusão do exercício. Um texto na primeira pessoa, inspirado pelo local e personagem criados previamente, e com o seguinte mote: «Eu andava à procura de um sítio sossegado para morrer» (palavras com que o Paul Auster começa o livro “As Loucuras de Brooklyn”). Ler isto em voz alta deixou-me triste a mim mesmo, mas ao escrever sabia que queria um final feliz.



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