domingo, 20 de abril de 2014



ela comia pérolas

Não havia ninguém vivo naquele T1 de solteiro, as luzes apagadas e a noite lá fora, ar de há muito não ter gente dentro, o pó já pousado nos poucos móveis. Ninguém, excepto o dono da casa, que à secretária no quarto, estava debruçado sobre a única foto que tinha dela, tirada fazia 2 meses.

Aproximamo-nos devagar por trás, sobre o ombro espreitamos a foto solitária no tampo acrílico sobre cor de pinho do ikea.

Na pouca luz do quarto, só de um candeeiro pequeno ao lado da cama, observamos também a foto com grão.

Adivinhamos que os olhos dele estão focados nela, de cabelos pretos curtos brilhantes, e no sorriso que dirige ao fotógrafo. Alterna entre o sorriso aberto dela com o sorriso aberto dele ao lado dela, na mesma fotografia. Compara as pontas dos lábios levantados, os dentes sorridentes, o brilho nas bochechas cheias.

Duas horas depois, em que não o vemos mexer e só o sabemos vivo porque os olhos se mexem e o peito sobe e desce devagar mas sem cessar, vemos o que ele já viu, o que ele não suspeitara quando a foto foi tirada.

Ao sorriso dele, em que está toda a vida e alegria de um momento, contrasta um sorriso um nada menos autêntico, um nada forçado, um nada de eu-não-estou-toda-aqui.

Diz-se que podemos ler muito nos olhos dos outros, mas nesta fotografia quem fala é o arquear incompleto dos lábios dela, num sorriso menos que quase nada genuíno.

Saímos do quarto, deixamo-lo entregue à fotografia, e não precisamos de perguntar porque há pérolas brancas, a brilhar como luas, espalhadas pelo chão da casa.



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