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sábado, 15 de agosto de 2009



Rafael e a Viagem sem Fim

Chamo-me Rafael, tenho 27 anos, e sempre adorei viajar de comboio. Quando era miúdo, lembro-me de ser acordado às 6 da manhã pelos meus pais, no meio da bruma matinal, para uma viagem de 4 horas e ligações até ao nosso destino de Verão.

Anos depois, fiz viagens semanais para o norte profundo, para um namoro semanal como o dos pássaros. Passa-se muita coisa num comboio em movimento, não é só o mundo que corre lá fora.

Um dia, ao abrir a janela de manhã, pensei: estou irremediavelmente deprimido. Era bom que assim não fosse, e até conseguia sorrir com prazer, mas não estava a dar. Fui para a Estação Oriente, pedi um bilhete para o próximo comboio a passar. Perguntaram-me o destino, tentando ajudar, mas sabia que não queria que me dessem a mão. “O próximo, e para longe.”

Apanhei-o por pouco, o relógio a tiquetaquear, tive de correr na plataforma. Era um comboio regional à antiga, e o suor escorria-me pela cara quando me sente, com o calor da corrida e da carruagem de metal.

Não queria pouca, mas muita terra, o corpo pedia-me como louco que me tornasse anónimo no meio de Vítores, Gilbertos, Alices e tantos outros ao meu lado.

Quando a viagem chegou ao fim, depois de quarenta e sete paragens, no interior do país, decidi prolongar a minha estadia no comboio, e entrei noutro para outro destino, para uma viagem interminável. Só com uma mochila às costas, passei por todo o lado, até os nomes dos sítios perderem significado e a barba se avolumar no rosto. Era uma espécie de maldição, senti, mas tinha preguiça de deixar aquela liberdade.

Quando passei a fronteira da Croácia, e andava pelos corredores das carruagens à procura de onde me sentar, vi-a a vir em direcção a mim. Também com uma mochila às costas e um brilho triste nos olhos profundos, morena e com ar estrangeiro. Mantive o passo, mas por dentro já estava a correr.

Se tivesse tido tempo de pensar, teria pensado que ela podia ser a paixão da minha vida. Mas não tive. Encontrei maneira de meter conversa, atabalhoadamente. Chamava-se Snjezana, que em português significa Floco de Neve, e na conversa que conseguimos ter senti que os dois sorrisos de viajante se iluminaram, com uma tontura de prazer confundida com o balançar da carruagem.

Horas depois, na carruagem-cama, quando nos beijámos e tocámos pela primeira vez, e depois do silêncio em que não se pode falar para não estragar, fizemos o nosso contrato vitalício:

Continuar sempre aquela viagem sem rumo. Mas agora, a dois.

 

 

Exercício final do curso. Estoirante: escrever uma história usando uma escolha de 10 palavras, 10 frases/expressões, 2 a 4 personagens e até 5 espaços/locais, de entre uma lista com uma recolha que a ‘stora compilou durante as 3 aulas anteriores. Achei interessante que a história se construiu em mim logo durante a escolha das 10 frases. Inspirações que vieram à cabeça durante aqueles 20 minutos foram o filme “2046” do Wong-Kar Wai, que tem uma longa viagem de comboio, o conto da Miúda 100% perfeita do Haruki Murakami que aqui li há umas semanas atrás, e uma amiga croata que tem o nome que usei (“Floco de Neve” era o meu 2º personagem…).

Adorei o curso, e recomendo-o a todos os que gostam de brincar com palavras.





Quando for grande não quero ser…

… nem informático, nem advogado, nem jornalista, nem trabalhar num escritório com ar condicionado, o dia todo sentado numa cadeira à frente das mesmas pessoas e do mesmo computador, a ver a rua lá fora.

Não quero fazer as mesmas coisas todos os dias, ter de levar o raio do carro à inspecção, perder horas de vida no trânsito, a beber café para combater o sono que tenho TODOS-OS-DIAS.

Não quero pagar contas, conhecer poucas pessoas, não ter tempo de ir a sítios, não quero ter amarras nem grilhetas, não poder passar todos os dias a viajar e ouvir línguas estranhas.

Não quero irritar-me, poluir o ambiente, fazer barulho, ter tristezas.

Não quero estar sozinho, e não quero ser só mais um dos muitos biliões de pessoas que já viveram neste planeta com tanta cor para conhecer.





Para crianças: A Rainha Miriam

Era uma vez Miriam, a Rainha do Mar. Poseidon, o seu marido, estava na lua, tinha ido mostrar aos filhos o Mar da Tranquilidade.

A Rainha Miriam passava os seus dias sem grande actividade, rodeada de aias sereias, mas na verdade aborrecida por não ter muito que fazer.

Numa noite de tempestade, em que lá em cima se levantavam grandes ondas e só os raios iluminavam o fundo do mar, bateram à porta do castelo de coral.

Uma sereia foi abrir, e para seu espanto viu um unicórnio branco, todo molhado, a pedir para falar com a Rainha, com o ar mais triste do mundo.

“Rainha Miriam, venho-lhe com um pedido especial, mais ninguém me pode ajudar!”

“O que se passa, Unicórnio?”

“Fui mandado pelo meu príncipe, do Mundo Seco, para lhe pedir ajuda. A princesa, a mais bela moça do reino, foi presa por um monstro do mar. Disse a Árvore Falante que os viu a desaparecer nas águas, e preciso de quem os vá salvar!”

Miriam, a Rainha, pensou um momento e respondeu.

“Unicórnio… já lá vai o tempo de me envolver em aventuras… mas vou ajudar-te.”

Saíram juntos do castelo, a Raínha montada no veloz Unicórnio branco, em direcção ao mar do monstro.

E a seguir, o que achas que aconteceu?

 

 

Outro exercício para crianças. Neste caso tivemos como mote uma selecção de palavras de entre um conjunto identificado como comum em histórias infantis, bem como no conto “A Princesa e a Ervilha”. Acabou por ficar longo demais, tive de terminar com um convite à interactividade :).





Para crianças: O que aconteceria se um crocodilo vos batesse à porta pedindo rosmaninho?

Era uma vez uma tartaruga que vivia no tronco oco de uma árvore, na Austrália dos cangurus e avestruzes. Chamava-se Zé Dundee, e tinha quase trezentos anos bem contados.

Um dia, estava Zé Dundee a fazer um chá gelado, com os seus quatro chinelos, camisa branca de alças e calções, quando lhe bateram à porta do tronco.

“Estranho”, pensou, “é meio-dia e ponto, e está tanto calor. Quem poderá ser?”

Espreitou pelo buraco da porta, e viu que era o vizinho, o crocodilo Jack Aré. Abriu, e perguntou: “Amigo Jack, o que o trás à rua com este sol?” “Oh, meu amigo, a lama do lago secou, e nem uma pinga de água ficou. Como posso refrescar-me assim? Até para dormir está calor demais! Queria era fazer como os ursos e hibernar, mas durante o Verão!” “Oh, meu vizinho, já devia ter dito. Não tenho água de sobra, mas dou-lhe um pouco deste chá de rosmaninho, e aposto que só acorda quando o Outono chegar!”

E assim foi. A tartaruga Dundee no seu tronco oco, Jack a dormir no pouco lodo do rio, ambos passaram o Verão quase sem dar por ele.

 

Outro exercício de escrita de uma história para crianças. :)





Para crianças: A tartaruga e a lebre

“Olha lá”, diz a tartaruga, “que que estás aí deitado na relva, ouvi dizer que eras o coelho mais rápido desde o bugs bunny!” “É verdade, Sr. Tartaruga. Porquê, vai desafiar-me para uma corrida'? Pensa que não conheço a história? olhe que eu não sou tolo!” “Nah, nada disso”, responde a tartaruga, “com este calor estava só a pensar se não te incomoda essa gravata” “mmm… bem, sim. Mas que quer? Isto na sociedade dos coelhos é preciso ter muito estilo!”

 

Isto era só um pequeno exercício para aquecer as palavras, numa aula metade dedicada a textos para crianças. :)



quarta-feira, 12 de agosto de 2009



RAIOS PARTAM

Estou completa e sobejamente irritado [1].

Olha, passou-me. Tinha-me esquecido do que queria dizer, mas acabo de me recordar, por isso passou-me a raiva furiosa com que me aprestava para partir objectos [2] frágeis contra a parede.

Vou desta forma recomeçar.

Hoje na aula de escrita criativa estava a ouvir a João ler o texto final dela, quando uma frase do texto me saltou aos ouvidos:

“…preciso urgentemente que seja amanhã…”

Acho que deixei de ouvir a partir daí (… sorry!), porque esta frase me agarrou pelos ombros, olhou por dentro dos olhos, e me disse: é isto, percebes?Também eu preciso disso.

 

Têm havido vários textos que me agradaram ouvir ali, nestas 3 aulas. Muitas vezes são pequenas frases, outras a beleza do todo, os adjectivos inesperados, a crueza espontânea. Outras vezes é difícil não me deixar levar para o mundo da lua (já te contei que é feita de queijo?), admito. Posso não ter muito jeito para dançar, mas as palavras podem deixar-me muito mais tonto.

 

[1] Já te falei da minha paixão aos advérbios de modo, cujo domínio é o melhor representante do genuíno domínio da língua portuguesa?

[2] Nesta palavra, o “c” deve ser pronunciado de forma dura, como se fosse um k: objektos. Só porque sim.





Personagem: Um Sítio Sossegado para Morrer (Parte III e Última)

Chamo-me Neli Castilho Neves, e esta é é a minha história.

Saí de Évora e do calor do Alentejo para fugir de casa dos meus pais. A desculpa oficial era que o curso só havia na capital, a verdade era precisar de sair da casa bafienta cheia de móveis de castanho muito escuro em que o sol só entrava para iluminar o pó suspenso no ar.

Apaixonei-me por um colega de curso duas semanas depois de começarem as aulas, com a rebeldia da juventude a contrariar a solidão melancólica no sangue, o meu primeiro namoro e amor da minha vida ainda hoje, de quem me lembro quando menos me espero. Trocou-me por uma loira de matemática, alguns meses depois, e exibiu a felicidade mútua até ao fim do curso.

Comecei a trabalhar depois dos estudos, dias aborrecidos daqueles que passam sem darmos pelo virar da página, num clima branco e asséptico sem objectivos. Envolvi-me com o director do centro, casado, durante alguns meses, até que foi transferido para Mirandela e nunca mais dele ouvi.

Deles dois, só restam fotografias de que me recortei.

O pior de viver sozinho numa cidade grande onde não se cresceu e não se têm muitos amigos é… tudo. Talvez os invernos sejam o pior, os céus cinzentos têm aquela química quase mágica de nos deprimir até as pestanas, e roubar o brilho dos olhos.

Refugiava-me em livros e histórias e salas de cinema cheias, mas onde se pode estar muito sozinha. Uma mulher só atrai sempre olhares e conversas, mas nunca nada me interessou muito, tornei-me apática e incapaz de ter relações sérias. Dias e dias à frente de uma televisão ligada em canal nenhum, o som a confundir-se com a chuva lá fora, comecei a perguntar-me se isto tudo valeria a pena, se não haveria mais nada. A solidão fez-me perder às voltas na minha própria cabeça.

Foi numa das poucas idas a Évora que isto acabou por mudar. Uma amiga que não via há mais de 15 anos deixou-me um cachorro nos braços e disse: “Toma, vais ver que vais gostar.”

Chamei-lhe Zulu, p’lo pelo castanho, ao meu boxer de 60 kilos e forte como um boi, que como um cão de cegos, me levou para longe do sítio sossegado que procurava para morrer.

 

A conclusão do exercício. Um texto na primeira pessoa, inspirado pelo local e personagem criados previamente, e com o seguinte mote: «Eu andava à procura de um sítio sossegado para morrer» (palavras com que o Paul Auster começa o livro “As Loucuras de Brooklyn”). Ler isto em voz alta deixou-me triste a mim mesmo, mas ao escrever sabia que queria um final feliz.



terça-feira, 11 de agosto de 2009



Personagem: O Quarto (Parte II)

É um quarto pequeno, com paredes verdes, há uma lâmpada amarela a um canto a lançar sombras sobre a pouca mobília: uma estante, um sofá de 2 pessoas, uma televisão numa mesinha baixa, dois quadros na parede. A televisão está sintonizada em canal nenhum, com estática, e lá fora, de um 15º andar, a chuva base com força contra o vidro da janela.

 

Segundo parte do exercício: inspirados por um som que parecia o da chuva, inventar um local, e descrevê-lo.Este texto também não foi lido aos colegas.





Personagem: Neli (parte I)

Neli Castilho Neves tem 32 anos, nasceu em Évora, mas veio para Lisboa estudar Biologia Molecular com 18. Vive sozinha com o Boxer Zulu, gosta de tirar fotografias pela cidade e ler sempre que pode. Teve duas grandes relações falhadas, com 8 anos de intervalo, e decidiu que ter um cão era muito mais simples. Mede 1 metro e 70, é morena de cabelo curto e roliça, de olhos muito escuros, e passa o dia de trabalho num laboratório a espreitar para microscópios e a manusear instrumentos delicados em vidro.

 

Primeira parte do exercício: escolher um nome de uma pessoa na lista telefónica, e inventar uma caracterização, criar uma pessoa. Não consegui evitar colocar na descrição um puzzle de pessoas que já conheci. Este texto não foi lido aos colegas.





Personagem: Tiago

Quando ninguém diria que… pudesse acontecer uma tragédia, Tiago perdeu o pai, o maior amigo de brincadeiras, num acidente de viação ao voltar do trabalho.

Mais do que o pai e um amigo, Tiago, quase com 4 anos, perdeu alegria naquele acidente. A mãe, sempre ausente no trabalho e acompanhada algum tempo depois por outro par de calças cinzentas que cheiravam diferente das do pai, não notou, e não o pôde substituir.

Cresceu educado pelas duas empregadas de Pernambuco, que lhe falavam do pai e lhe mantinham um português diferente na ponta da língua.

Quando foi estudar, escolheu a profissão do pai, e percebeu que só uma coisa que poderia restaurar o sorriso há muito perdido, o poder dar a um filho seu o que não pudera ter. Afinal, também tinha um sonho secreto.

 

O exercício começou com “entrevistas” ao parceiro do lado, a que escolhemos dar respostas inventadas. Com base nessas respostas, tivemos de escrever um texto iniciado e terminado com as palavras que marquei a bold. Este Tiago não é, assim, meu, mas do outro João (obrigado…).





Personagem: José Ching

José Ching nasceu em Macau, filho de pais portugueses, e veio para Portugal, depois de uma vida inteira como  barbeiro na Rua José Silva de TugaTown, vencido pelos cortes pente-1 da generalidade da população.

Estabeleceu-se na terra dos pais, onde ninguém o conhecia mas tinha tios distantes, e ainda com boa idade para dar aos dedos, reabriu o negócio à antiga. As duas maneiras doces de banana fassi, e os cortes assertivos e geométricos de lâmina e tesoura ganharam-lhe uma reputação e clientela.

Quem passa por lá hoje, estranha o ar vagamente oriental dos homens da Vila, mas o segredo está bem guardado.

 

Escrito com base numa fotografia de confrontos entre polícias e manifestantes num país do oriente, e depois da selecção de um deles, num retrato a preto e branco de uma barbearia à antiga. Exercício de desenvolvimento de personagem.





Houve um tempo em que a minha janela se abria para…

… a copa de uma árvore, num terceiro andar, e podia ver as cabeças das pessoas cada uma na sua vida, os carros a passar, uma pastelaria no prédio em frente sempre num corropio de gente a entrar e sair, sempre com croissants de chocolate especialidade, que se derrete nos cantos da boca.

quando cresci, subi para o sétimo andar, e quando comecei a estudar, para o décimo terceiro andar. comecei a trabalhar no vigésimo sétimo andar, casei-me no quinquagésimo sexto andar, consegui vista para o mar no andar duzentos e trinta e três… cada andar mais acima mais baixo que o anterior, como se a selecção natural nos estivesse a compactar verticalmente, para acomodar mais e mais gente em altura.

com o tempo, deixámos de fazer a viagem para ir à rua, ruidosa e onde mal já se consegue respirar, e que mal conseguimos ver lá em baixo, pela minha janela. quando queremos passear, vamos para um dos andares-jardim, caminhar por entre as árvores importadas, lagos feng-shui e pássaros a chirlear, com as nuvens brancas almofadadas mesmo ao lado no meio do azul, num silêncio relaxante e calmo.

a única coisa de que sinto mesmo falta, é de ter o chocolate daqueles croissants nos beiços…

 

Isto era o TPC da 2ª aula… completar a frase do título. Claramente inspirado pelo filme “Brazil” do Terry Gilliam e pelos croissants de chocolate da Tarik.



sexta-feira, 7 de agosto de 2009



Há dias em que…

… só apetece sair de casa, esquecer o trabalho, zuma no carro e aqui vai ela. Ir tomar o pequeno-almoço a Monsaraz ou beber a imperial mais fresca do país com os pés na praia. Sozinho ou acompanhado, mulher música ou um livro, tanto faz. Só importa o céu azulinho, uma brisa simpática nos braços, um sorriso deleitado, e o prazer absoluto de NÃO FAZER NADA.

 

Exercício simples: completar a frase. :)





Victor, 20 anos depois

Vinte anos depois, Victor emancipou-se. Sempre fora gozado pelos amigo, aquilo de ter nascido num autocarro fora uma maldição, uma dádiva que bem teria dispensado. Todos os autocarros da cidade, mais de três mil, tinham a sua fotografia, que a mãe tinha o cuidado de actualizar anualmente. Mais célebre que o Cristiano Ronaldo, não havia onde não o reconhecessem.

Mas isso acabou. Agora comprou uma lambreta vermelha, a que chamava Virgínia, passou a usar barba (que rapava por altura da fotografia anual), e nunca mais pôs os pés num autocarro. Agora que era anónimo, agora sim, podia ter a sua ter a sua liberdade.

 

 

Inspirado num curto excerto do filme “Em carne trémula” do Almodovar, na cena em que a Penelope Cruz tem um filho, Victor, dentro de um autocarro. Acaba por ganhar, entre outros reconhecimentos, um passe vitalício. O exercício era imaginar a personagem 20 anos depois.



quinta-feira, 6 de agosto de 2009



Com cor

Era um aventureiro. Andou pela terra e pelo mar, dizem que foi à Índia de mochila às costas, jogar à bola com os marajás, a África vigiar os gorilas na selva verde, a Roma fintar o trânsito com a sua lambreta Virgínia, eléctrico de conhecer e viajar, ser turista louco, que não vê o mundo só pela janela da tv.

Decidiu parar aos 60 anos. Escolheu uma cidade que não a sua – porquê voltar a um sítio que já se conhece? – e passava os dias a ver as pessoas, sentado na esplanada, a servir-se do frasquinho de Licor Beirão que levava sempre com ele, rodeado de miúdos a brincar na relva, a trocar olhares com a senhora respeitável da mesa da frente, e a pensar que aqueles lábios ainda deviam saber beijar.

 

 

Numa folha de papel com duas colunas, “Palavras com cor” e “Palavras sem cor”, colocámos palavras inspiradas num fado cantado pela Mariza com letra do O’Neil. Depois fomos à rua, no Largo do Camões, e adicionámos mais palavras a cada uma das colunas. De volta à sala, cada um escolheu uma coluna, e escreveu um texto que as usasse, todas ou não. Escolhi a coluna das coloridas.





jogo de cartas

Ora bem, istos era assim, pah. Eu era tipo o yin, e ela o yang aquela cena a preto e branco dos chineses. Via-a todos os dias no bar do bairro, a beber um café ao final do dia, com pestanas à Jessica Simpson, uma cara assim redondinha e uma boca a pedir um beijo.

Já me estava a imaginar a passar os Verões lá na terra com a miúda, aquela podia ser assim tipo a paixão da minha vida, até a apresentava à malta!

Estava perdido nestas ideias a olhar a moça, quando me berram à orelha: “Joga pah! É a tua vez!”

Dei-lhe uma tampa 15 dias depois, fechei a porta do sonho, e joguei o às de trunfo.

 

 

O exercício começou com passarmos 9 objectos em redor da mesa. Para cada objecto, escolhíamos uma palavra. Depois, com as 9 palavras, e mais uma vez, tínhamos de escrever um texto. O costume :-). As minhas palavras foram: paixão, porta, verão, terra, beijo, orelhas, pestanas, tampa, yin-yang.





Binómio Fantástico

Alice adormeceu cedo, como de costume. Aninhada nos lençóis frescos de Verão. Entorpecida, os sonhos bateram-lhe à porta, e deixou-os entrar. Prmeiro os amigos e o recreio da Escola, a festa de aniversário, os dois peixes doirados com quem tinha longos diálogos. O último a entrar foi o maior do todos, com pompa alegre, Rufas O Cão. De pelo castanho, boca grande e olhos meigos, a língua pendurada e o rabo a abanar. Imaginou-se a brincar no jardim, na praia, era tudo o que podia querer.

À medida que foi ficando cansada de tanto sonhar, pensou em fazer um desenho do Rufas. Assim, ao acordar, teria consigo a imagem para levar no sonho seguinte.

Despertou com o sol a espreitar pelos estores, um olho de cada vez, a espreguiçar-se nos lençóis para onde estava a voltar, estremunhada. Lembrava-se vagamente de ter sonhado, e sentia-se mais cansada do que na véspera. Estranho.

Foi aí que viu, com surpresa, o seu Rufas pintado de fresco na porta do armário, e se lembrou de tudo.

 

 

A ideia aqui foi partir de duas palavras (no caso, cão e armário), e pensar em várias frases em brainstorm que as usassem. Depois, cada um escolheu uma frase e escreveu um texto à sua volta. A minha escolhida foi: “O cão pintado na porta do armário”). Bastam duas palavras para construir uma estória.





Inspirado pelo som dos foles dos Danças Ocultas

Há uns anos atrás, estava no Porto, quando soube de um concerto que ia acontecer em Águeda. Fui de comboio para Aveiro, e daí num regional com muitas, muitas paragens, pelo interior do Portugal real.

Esperava-me um som a quatro foles, dispostos em arco, que com um sopro do fundo da terra, sopraram genuína, muito genuína alegria a quem fez aquela viagem. Valeu a pena.

 

O exercício foi inspirado por um excerto de um CD dos Danças Ocultas, uma parte em que eles tocam apenas com foles. Penso que do primeiro CD, mas não estou certo. A ideia era escrever algo inspirado pelo som.





É urgente…

… ir de férias!

… fazer a proposta!

… tratar da inspecção do carro!

… aprender…

… voltar a mergulhar

… acabar de ler o livro do Bernardo Carvalho

… aproveitar o Verão e o Sol e a Relva e o Mar

… ter calma e ir devagar, respirar fundo e relaxar

… recuperar o controlo

… olhar para o futuro e esquecer o passado

 

O exercício, para aquecer as palavras, é óbvio….



quarta-feira, 5 de agosto de 2009



Guarda-Chuva de Chocolate, claro

Quando olhei pela janela, chovia, e chovia, e chovia. Hoje era sumo de ananás. Sempre era melhor que o sumo de pêssego da véspera, que me dava comichão no nariz, sujava a roupa e fazia a minha mãe obrigar-me a tomar um duche, depois de algumas festas reconfortantes no cabelo.

Voltei à minha caixa de cartão colorido, onde estavam arrumados, bem comprimidos, todos os meus brinquedos. Bem no fundo, bem escondido, estava o guarda-chuva de chocolate, que a mãe me deu na véspera, até já com as meias de vidro encharcadas, para me proteger da chuva.

 

 

O exercício era semelhante aos outros, era preciso construir um texto. Desta vez, não a partir de palavras soltas, mas palavras e expressões: meias de vidro, comprimidos, guarda-chuva de chocolate, festas no cabelo, caixa de cartão, tomar duche, comichão no nariz. Se és perspicaz podes lembrar-te do primeiro (e fabuloso) livro de crónicas do António Lobo Antunes, chamado “Pessoas Crescidas”, de onde foram tiradas todas estas frases. Quase que o adivinhei, lembrava-me perfeitamente do texto :-).



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