quarta-feira, 12 de agosto de 2009



Num aniversário em 1998

… um par de amigos deu-me o “Leviathan” do Paul Auster. O livro começa com “Há seis dias, um homem explodiu à beira de uma estrada no Norte de Wisconsin.” Vendo pela posta anterior, percebe-se que o amigo Paul estuda muito bem a forma como começa os seus livros.

Adorei este livro, e dei-o a dezenas e dezenas de outros amigos, em toda a espécie de ocasiões. Quase comprei lotes industriais do livro para oferecer e espalhar a verdade e a luz. Depois disto, só me voltou a acontecer algo de parecido com o “Beatles” do Lars Saabye Christensen, mas em menor escala. Todos os Leviathans que oferecia levavam uma mesma dedicatória, além dos obrigatórios “Parabéns” por fosse qual fosse a ocasião:

«Depois apontei para o estúdio e, sem dizer mais nada, conduzi-te através do jardim sob o sol quente da tarde. Subimos as escadas juntos e já lá dentro entreguei-te as páginas deste livro.»

Estas palavras, em que apenas alterava o que assinalei a bold, vêm do próprio livro. Adivinha de onde.

 

(sendo provável que sejas uma das pessoas que recebeu uma cópia, e se não reparaste na altura, ficas pois agora a saber)





Personagem: Um Sítio Sossegado para Morrer (Parte III e Última)

Chamo-me Neli Castilho Neves, e esta é é a minha história.

Saí de Évora e do calor do Alentejo para fugir de casa dos meus pais. A desculpa oficial era que o curso só havia na capital, a verdade era precisar de sair da casa bafienta cheia de móveis de castanho muito escuro em que o sol só entrava para iluminar o pó suspenso no ar.

Apaixonei-me por um colega de curso duas semanas depois de começarem as aulas, com a rebeldia da juventude a contrariar a solidão melancólica no sangue, o meu primeiro namoro e amor da minha vida ainda hoje, de quem me lembro quando menos me espero. Trocou-me por uma loira de matemática, alguns meses depois, e exibiu a felicidade mútua até ao fim do curso.

Comecei a trabalhar depois dos estudos, dias aborrecidos daqueles que passam sem darmos pelo virar da página, num clima branco e asséptico sem objectivos. Envolvi-me com o director do centro, casado, durante alguns meses, até que foi transferido para Mirandela e nunca mais dele ouvi.

Deles dois, só restam fotografias de que me recortei.

O pior de viver sozinho numa cidade grande onde não se cresceu e não se têm muitos amigos é… tudo. Talvez os invernos sejam o pior, os céus cinzentos têm aquela química quase mágica de nos deprimir até as pestanas, e roubar o brilho dos olhos.

Refugiava-me em livros e histórias e salas de cinema cheias, mas onde se pode estar muito sozinha. Uma mulher só atrai sempre olhares e conversas, mas nunca nada me interessou muito, tornei-me apática e incapaz de ter relações sérias. Dias e dias à frente de uma televisão ligada em canal nenhum, o som a confundir-se com a chuva lá fora, comecei a perguntar-me se isto tudo valeria a pena, se não haveria mais nada. A solidão fez-me perder às voltas na minha própria cabeça.

Foi numa das poucas idas a Évora que isto acabou por mudar. Uma amiga que não via há mais de 15 anos deixou-me um cachorro nos braços e disse: “Toma, vais ver que vais gostar.”

Chamei-lhe Zulu, p’lo pelo castanho, ao meu boxer de 60 kilos e forte como um boi, que como um cão de cegos, me levou para longe do sítio sossegado que procurava para morrer.

 

A conclusão do exercício. Um texto na primeira pessoa, inspirado pelo local e personagem criados previamente, e com o seguinte mote: «Eu andava à procura de um sítio sossegado para morrer» (palavras com que o Paul Auster começa o livro “As Loucuras de Brooklyn”). Ler isto em voz alta deixou-me triste a mim mesmo, mas ao escrever sabia que queria um final feliz.



terça-feira, 11 de agosto de 2009



Personagem: O Quarto (Parte II)

É um quarto pequeno, com paredes verdes, há uma lâmpada amarela a um canto a lançar sombras sobre a pouca mobília: uma estante, um sofá de 2 pessoas, uma televisão numa mesinha baixa, dois quadros na parede. A televisão está sintonizada em canal nenhum, com estática, e lá fora, de um 15º andar, a chuva base com força contra o vidro da janela.

 

Segundo parte do exercício: inspirados por um som que parecia o da chuva, inventar um local, e descrevê-lo.Este texto também não foi lido aos colegas.





Personagem: Neli (parte I)

Neli Castilho Neves tem 32 anos, nasceu em Évora, mas veio para Lisboa estudar Biologia Molecular com 18. Vive sozinha com o Boxer Zulu, gosta de tirar fotografias pela cidade e ler sempre que pode. Teve duas grandes relações falhadas, com 8 anos de intervalo, e decidiu que ter um cão era muito mais simples. Mede 1 metro e 70, é morena de cabelo curto e roliça, de olhos muito escuros, e passa o dia de trabalho num laboratório a espreitar para microscópios e a manusear instrumentos delicados em vidro.

 

Primeira parte do exercício: escolher um nome de uma pessoa na lista telefónica, e inventar uma caracterização, criar uma pessoa. Não consegui evitar colocar na descrição um puzzle de pessoas que já conheci. Este texto não foi lido aos colegas.





Personagem: Tiago

Quando ninguém diria que… pudesse acontecer uma tragédia, Tiago perdeu o pai, o maior amigo de brincadeiras, num acidente de viação ao voltar do trabalho.

Mais do que o pai e um amigo, Tiago, quase com 4 anos, perdeu alegria naquele acidente. A mãe, sempre ausente no trabalho e acompanhada algum tempo depois por outro par de calças cinzentas que cheiravam diferente das do pai, não notou, e não o pôde substituir.

Cresceu educado pelas duas empregadas de Pernambuco, que lhe falavam do pai e lhe mantinham um português diferente na ponta da língua.

Quando foi estudar, escolheu a profissão do pai, e percebeu que só uma coisa que poderia restaurar o sorriso há muito perdido, o poder dar a um filho seu o que não pudera ter. Afinal, também tinha um sonho secreto.

 

O exercício começou com “entrevistas” ao parceiro do lado, a que escolhemos dar respostas inventadas. Com base nessas respostas, tivemos de escrever um texto iniciado e terminado com as palavras que marquei a bold. Este Tiago não é, assim, meu, mas do outro João (obrigado…).





Personagem: José Ching

José Ching nasceu em Macau, filho de pais portugueses, e veio para Portugal, depois de uma vida inteira como  barbeiro na Rua José Silva de TugaTown, vencido pelos cortes pente-1 da generalidade da população.

Estabeleceu-se na terra dos pais, onde ninguém o conhecia mas tinha tios distantes, e ainda com boa idade para dar aos dedos, reabriu o negócio à antiga. As duas maneiras doces de banana fassi, e os cortes assertivos e geométricos de lâmina e tesoura ganharam-lhe uma reputação e clientela.

Quem passa por lá hoje, estranha o ar vagamente oriental dos homens da Vila, mas o segredo está bem guardado.

 

Escrito com base numa fotografia de confrontos entre polícias e manifestantes num país do oriente, e depois da selecção de um deles, num retrato a preto e branco de uma barbearia à antiga. Exercício de desenvolvimento de personagem.





Houve um tempo em que a minha janela se abria para…

… a copa de uma árvore, num terceiro andar, e podia ver as cabeças das pessoas cada uma na sua vida, os carros a passar, uma pastelaria no prédio em frente sempre num corropio de gente a entrar e sair, sempre com croissants de chocolate especialidade, que se derrete nos cantos da boca.

quando cresci, subi para o sétimo andar, e quando comecei a estudar, para o décimo terceiro andar. comecei a trabalhar no vigésimo sétimo andar, casei-me no quinquagésimo sexto andar, consegui vista para o mar no andar duzentos e trinta e três… cada andar mais acima mais baixo que o anterior, como se a selecção natural nos estivesse a compactar verticalmente, para acomodar mais e mais gente em altura.

com o tempo, deixámos de fazer a viagem para ir à rua, ruidosa e onde mal já se consegue respirar, e que mal conseguimos ver lá em baixo, pela minha janela. quando queremos passear, vamos para um dos andares-jardim, caminhar por entre as árvores importadas, lagos feng-shui e pássaros a chirlear, com as nuvens brancas almofadadas mesmo ao lado no meio do azul, num silêncio relaxante e calmo.

a única coisa de que sinto mesmo falta, é de ter o chocolate daqueles croissants nos beiços…

 

Isto era o TPC da 2ª aula… completar a frase do título. Claramente inspirado pelo filme “Brazil” do Terry Gilliam e pelos croissants de chocolate da Tarik.



sábado, 8 de agosto de 2009



o arranca corações

toda a gente conhece o santo graal, o cálice sagrado com o sangue de jesus. poucos conhecem o arranca corações, apesar de ter a mesma longevidade e ter impacto igualmente importante. como um alicate de dentista para arrancar dentes, o arranca corações, agora à venda nas melhores lojas, permite arrancar de corações os defeitos que deles queiramos remover, e purgá-los dos virus e células danificadas. também funciona com mágoas sentimentais, memórias, saudades, falhanços, traumas, dores, apertos no coração, e dizem que até seca lágrimas.

é vendido com duas pilhas AA, custa 49,99€, e se vires algum à venda, manda-me um mail, por favor.



sexta-feira, 7 de agosto de 2009



Há dias em que…

… só apetece sair de casa, esquecer o trabalho, zuma no carro e aqui vai ela. Ir tomar o pequeno-almoço a Monsaraz ou beber a imperial mais fresca do país com os pés na praia. Sozinho ou acompanhado, mulher música ou um livro, tanto faz. Só importa o céu azulinho, uma brisa simpática nos braços, um sorriso deleitado, e o prazer absoluto de NÃO FAZER NADA.

 

Exercício simples: completar a frase. :)





Victor, 20 anos depois

Vinte anos depois, Victor emancipou-se. Sempre fora gozado pelos amigo, aquilo de ter nascido num autocarro fora uma maldição, uma dádiva que bem teria dispensado. Todos os autocarros da cidade, mais de três mil, tinham a sua fotografia, que a mãe tinha o cuidado de actualizar anualmente. Mais célebre que o Cristiano Ronaldo, não havia onde não o reconhecessem.

Mas isso acabou. Agora comprou uma lambreta vermelha, a que chamava Virgínia, passou a usar barba (que rapava por altura da fotografia anual), e nunca mais pôs os pés num autocarro. Agora que era anónimo, agora sim, podia ter a sua ter a sua liberdade.

 

 

Inspirado num curto excerto do filme “Em carne trémula” do Almodovar, na cena em que a Penelope Cruz tem um filho, Victor, dentro de um autocarro. Acaba por ganhar, entre outros reconhecimentos, um passe vitalício. O exercício era imaginar a personagem 20 anos depois.



quinta-feira, 6 de agosto de 2009



Com cor

Era um aventureiro. Andou pela terra e pelo mar, dizem que foi à Índia de mochila às costas, jogar à bola com os marajás, a África vigiar os gorilas na selva verde, a Roma fintar o trânsito com a sua lambreta Virgínia, eléctrico de conhecer e viajar, ser turista louco, que não vê o mundo só pela janela da tv.

Decidiu parar aos 60 anos. Escolheu uma cidade que não a sua – porquê voltar a um sítio que já se conhece? – e passava os dias a ver as pessoas, sentado na esplanada, a servir-se do frasquinho de Licor Beirão que levava sempre com ele, rodeado de miúdos a brincar na relva, a trocar olhares com a senhora respeitável da mesa da frente, e a pensar que aqueles lábios ainda deviam saber beijar.

 

 

Numa folha de papel com duas colunas, “Palavras com cor” e “Palavras sem cor”, colocámos palavras inspiradas num fado cantado pela Mariza com letra do O’Neil. Depois fomos à rua, no Largo do Camões, e adicionámos mais palavras a cada uma das colunas. De volta à sala, cada um escolheu uma coluna, e escreveu um texto que as usasse, todas ou não. Escolhi a coluna das coloridas.





jogo de cartas

Ora bem, istos era assim, pah. Eu era tipo o yin, e ela o yang aquela cena a preto e branco dos chineses. Via-a todos os dias no bar do bairro, a beber um café ao final do dia, com pestanas à Jessica Simpson, uma cara assim redondinha e uma boca a pedir um beijo.

Já me estava a imaginar a passar os Verões lá na terra com a miúda, aquela podia ser assim tipo a paixão da minha vida, até a apresentava à malta!

Estava perdido nestas ideias a olhar a moça, quando me berram à orelha: “Joga pah! É a tua vez!”

Dei-lhe uma tampa 15 dias depois, fechei a porta do sonho, e joguei o às de trunfo.

 

 

O exercício começou com passarmos 9 objectos em redor da mesa. Para cada objecto, escolhíamos uma palavra. Depois, com as 9 palavras, e mais uma vez, tínhamos de escrever um texto. O costume :-). As minhas palavras foram: paixão, porta, verão, terra, beijo, orelhas, pestanas, tampa, yin-yang.





Binómio Fantástico

Alice adormeceu cedo, como de costume. Aninhada nos lençóis frescos de Verão. Entorpecida, os sonhos bateram-lhe à porta, e deixou-os entrar. Prmeiro os amigos e o recreio da Escola, a festa de aniversário, os dois peixes doirados com quem tinha longos diálogos. O último a entrar foi o maior do todos, com pompa alegre, Rufas O Cão. De pelo castanho, boca grande e olhos meigos, a língua pendurada e o rabo a abanar. Imaginou-se a brincar no jardim, na praia, era tudo o que podia querer.

À medida que foi ficando cansada de tanto sonhar, pensou em fazer um desenho do Rufas. Assim, ao acordar, teria consigo a imagem para levar no sonho seguinte.

Despertou com o sol a espreitar pelos estores, um olho de cada vez, a espreguiçar-se nos lençóis para onde estava a voltar, estremunhada. Lembrava-se vagamente de ter sonhado, e sentia-se mais cansada do que na véspera. Estranho.

Foi aí que viu, com surpresa, o seu Rufas pintado de fresco na porta do armário, e se lembrou de tudo.

 

 

A ideia aqui foi partir de duas palavras (no caso, cão e armário), e pensar em várias frases em brainstorm que as usassem. Depois, cada um escolheu uma frase e escreveu um texto à sua volta. A minha escolhida foi: “O cão pintado na porta do armário”). Bastam duas palavras para construir uma estória.





Inspirado pelo som dos foles dos Danças Ocultas

Há uns anos atrás, estava no Porto, quando soube de um concerto que ia acontecer em Águeda. Fui de comboio para Aveiro, e daí num regional com muitas, muitas paragens, pelo interior do Portugal real.

Esperava-me um som a quatro foles, dispostos em arco, que com um sopro do fundo da terra, sopraram genuína, muito genuína alegria a quem fez aquela viagem. Valeu a pena.

 

O exercício foi inspirado por um excerto de um CD dos Danças Ocultas, uma parte em que eles tocam apenas com foles. Penso que do primeiro CD, mas não estou certo. A ideia era escrever algo inspirado pelo som.





É urgente…

… ir de férias!

… fazer a proposta!

… tratar da inspecção do carro!

… aprender…

… voltar a mergulhar

… acabar de ler o livro do Bernardo Carvalho

… aproveitar o Verão e o Sol e a Relva e o Mar

… ter calma e ir devagar, respirar fundo e relaxar

… recuperar o controlo

… olhar para o futuro e esquecer o passado

 

O exercício, para aquecer as palavras, é óbvio….



quarta-feira, 5 de agosto de 2009



Guarda-Chuva de Chocolate, claro

Quando olhei pela janela, chovia, e chovia, e chovia. Hoje era sumo de ananás. Sempre era melhor que o sumo de pêssego da véspera, que me dava comichão no nariz, sujava a roupa e fazia a minha mãe obrigar-me a tomar um duche, depois de algumas festas reconfortantes no cabelo.

Voltei à minha caixa de cartão colorido, onde estavam arrumados, bem comprimidos, todos os meus brinquedos. Bem no fundo, bem escondido, estava o guarda-chuva de chocolate, que a mãe me deu na véspera, até já com as meias de vidro encharcadas, para me proteger da chuva.

 

 

O exercício era semelhante aos outros, era preciso construir um texto. Desta vez, não a partir de palavras soltas, mas palavras e expressões: meias de vidro, comprimidos, guarda-chuva de chocolate, festas no cabelo, caixa de cartão, tomar duche, comichão no nariz. Se és perspicaz podes lembrar-te do primeiro (e fabuloso) livro de crónicas do António Lobo Antunes, chamado “Pessoas Crescidas”, de onde foram tiradas todas estas frases. Quase que o adivinhei, lembrava-me perfeitamente do texto :-).





Vai um copo?

As manhãs são de prazer, as mãos num shiuuu…. não fales, não estragues, deixa-te sentir a acordar.

Com a tarde, o tempo muda. A frustração, o vento e chuva da trovoada, o campo alagado de lágrimas, a vela molhada, e o nosso barco que deixou de badolinar.

De noite, recomeça tudo. E é isso que nos faz continuar.

 

 

O exercício era o seguinte: foram passados copos de plástico em volta da mesa, com títulos. Por exemplo, um copo dizia Suave, outro dizia Vermelho. Em cada copo cada um de nós colocava um pequeno papel com uma palavra da nossa escolha, relacionada com o título do copo. Depois de todos os copos cheios, cada um tinha de tirar um conjunto de papéis, um de cada copo, e com isso construir um texto. Um pormenor: um dos copos tinha uma palavra inventada, que tínhamos de meter no texto. A que me saiu foi “badolinar”, que me lembrou “bolinar”. As outras foram: mão, nó, tarde, frustração, prazer, shiuu…, vela, campo, trovoada, manhãs.





Desvertebrado

Não sabia o que fazer. Sem desafogar a visa, rodeado por estranhos todo o dia, preso num desgrito, a despernear numa cadeira confortável com o computador à frente.

Desviajando-se pelos mares do Sul num ritual de mergulhos no mar, o sol, a mente longe. Aqui, na realidade, desnadando a cada minuto. A perder tempo.

 

O exercício era o seguinte: fizemos um brainstorm de verbos, e dos que foram ditos escolhemos 5. Tínhamos de adicionar o prefixo “des” e fazer com isso um texto. Os meus verbos foram: afogar, viajar, gritar, nada, espernear.





Postais

Deixei-te no campo de batalha em Marte, no calor do Alentejo como os teus longos cabelos, sem um abraço sequer. Foi a nossa sorte, foi o nosso destino, foi a nossa cama de espinhos.

Gostava agora de poder voltar a dizer-te Olá, enquanto vou ficando louco longe de ti e de mim mesmo, mas falar-me ao espelho não é o mesmo.

Tarde demais.

 

O Exercício era o seguinte: foram passados em volta da mesa 14 postais, a maior parte deles com reproduções de quadros. Para cada um destes, tínhamos de escrever uma frase. Das 14 frases resultantes, tínhamos de escolher as palavras que gostávamos mais, e com essas, fazer um texto. As palavras que escolhi foram: espinhos, abraço, Marte, espelhos, Alentejo, louco, campo, longe, mim, longos, Olá, sorte. Acima está o resultado.





Escrita Criativa

Comecei hoje o curso. Somos 8 pessoas, 4 homens e 4 mulheres, das mais diversas origens e idades, e ao todo são 4 aulas de 2h30, passadas a maior parte do tempo a escrever “em folha branca”. Vou deixar aqui os textos dos exercícios que fazemos nas aulas. Não por terem alguma espécie de valor intrínseco, mas por curiosidade. Para não estragar o eventual efeito, primeiro mostro o texto, e depois o que levou a ele.



terça-feira, 4 de agosto de 2009



Dizer o que nos vem à cabeça

"Dizer o que nos vem à cabeça não é prova de honestidade mas de falta de senso comum. [...] As relações são frágeis, e o desrespeito verbal, a verborreica excessiva, a falta de contenção, o uso do espaço da relação como vazadouro emocional facilmente conduzem a um cansaço que, como dizia o poeta, não é disto nem daquilo." (revista pública 17maio2009, entrevista com psicóloga Dra. Isabel Leal).



domingo, 2 de agosto de 2009



Onde?

Onde estão as minhas “ronhas”, e as minhas “bimbas”? tenho também aqui muitas para dar… raios partam os Domingos! (e a mim mesmo)

 

Valerá a pena fingir-me feliz se não o estou? se isto me custa mais do que esperava? dou-te a vitória… como diz o Palma… “quem ganhou, ganhou, e usou-se disso / quem perdeu há-de ter mais cartas para dar”. Sei que tenho muitas cartas para dar. Só não é a quem eu as queria dar. Mas certamente será a alguém que as mereça mais, e que possa ser a metade que tu pelos vistos não pudeste ser. Ri-te à vontade. Goza por dentro. Sente-te feliz contigo mesma. Eu tenho pena de me ter apaixonado por quem não era quem eu queria que fosse. Hey, não me posso queixar. Fui de cabeça e parti a cara. Era espectável, não :-)? Que desperdício de investimento, de paixão, de força de vontade, de querer e acreditar. Ainda podia voltar à luta, eu sei. Mas a porta está fechada. E não tenho a chave. E se tivesse…?





Há muitos anos

… mesmo *muitos* anos atrás, quando ainda estava na faculdade, subscrevia duas mailing lists de tipos “marados dos cornos”. Uma chamava-se Leri (o nome inspirado no Timothy Leary) e a outra Future Culture, com várias pessoas em comum. Lembro-me na primeira de um tipo chamado “.rez” e na segunda do Andy “I Feel These Wires” Hawks. Discussões interessantes, nas quais era mais espectador que participava. Uma coisa que por vezes faziam na 1ª eram “net-trips”. Era malta muito dada ao ácido, se me compreendes, e por vezes combinavam noites de ácido e net, à frente do computador, a mandar mails para a lista. A maioria eram mensagens “stream of consciousness”, em que discorriam sobre o que lhes passava pela cabeça em catadupa, com pouca lógica ou sentido para quem não os conhecesse intimamente (e mesmo esses…). Sonhos ácidos electrónicos, e garanto-vos que interessantes de observar.

Interessantes o suficiente, aliás, para me levar a ler (metade) do livro do Hoffman sobre a descoberta do LSD, e das pedras valentes que o tipo apanhou para estudar a droga.

Nunca experimentei, no entanto. E admito que continuo a ter essa curiosidade.

(não é crime, pois não?)

 

ps-acabei de encontrar um dos 4 ficheiros de citações que fiz destas listas… aqui. E logo uma das primeiras é: «i NEVER watch tv any more; i can't interact with it.»

E no final até tem a minha .sig da altura: «Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha.» - José Saramago, "Memorial do Convento"

ps2- é curioso o que encontro na net se googlar pelos meus emails antigos, como jota@mujave.inesc.pt, jota@inesc.pt ou jota@amadeus.inesc.pt (nesses tempos ainda não havia spam, as pessoas não tinham medo de ter emails públicos). Arqueologia de mim mesmo, mais uma vez.



sábado, 1 de agosto de 2009



it gets awfully quiet in that place

quase todos os posts que aqui deixo são inspirados nos títulos. aparecem-me na cabeça sem precisar de os trabalhar e pensar, e neste caso foi também isso que aconteceu. acordei tarde, muito tarde, depois de uma noite de vício, e veio-me isto à cabeça. acho que é de uma música, mas não estou a conseguir lembrar-me.

seja como for, depois de um sono irregular e conturbado, a frase faz todo o sentido para mim. fica de facto muito quieto por lá.

pode ser um sítio qualquer. mas eu sei onde é.

conheces A Terra dos Sonhos de que fala o palma? ele escolheu cantar-nos do lado positivo, mas também há por lá os pesadelos. e parece-me mais provável que fique quieto nesse outro lado do que no que foi cantado.

isto tudo para dizer o quê? que posso confirmar. no outro lado fica de facto muito quieto. e como o sei?

ora, tens cabecinha, não tens? usa-a.



sexta-feira, 31 de julho de 2009



Message in a Blister

jillbioskop_mulherarmadilha 

Jill Bioskop, em A Mulher Armadilha de Enki Bilal.

Quanto ao que está a fazer, só o sabe Gogol D’Algol, o Gato de Riscas Verdes.





Sumos Criativos

A energia que gasto aqui não sei como a vou recuperar.

Tu que estás aí, o que me dizes? Ando aqui há 3 semanas em delírio sofrido, a postar diariamente porque as palavras se ficam dentro de mim causam uma explosão de chicha, e não sei o que é estar desse lado. Ou antes, o que seria, porque sei que me dirijo a uma pessoa imaginária: tu. :-)

Olá, figmento da minha imaginação. Já pensaste que podes ser quem eu quiser?

Tinha mais piada se fosses um pigmento da minha imaginação. Assim serias uma cor que só eu conhecia. Claro que mais ninguém a poder ver seria uma frustração, e seria internado passado pouco tempo se não aprendesse a calar o que vejo (se bem que julgar que tu existes também já é motivo quantum bastis para um colete de forças e doses industriais de químicos).

Se calhar até estou a delirar.

Vamos supor, academicamente, que estou a delirar, daqui em diante, e ver onde isso nos leva.



quinta-feira, 30 de julho de 2009



Com carinho, tristeza, e muita saudade

«Em questões de ciúme, a linha divisória entre imaginação, fantasia, crença e certeza freqüentemente se torna vaga e imprecisa. No ciúme as dúvidas podem se transformar em idéias supervalorizadas ou francamente delirantes. Depois das idéias de ciúme, a pessoa é compelida à verificação compulsória de suas dúvidas. O(a) ciumento(a) verifica se a pessoa está onde e com quem disse que estaria, abre correspondências, ouve telefonemas, examina bolsos, bolsas, carteiras, recibos, roupas íntimas, segue o companheiro(a), contrata detetives particulares, etc. Toda essa tentativa de aliviar sentimentos, além de reconhecidamente ridícula até pelo próprio ciumento, não ameniza o mal estar da dúvida.

Entre absurdos e ridículos, há o caso de uma paciente portadora de Ciúme Patológico que marcava o pênis do marido assinando-o no início do dia com uma caneta e verificava a marca desse sinal no final do dia (Wright, 1994). Mais absurda ainda é a história de outro paciente, com ciúme obsessivo, que chegava a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis restos de bilhetes engolidos (Torres, 1999).

Os ciumentos estão em constante busca de evidências e confissões que confirmem suas suspeitas mas, ainda que confirmada pelo(a) companheiro(a), essa inquisição permanente traz mais dúvidas ainda ao invés de paz. Depois da capitulação, a confissão do companheiro(a) nunca é suficientemente detalhada ou fidedigna e tudo volta à torturante inquisição anterior.

Os portadores de Ciúme Patológico comumente realizam visitas ou telefonemas de surpresa em casa ou no trabalho para confirmar suas suspeitas. Os companheiros(as) desses pacientes vivem dissimulando elogios e presentes recebidos ou omitindo fatos e informações na tentativa de minimizar os graves problemas de ciúme, mas geralmente agravam ainda mais.

O que aparece no Ciúme Patológico é um grande desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do companheiro(a). Há ainda preocupações excessivas sobre relacionamentos anteriores, as quais podem ocorrer como pensamentos repetitivos, imagens intrusivas e ruminações sem fim sobre fatos passados e seus detalhes

[…]

«O portador de Ciúme Patológico é um vulcão emocional sempre prestes à erupção e apresenta um modo distorcido de vivenciar o amor, para ele um sentimento depreciativo e doentio. Esse paciente com Ciúme Patológico seria extremamente sensível, vulnerável e muito desconfiado, portador de auto-estima muito rebaixada, tendo como defesa um comportamento impulsivo, egoísta e agressivo

Tirado daqui. Vale a pena ler.





Que me deixaste cá dentro

Cá deeeeeeeeeeentroooooo... Quem canta, seus males espanta, não é o que dizem? Pois se me vires por aí a abanar com qualquer coisa dentro, já sabes porque é, é a música que não consegue sair (afinal, não ia andar por aí a cantar na rua, ainda por cima com a minha bela voz :-)). É o mesmo exacto princípio do espanta-espíritos. Xooooo, espíritos! Tlim tlim tlim, junto à janela, não vão eles entrar... Eu cá, vou instalar um no fb.

E se nos dedicasse uma banda sonora, era o "Mala Vida".



quarta-feira, 29 de julho de 2009



Fita para o Cabelo

Ficaram coisas esquecidas, como ficam sempre nas relações. Umas meias roxas, uma fita para o cabelo. Encontrei-me contigo para tas devolver, para poder encerrar a porta do que foi o nosso breve mas intenso cruzamento na vida.

Voltei a ver-te sem saber como te ver. Já não te tinha, já não eras a minha princesa, e a mulher por quem fiz tudo e a quem me entreguei --- assim. Não tínhamos muito para nos dizer. Controlámo-nos para parecer frios e distantes, para fazer parecer que estávamos bem e felizes, que já nos deixámos um ao outro para trás. Sorrisos ao responder a mensagens de texto, a deixar perceber que a vida nos corre bem, e que o outro já não está nela - porque, afinal, não precisamos dele.

Trocamos o que temos de trocar, e os olhos prendem-se por mais tempo do que deviam. Sente-se o fogo a queimar por dentro, um peso no peito e a transpiração nas mãos, e a certeza racional que temos já não sabemos em que prato da balança pesa mais [1].

E depois, o que aconteceu, perguntam-me? Depois… o que querias tu que acontecesse? Eu também não sei. Isto é tudo ficção, afinal de contas. Certo?

 

 

[1] Já não há balanças com dois pratos. Talvez isso seja uma parábola, só por si.





FMM Sines 2009

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Voltei a Sines este ano, para mais uma série de concertosdde world music. Possivelmente o melhor festival do país para este “tipo” de música. De entre tudo o que ou/vi, os meus favoritos foram os tugas Oquestrata, que têm algumas canções geniais, a Rupa & The April Fishes, os Ukranians, o Victor Démé, o Debashish (ort?) e os Warsaw Village Band, que já tinha tido visto antes.

E ainda tive a sorte de aparecer em algumas fotografias (eu sou o da esquerda) :-).



terça-feira, 28 de julho de 2009



tHE dARKNESS

Um dos primeiros jogos que joguei na consola chama-se The Darkness. É um “shooter” mais ou menos convencional, mas que aos elementos brutais e de terror junta um romantismo inesperado, e que tem a cena mais emotiva que jamais vi num jogo.

Deixo-a aqui. É sobre perda, e sobre não se poder fazer nada contra isso.





Posta Administrativa

Este blog acabou de recuperar muitas das imagens que faziam parte de posts antigos, e que se haviam perdido quando a Baía das Gatas no Terravista foi levada por um temporal.

Viva, Viva!



segunda-feira, 27 de julho de 2009



amigos de mails de bonecos

a obsessão é lixada, não é? rima com paixão, ainda por cima. não que isso seja incomum. aposto que em português existem pelo menos mais 10 palavras que têm a mesma terminação, incluíndo esta que acabei de escrever. eu sei que é lixada, porque sei o que é viver uma obsessão. e tu, imagino que tu também saibas. é o que sentes e sinto agora. mas aos poucos, à medida que os dias passam, à medida que o que sentes dentro de ti se acalma devagarinho, que procuras fora de ti as ocupações que te limpam a mente, e vai doendo um pouco menos (só quando estás sozinh@), começas a ganhar batalhas contra essa obsessão. ainda te vais perguntando se não podias ter feito alguma coisa mais, recapitulando aqui e ali cenas boas ou cenas más, e congelando uma memória do que já não tens e já não vives. sei como isso é. os filmes que por vezes se fazem. “e se el@ me viesse bater à porta?” mandava-@ embora? mas a verdade é que a rotura aconteceu por um motivo, e sem isso mudar, antes penar (se é que) nos dias que passam. até ao dia que acordas mais leve e te sorri o coração, e de repente já não te dói, e o que resta são muitas fotografias arrumadas e outra oportunidade desperdiçada.

não sei se já passaste por isso. eu sim.





nunca é tarde demais

Finalmente, inscrevi-me. :-)

 

(ou: “nunca, é tarde demais” ?)



domingo, 26 de julho de 2009



Curriculum Vitae, de Rubem Fonseca (um conto)

A minha escolha para ler no curso de Contadores de Histórias. Sobre como elas não percebem.



sábado, 25 de julho de 2009



Solos de Guitarra 'slide' [Um Post Orgânico]

[Vou usar este post como base, e crescê-lo por dentro. Em tempos planeei fazer isto com um amigo, mas nunca avançámos para a ideia. Faço-o sozinho eu. Vale tudo, desde que seja a acrescentar palavras e frases, em qualquer lado do texto. Um pedaço todos os dias. É um post orgânico e reciclável.]

Quando me encontro com ele pela primeira vez, parece um monstro sonoro que entra em nós p'los ouvidos e pela boca e se deixa ficar cá dentro, como um vírus sem início e sem fim que não se sabe onde começa ou como terminar/cortar/queimar de uma vez por todas. Quando acaba o concerto, e a música já parou lá fora, e o recinto está meio vazio, o som fica dentro dos ouvidos a zunir. No chão restam latas de bebida, copos de cerveja de plástico, inúmeros pedaços de papel, beatas. Os despojos do circo moderno. Muitas histórias para contar, não duvido disso. Mas o que me preocupa é a minha própria história, e o som que está a zunir dentro de mim.

 

Estou dentro do Castelo à espera dos concertos e está o Victor Démé a tocar no som recinto, aquele blues interior que me faz sentir como se tivesse uma faca espetada no coração (o meu), uma música familiar que me faz arrepiar e que em tempos troquei contigo, no dia em que gostaste da minha música. Há sincronicidades q jogam contra nós, e esta só me vem magoar e fazer mal. Não preciso disto, já não quero estar aqui.

 

Vi-te a semana passada, sentada na relva com o teu rapaz. Um vestido verde, sandálias. Não és alta, tens um nariz altivo, uma expressão que primeiro pensei arrogante mas se tornou simpática. Percebi-te social pelos amigos que iam ter com vocês e te cumprimentavam animados, e o que me fez olhar-te foi o longo cabelo castanho e revolto numa trança selvagem, que por vezes levantavas, e bem que podias ser tu a miúda 100% perfeita para mim, mas como nessa outra estória, não te vou conhecer, e o destino não vai fazer não fez por nos juntar. Melhor sorte na próxima oportunidade. Procurei-te em fotos como ao Wally, e pouco mais encontrei que sombras. Para quê pensar nisso? Todos os dias nos cruzamos com estranhos que nunca mais vamos voltar a ver. Todos os dias. E em alguns dias, cruzamo-nos com pessoas que conhecemos e vamos deixar de conhecer, e se o soubermos, esses custam mais a passar.

 

Há muitos anos atrás, cruzei-me com uma pessoa que acreditei ter encontrado pelo Destino. Sou ateu, não acredito em nada que esteja para lá do sensorial, sou céptico. Mas todas as minhas células gritavam que Era O Destino. (Eu e esse Destino temos de ter uma conversa um destes dias). E de facto foi o Destino, mas não foi bom. Há coisas que são o Destino, que são destinadas a acontecer, e que estão destinadas a acabar mal (ou até, muito mal).
Seja como for, não acredito nisso do cem por cento perfeito, ou antes, não acredito que só haja UMA possibilidade, UMA pessoa 100% perfeita para cada um de nós. Acho (acredito) que existem inúmeras possibilidades de cem por cento, em cada momento.
E eu – neste momento - não estou a procurar cem, nem setenta e cinco sequer. Já me chega de paixões.

 

Tem um aspecto simpático e divertido, um feitio brincalhão, e quem a conheceu em tangente disse-me que parecia doce, até saberem qual o sabor. Um pouco como as amêndoas que nunca se sabe se vão ou não ser amargas. Isto fez-me pensar em café, que muitos  - como tu – enchem de açúcar até parecer um bolo, e que prefiro tomar com o sabor amargo que na realidade tem. Se calhar foi por isto que lutei tanto por ti, por estar habituado a amargos de boca, e dores no coração. Uma forma de masoquismo apaixonado. Daqui a muitos anos, quando já estiver nada em jogo, havemos de ter uma conversa, quando as rugas formarem pés de corvo nos olhos e já não tivermos o mesmo brilho no olhar, e aí vou-te explicar o que nunca foste capaz de compreender. Sempre me pareceste doce, mesmo quando já sabia que não eras, mesmo quando já te tinha provado.

 

O pior já passou, desta vez. Podes respirar de novo, moço.



sexta-feira, 24 de julho de 2009



Sempre o 'Quaresma'

"Mas o amor é para ser levado ao extremo, não é? Se não, não vale a pena: é uma companhia para ir ao cinema. Para isso prefiro ir sozinha. Eu adoro amar." (escrito num print antigo que reencontrei no carro, ao lado do banco do pendura, junto com cabelos teus).





Direito de Resposta

Já comecei esta carta várias vezes. Tenho os restos das outras amarfanhadas no chão. Só escorrem de mim palavras que não as que te quero dizer, e não gosto das formas que têm. E não penses no que se segue como uma montra. Não o uses como um pedestal daquilo que podes fazer os homens sentir. Porque como te disse tantas vezes, eu não sou um Homem qualquer. E não sou um troféu.

 

Olá,

Já passaram 15 segundos desde que nos despedimos, conscientes de que o que tínhamos contra nós era mais do que o que nos juntava. Zangados. Triste. Sei que desta vez não vou atrás de ti, e que vais aproveitar isso para fugir de vez, a coberto do que chamas de incompatibilidade e eu chamo de outra coisa. Sinto que não me vou voltar a despedir de ti, nem te vou voltar a ver.

Estes 15 dias custaram a passar. Senti angústia e mágoa, senti altos e baixos, vontade de estar sozinho com o vento num penhasco junto ao mar, junto com amigos a beber copos despreocupados, a pôr música muito alto para não me deixar ouvir os meus próprios pensamentos, a gritar sozinho no carro para te expulsar de mim, a recorrer ao ódio e à raiva como muletas. A pensar que já passaste até um aperto me mostrar que ainda não.
Não te vou procurar, e queria que tu o fizesses, e aperta-se-me o estômago de saber que não te vou ver mais e que nada disso vai acontecer.

Passados 15 meses, recordo a insensatez que foi o nosso encontro. A tua irracionalidade, a ausência de travão nas palavras, a imaturidade, a juventude. Penso que foi tudo um erro. Uma relação diferente de todas as outras por que passei, diferente da que tenho hoje com Respeito e Confiança, mas que se destacou pelos motivos errados. Recordo ainda a paixão que senti, os sonhos que construí, com uma vaga mágoa, e pergunto-me como estarás hoje.

Há 15 anos atrás, quando nos separámos, sabia que não teria nunca funcionado. Hoje, quando penso no passado, sinto Saudades tuas, sinto a falta da nossa intensidade, sinto a falta do teu sorriso que já só recordo vagamente, e dos teus longos cabelos. Nunca mais soube de ti, e imagino-te a errar entre grupos de amigos, incapaz de te prenderes. Levo a caixa que tem o teu nome para fora de casa, e dou-te um último Adeus. Foi melhor assim.

Esta é a minha carta de despedida às despedidas, espero.

João





a miúda 100% perfeita para mim

Gravei isto para ti. Pisca aí por baixo, se gostaste. Ou não pisques, se achares que eu não sei que aí estás. Pode não estar bem lido e não parecer uma história. Mas gravei-o só para ti, só para os teus olhos e ouvidos. E gostava de te estar a contar a história aqui, neste momento, agora, comigo, para ser uma coisa só nossa.

Aconteça o que acontecer, não te esqueças. Isto é só para ti.





Tenho uma carta tua no bolso

Recebi-a há muitos anos, depois termos cruzado as nossas vidas e deixado marcas indeléveis um no outro. Nunca fui capaz de a abrir e ler. Sinto medo do que possa conter, das palavras que possam estar lá soletradas. Não sei se é longa, curta, se soletra despedida, indiferença, ódio, amor ou saudade. E duvido que algum dia venha a saber.

Não a quero abrir, e não a consigo abrir. Prefiro viver sem saber, e com o conhecimento de que consigo viver com o desconhecimento.

No mito da caixa de Pandora, todos os males do mundo fogem da caixa, e só um resta, a Esperança:

Only Hope was left within her unbreakable house,
she remained under the lip of the jar, and did not
fly away. (fonte)

Prefiro viver com a incerteza da Esperança dentro da caixa, do que conhecer a realidade e perder os sonhos que tenho. Vai ficar comigo até ao fim dos meus dias.
Assim ao menos posso sonhar.

Também te escrevi uma carta. E nunca saberei se a leste. Leste?



quinta-feira, 23 de julho de 2009



I, Disposable

The primary use of this interface is to release unmanaged resources. The garbage collector automatically releases the memory allocated to a managed object when that object is no longer used. However, it is not possible to predict when garbage collection will occur. Furthermore, the garbage collector has no knowledge of unmanaged resources such as window handles, or open files and streams.

Use the Dispose method of this interface to explicitly release unmanaged resources in conjunction with the garbage collector. The consumer of an object can call this method when the object is no longer needed.

(parece estranho, mas este post pertence mesmo aqui)





esta noite é só minha

Esta noite é só minha





as putas das palavras são lâminas

E POR VEZES QUEREMOS QUE CORTEM.

 

Há uma expressão em inglês que reza assim:

«Sticks and stones may break my bones (but words will never hurt me).»

Pois digo-te: por muita boa vontade que tenhamos, as palavras podem ser muito mais violentas que os paus e que as pedras. O corpo cura as nódoas negras que lhes infligimos. Mas não há pomada para palavras.





Podia continuar a noite toda

tenho demasiadas palavras cá dentro. e não quero dizer todas. ou não sei como as dizer. ou não quero que saibas quais são as que estão a mais, ou quais são as que estão a menos.

podia continuar a noite toda.

são tantas as palavras, tantos os significados, as subidas e as descidas, as esquerdas e as direitas, as paisagens e as fotografias e os filmes e tantas tantas tantas as palavras.

que podia continuar a noite toda.

ninguém as iria ler. há muitas palavras não têm lugar e que não devem ser ditas ou pensadas. mas elas estão aqui todas dentro, e não sei bem o que lhes fazer. se fosse escritor, tinha um romance na ponta dos dedos, era começar agora e acabar com o nascer do sol. mas não sou escritor. sou só leitor.

mas podia continuar a noite toda.

apetecem-me palavras graves e esdrúxulas, adjectivos assertivos e coloridos, substantivos vigorosos, pronomes acusativos e os meus tão queridos advérbios de modo, mormente. os verbos a orquestrar a acção, e a fome a juntá-los todos uns aos outros numa sopa de palavras.

porque eu podia continuar a noite toda.

e ia estar a escrever para ti. como nunca fizeram antes, e como nunca vão voltar a fazer, foda-se.





Mensagem das Estrelas (A Carta Mais Importante)

Imagina uma carta. Um envelope amarelo de papel reciclado. Por fora só com o teu nome e morada, um selo da minha própria cidade, o carimbo redondo com a data de dois dias antes.

Já não se escrevem cartas. O que poderia ser isto? Abri, e tinha duas páginas manuscritas, em papel muito fino (quase transparente). Começava com Olá, e o resto é só meu. Mas era a Carta Mais Importante.

Se fosses tu a receber esta carta, o que querias que dissesse? De quem querias que fosse?

 

Sei que já não temos o hábito de parar para pensar. E não quero saber a resposta. Quero só que pares. E que penses.





“Dancing”

Conheceram-se por acaso numa festa de amigos comuns, dançaram juntos e os olhos e os corpos cruzaram-se em sincronia e não se puderam mais largar… saíram a dançar a uma música que só os dois ouviam, os corpos juntaram-se numa dança horizontal, os corações batiam ao mesmo ritmo, as vidas passaram a cantar-se ao som da mesma orquestra, os dias sem o outro voavam com o pé a bater e os dedos a tamborilar e a cantar baixinho sem som, e com o tempo a tiqueticar perceberam que aquela música que os juntava também era a música que os prendia, e que não podiam sair dela.

Nem quando o quiseram.





Meia Pessoa

Há um livro do Saramago que diz nas primeiras páginas:

Cuidado. Tem uma pessoa dentro.

O nosso personagem apoderou-se desta frase para livro muito seu. De capa preta, páginas muito brancas, escrevinhava em letra muito pequena e irregular os mais secretos pensamentos, no escape do quotidiano, no grito surdo para uma página de papel, numa organização de ideias e amores e raivas e paixões e alegrias.

O livro crescia todos os dias, como o livro do Destino, engrossavam-se as histórias que continha, os segredos secretos nunca destinados a ser lidos, apenas escritos, como aquele segredo gritado para um buraco numa árvore para lá ficar. Continha todas as histórias da humanidade.

Diz-se que na maioria dos casos de violação o violador é conhecido da vítima.

Um dia, um violador roubou esse depósito de experiências e sentimentos. Apoderou-se da vida alheia, dessa pessoa que habitava dentro das páginas  muito brancas do livro de capa preta. O nosso personagem sentiu um rombo no corpo e na vida, como quem perde um membro num acidente, sentiu-se sem aquilo que de mais íntimo tinha na sua vida, da sua própria vida.

Sem a parte da pessoa dentro do livro, tornou-se uma pessoa diferente, a pessoa que restava.

E odiou, com todas as suas forças.



quarta-feira, 22 de julho de 2009



Reencontro

Se me perguntassem pelos grandes amigos da minha vida, falaria do JM quando era miúdo. Do C. a partir do secundário, do H. a partir da universidade, e mais recentemente do L. São pessoas que conheço há dezenas de anos, e que conheço quase de olhos fechados.
Há 3 anos atrás, por termos deixado meterem-se assuntos profissionais em assuntos pessoais, deixei de ver e falar com o C. Ainda tentei retomar contacto várias vezes, mas sem sucesso, e acabei por desistir. Às vezes pensava que era uma estupidez, que amizades assim não podiam acabar desta maneira, engolia o acontecido e pensava em como o reencontrar.
Ora isso acabou de acontecer, quase à porta do meu escritório. Levantei os olhos e reconheci o rosto e o sorriso que se formou se calhar contra vontade, porque os Amigos a sério são assim.
Não te vou voltar a deixar afastar, man. Por muito tótó que tenhas sido. :-)



terça-feira, 21 de julho de 2009



Small Doses of Happyness

Uma dose

Soube há poucos dias que uma amiga de há muitos anos, por quem sinto muito afecto, encontrou aquela que parece ser a pessoa que há muito procurava e que, espero, a possa fazer feliz. É para mim uma fantasminha, porque é uma pessoa com quem apesar de falar há 7 ou 8 anos, e de viver na mesma cidade em que habito, nunca conheci e não sei se virei a conhecer. Talvez um dia, quem sabe, num café ao pé do mar, quando viver feliz e tiver 3 crianças e duas cadelitas cor de mel?

Duas doses

Anos atrás, vivi com uma mulher chamada R., caladinha e bonita, com quem acabei por me casar e depois separar. O tempo da relação tinha terminado. Fomos almoçar há dias, está de barriga enorme, apenas a dias de ter um rapaz. Claramente feliz, desejo-lhe tudo de bom, penso que queria isto há algum tempo, e fico também eu feliz por ela.

Três doses

Um grande amigo de há quase 20 anos, dos tempos de universidade e muitos trabalhos de grupo que baptizamos com nomes como “roteamento de embrulhos em áreas duplas desiquilibradas” fez 38 anos ontem. Depois de soprar as velas, para os poucos amigos que se reuniram em casa dele, recapitulou os trintas, que nas palavras dele foram muito recompensantes.  Dizia, feliz, pouco antes de beijar a namorada importada do país vizinho, que está ainda mais expectante para os quarentas que se aproximam.

 

 

Era bonito que estes três filmes terminassem aqui, com um E Viveram Felizes Para Sempre. Todos o merecem.





O Contador de Histórias

Há alguns meses atrás, numa posta com letras escondidas, cantarescrevilorei uma faixa da Souad Massi chamada Raoui (The Storyteller). Deixo-te o vídeo no tubo (enquanto não o removerem), com a música lindíssima, e a letra traduzida.

Raoui (the Storyteller) (daqui)

Oh storyteller tell us a story
Make it a tale
Tell me about the people of old
Tell me about 1001 Nights
And about Lunja daughter of the Ghoul
And about the son of the Sultan

I'm about to tell a story
We'll be far from this world
I'm about to tell a story
Everyone of us has a story in his heart

Narrate and forget we're adults
In your mind we're young
Tell us about heaven and hell
About the bird that never flew in his life
Make us understand the meaning of the world

Oh storyteller tell it just as they told you
Don't add anything, don't leave anything out
We could see into your mind
Narrate to make us forget this time
Leave us at once upon a time

 

Tenho uma estória para te contar. Queres ouvir?



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