domingo, 9 de maio de 2010



Coração de Borracha

Isto aconteceu há mais de 20 anos, e fala de uma miúda chamada Susana, nos seus 12 anos talvez. Uma das minhas primeiras paixões.

Não nos falávamos, e só te conhecia de vista apesar de estarmos na mesma turma. Tinhas um olhar distante e dono de ti. Não eras linda, mas tinhas alguma coisa especial que me chamou atenção. Podia jurar que tinhas olhos cinzentos, mas posso estar enganado.

Não me lembro do teu rosto ou do teu olhar, e não te reconheceria na rua. Também não te falaria, se reconhecesse. E não te ia contar a história do coração de borracha.

 

Era Vermelho, cabia na palma da mão, e devia dizer “I Love You” em letras brancas. Deixei-to em segredo dentro da mochila num intervalo entre duas aulas, junto com uma mensagem de amor. Naquela altura eram moda as pequenas borrachas com formas e mensagens, e havia quem as coleccionasse. Miúdas.

Não sei bem como, mas acabou por voltar às minhas mãos, e nunca nos falámos sequer. Talvez tenha aparecido, devolvida num intervalo, na minha mochila.

Quando o ano acabou e mudei de escola, vi-te de mão dada com um amigo que já vestia só de preto, ouviam-se os Art Company ao fundo a cantar o teu nome e rir-se de mim.

Já a pequena borracha vermelha em forma de coração, essa seguiu-me muitos anos.



quarta-feira, 17 de março de 2010



Ruivas e Ruivos, Respectivamente

Antigamente quando as gloriosas férias de Verão de 3 meses se prolongavam para Setembro na Terra dos Meus Avós (2ª porta a seguir ao Paraíso), havia “debulhadas” rituais, juntavam-se as gentes da aldeia numa eira para tirar as camisas às maçarocas de milho. Sentados em círculo em volta da pilha, 10-15 pessoas contavam histórias uns aos outros, e bebiam anis e outros licores em garrafas que faziam a roda.

Havia três tipos de maçarocas diferentes. As normais, mais comuns, para fazer farinha e dar aos animais. Outras, finas e raras como caninos, eram o milho de pipocas, e guardavam-se para esse fim. As últimas eram ruivas, pouco mais claras que vinho tinto, e desbloqueavam uma espécie de bate-pé para os miúdos. Quem descamisasse uma destas, podia pedir um beijo a alguém à volta da pilha.

Acabei de encontrar um pelo de barba ruivo. A quem vou pedir um beijo?



quarta-feira, 3 de março de 2010



Valsa no Fim do Tempo

Foi uma despedida, aquele dia. Quando acordei de manhã, sabia que ia ser um dia de despedida. Alguma coisa no ar parecia segredar-mo. Não acredito em premonições, mas tinha aquela sensação de que alguma coisa ia acontecer. Sentia-o todos os dias, normalmente ainda de manhã, normalmente pouco depois de acordar, normalmente para o esquecer pouco depois.

Mas naquele dia aconteceu mesmo.

Actualmente há quem comemore o fim de um casamento com uma festa de despedida de casamento. Há quem não as compreenda, por um fim de casamento ser um sinal de fracasso e de fim de amor. Há quem encare como mudança, e sinta que precisamente por ser mudança e recomeço, deva ser comemorada.

No livro mais conhecido do Heinlein, "Estranho numa terra estranha", há uma festa quando alguém morre. Como forma de ficar com um pouco dessa pessoa em si, pode até comer-se um pedaço dela. Lembra o horrendo final do "Bébé de Maçon" no filme do Peter Greenaway.

Conversámos, frente a frente, quando chegámos a casa ao final do dia. Tu e eu, os teus olhos e os meus olhos. Não foram precisas muitas palavras. Terminámos com um "Está decidido, então". Saíste de casa para ir ter com uma amiga, eu fiquei a fitar a imensidão de pormenores do tecto branco natureza.

Marcámos a festa para daí a um mês, quando já estavam os papéis assinados, já as famílias sabiam e se conformaram, já os amigos sabiam e tinham tomado lados. Havia mais que duas pessoas a separar-se, quando aquele papel fosse desassinado em triplicado.

Escolhemos um restaurante bar conhecido, que alugámos só para nós. Escolhemos a ementa os dois, eu os pratos de carne e ela os pratos de vegetais. Decidimos quem ficava em cada mesa e a sua disposição na sala, escolhemos nomes de filmes e livros para dar às mesas, fizemos os convites fashion numa gráfica. Contratámos um DJ, que ia passar à vez as músicas de um e as músicas de outro, e terminar com uma valsa para ser dançada a sós pelos dois recém-separados.

A festa foi um sucesso. Mais de duzentas pessoas acabaram por aparecer, algumas depois de muita insistência. Houve cantoria, divorciado e divorciada lançados ao ar à força de braços, o atirar do bouquet à sorte de uma das casadas da sala. A minha prima já andava insatisfeita, quando apanhou as violetas veio-lhe um sorriso ao rosto.

Fechámos como havíamos aberto. A dançar a valsa que escolhemos, só os dois na pista, rodeados pelos convidados, e ao som das palmas quando terminámos, demos o nosso último beijo nos lábios.



sábado, 27 de fevereiro de 2010



Eu faço os dias

Já não tenho paciência para os aturar. Tanto de dia, como de noite, 90% dos meus clientes são homens. Estou FAR-TI-NHA.

Partilho um táxi com a Gisela, da Guarda. O patrão acha que ter mulheres ao volante é bom para o negócio.  Eu faço os dias, ela as noites. No bar, é ao contrário. Ela faz os dias, eu as noites. Os homens de Fernão Ferro sempre preferiram as roliças na passerelle, e babam-se quando me vêm tirar peça de roupa depois de peça de roupa. Pena serem um tesos, se não fossem já não andava nisto.

Há dias reparei num que todas as noites aparecia à minha hora, se sentava bem à minha frente, e ficava a beber um whiskey e olhar-me com ar tímido. Dias a fio disto chamaram-me a atenção para ele. Doidos destes já os conheço bem. Acabou por me pedir uma dança, e balbuciou que se chamava José e me admirava muito, queria casar comigo, amava-me e achava-me a mulher mais bonita do mundo. Não lhe dei resposta, e despachei o serviço que me ia pagar a revisão do carro na garagem.

Hoje chamaram-me para um serviço no Barreiro, e quando chego entra-me no carro o José, de mão dada com uma mulherzinha baixa. Queriam ir para o aeroporto. Vi-o ficar vermelho que nem um chouriço quando me viu, e quase me ria para dentro.

Deixei-os na Portela e parei na estação de serviço para beber um café e fumar um cigarro.

“Malandros. São todos uns malandros.”, pensei ao cuspir a beata e voltar para o carro.

 

(este texto foi o exercício final do curso de escrita de viagens, um desafio de escrita livre, com base num conjunto de elementos fornecido por um colega: taxista de dia – Ernestina e stripper à noite – Priscila; o texto devia incluir ainda uma garagem, uma bomba de gasolina, um copo de whiskey, e ser passado em Fernão Ferro). O colega em causa chama-se José… (nota: pseudónimo)].



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010



Vermelho da cor de chouriço

Qual foi o meu melhor pôr-do-sol? Lembro-me de mais nasceres do sol do que de pôres-do-sol. O que não faz sentido, sabes que sou noctívago. Um de cada? Tenho de pensar. Lembro-me de um pôr-do-sol em Dubrovnik, pouco depois de chegar à cidade. Não foi especialmente bonito, e o céu não ficou vermelho da cor de chouriço, mas lembro-me desse, e que havia o brilho do sol no mar, daqueles que nunca ficam bem nas fotografias. Nascer do sol lembro-me de um nos Açores, em São Miguel. Passei a noite aninhado no carro, desconfortável e tapado com um saco-cama, para ver o sol a nascer na Ponta da Madrugada. Hem? Como foi? Estava nublado, não vi nada. Que pôr-do-sol gostava mais de ver contigo? Só me fazes perguntas difíceis, ainda para mais a esta hora da manhã, amor. Deixa pensar. No Pólo Norte, talvez. Quando o sol se põe por seis meses. Queixam-se os vinte e nove de fevereiristas de barriga cheia - lá em cima, só há um dia por ano. Sabes que os Inuit acreditam que se cantarmos ou assobiarmos para a aurora boreal, ela nos leva para o outro mundo, ou mais prosaicamente vem e nos corta o pescoço? Ainda hoje contam a estória às crianças. Já não chegava o medo do escuro, que começa com o pôr-do-sol.

Vamos?

[viagens… um texto sobre o pôr-do-sol]





Par

Deram-me os dois pauzinhos num restaurante chinês no Soho em Londres, para assinalar os 20 anos de existência do local. Eram todos diferentes uns dos outros, e os que escolhi são pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo, com uma pequena bolsa de tecido bordeux a mantê-los juntos. O final da refeição trouxe também o obrigatório bolo chinês, que dizia: “When you find the other pair, you will have found your pair”. Pareceu-me enigmático já na altura, e provavelmente uma tradução errada.

Isto foi há quase 3 anos, e desde aí andei sempre com os eles.

 

Conheci-te ontem, numa conferência a que ambos viémos. Simpatizámos um com o outro, e combinámos um jantar oriental na ChinaTown de Seattle. Caminhámos juntos do Hotel, escolhemos um restaurante pela cor do néon sobre a porta, entrámos e sentámo-nos. Escolhemos na ementa o 37 e o 42, e pedimos duas Tsin-Tao para acompanhar a conversa.

Quando veio a comida, a fumegar numa chapa quente, vi-te tirar da mala – como que em câmara lenta - uma pequena bolsa de tecido bordeux que mantinha juntos dois pauzinhos chineses, pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo.

Respirei fundo, irrequieto por dentro e nervoso demais para falar, e tirei os meus do bolso do casaco. Os pares eram idênticos ao mínimo pormenor.

 

[inspirado em… dois pauzinhos chineses, pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo, mantidos juntos por uma pequena bolsa bordeux]



sábado, 6 de fevereiro de 2010



Heróis do Bar

«Depois de rodadas consecutivas de margaritas, “Pablo y Sus Muchachas” – assim auto-denominadas ao fim de 4 dias no México – não tinham como não “borrachos”. O pior era que, na mesa ao lado, uns mexicanos puros com ar de poucos amigos estavam igualmente “borrachos”…»

… os tons de voz exaltavam-se com o avançar da noite, e começaram a picar-se os locais e os estrangeiros, com desafios indirectos de um lado em espanhol e em portinhol do outro.

O Bar estava cheio, o ambiente denso e com fumo, um barman de pescoço curto atrás de um comprido balcão de madeira servia impávida e eficazmente. Quatro grandes televisões debitavam decibéis e desporto para quem o quisesse ver.

Pablo, a vedeta da banda portuguesa, não aguentou a tensão no ar, e levantou-se com ar solene. “Muchachos, bamos a cantar la gloria de Portugal!” As “muchachas”, que por cá seriam conhecidos por João, Rui e Zé, levantaram-se também em volta da mesa, de copo na mão e a limpar a garganta.

“Heróis do maaaaaar…” É difícil, cantar o hino em ritmo mariachi.

O bar ficou em silêncio. Curiosamente, não hostil, mas com respeito. Quando a atrapalhada cantoria terminou, os outros presentes, da mesa ao lado e não só, replicaram solenemente com o hino mexicano.

Estavam feitas as pazes, entre gargalhadas e brindes. Pouco depois, começava o Portugal-México do Mundial. O México perdeu. Mas ninguém se importou muito, já eram amigos.

 

[Exercício do curso de escrita de viagens: completar, em 10 linhas (… que excedi claramente), a frase inicial entre aspas]



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010



Cidades às Escuras

Dia 11 de Março de 1999, Rio de Janeiro. Estava de férias num dos hotéis virados para a praia de Copacabana, no 44º andar. O dia pacífico tinha incluído passeios, praia e frequentes “Ois?” perante o nosso português rápido. Preparavamo-nos para sair para jantar quando a luz se apagou.

O interruptor não funcionava. No corredor, escuridão total. Tentámos ligar para a recepção, mas não havia som no telefone. Faltar a luz num hotel é incomum, pensei. Reparámos depois que lá fora também não havia luz. Toda a praia, todos os prédios, a iluminação na rua, o horizonte, tudo escuro. As únicas luzes eram de alguns poucos carros na avenida, também eles tão devagar que se diriam surpresos.

No dia seguinte, soubemos que tinha sido o maior Apagão do Brasil, e que 70% do país tinha ficado às escuras.

Acabámos a jantar barras de cereais e chocolates no calor da noite, sem vontade de descer as escadas, a ver a lua no céu e no mar e os pirilampos na estrada. Parecia que estávamos sozinhos no mundo.

 

[Outro exercício do curso de escrita de viagens… um micro-conto verídico com menos de 1000 caracteres]



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010



Ganharam. Mas estavam a jogar em casa

Estou no Tarrafal, em Cabo Verde, com o Bruno. Está calor, mas não tanto quente que nos incomode, dois portugueses numa viagem de mergulho. As casas são baixas, as cores esbatidas e gastas fazem lembrar o Alentejo no fim do Verão, o chão é de quadrados de pedra, são poucas as árvores e o verde.

Nada disto é turístico, e somos dos poucos estrangeiros na vila. O “resort” tem um guarda armado com espingarda colonial e dois cães patuscos como ajudantes, e arame farpado em volta, por causa dos “roubos que havia antigamente”, como me disseram, em referência ao período pós-independência. Os chalés luxuosos são feitos em cimento armado por pintar, as camas de pinho. Os dois quartos estão decorados com imagens de santos, paredes verde-claro, tule nas janelas, e uma televisão minúscula - em que o Bruno quase não consegue ver o Benfica - completa o quadro.

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O dia começou bem cedo, antes do sol nascer devagar sobre a Baía do Tarrafal. Saímos para um  pequeno-almoço numa sala circular parca em iguarias e delicadezas de conforto ocidental, mas amigável e hospitaleira. Cinco ou seis pessoas faziam-nos companhia no fim do mundo. Em algumas das janelas havia macacos a espreitar atentamente, e só percebi a razão  quando um deles entrou a correr pela sala, num ápice agarrou duas bananas, e correu de volta para a porta. Um crime imperfeito, mas eficaz.

Ao episódio cómico matinal seguiu-se um mergulho. Fomos guiados pelo Carlitos por entre o coral amarelo, com o Zezinho a ficar no barco por segurança. Os dez metros de visibilidade não deixaram que fosse um mergulho perfeito, e o ar que respirávamos sabia a óleo, mas estas dificuldades foram compensadas quando o meu parceiro inusitadamente arpoou um belo peixe prateado que trouxémos para cima. Foi directo para uma panela quando literalmente e com algazarra invadimos a cozinha do Restaurante da lindíssima Ni, onde íamos todos os dias comer o melhor bife de atum do mundo. Cabo-verdeana e casada com um italiano, seduziu-nos com os pratos e com a beleza. Não tenho adjectivos que cheguem para descrever a refeição, que acabámos por partilhar com os donos da casa, mas deixou-nos a todos um sorriso nos lábios e nas barrigas.

Quando saímos a tarde já ia a meio, e demos uma volta pelo mercado. Numa das ruas ouvimos o matraquear familiar de bolas de madeira contra bonecos de metal. Seis rapazes em volta de uma mesa de matrecos entretiam a tarde domingueira com o mais adequado dos desportos. A mesa é abaulada, as bolas quase pretas, e as pernas desiguais, mas nada disso importava. Os jogos são à melhor de dois, com a equipa que perde a sair de jogo. Muita dinâmica e vivacidade. Acabámos por desafiar os dois campeões a jogar uma partida connosco, um Cabo Verde-Portugal a puxar pelos ferros e chutar com força. Três moedas depois, e com alguma transpiração na testa e nas mãos, concedemos uma vitória renhida num jogo divertido e animado.

Ganharam. Mas estavam a jogar em casa.

[Outro exercício do curso de escrita de viagens: uma crónica (verdadeira)]



terça-feira, 19 de janeiro de 2010



O miúdo e o Mar

“Samuel. Sou o Samuel.”

Foram as primeiras e únicas palavras que lhe ouvi toda a semana, ao leme do pequeno barco de pesca. Não parecia ter 14 anos sequer, um sorriso maroto nos lábios, e muito pouco português.

Tinha ido a Cabo Verde para conhecer o fundo do Mar, mergulhar em condições artesanais em águas maravilhosas e muito pouco exploradas. Ver tubarões. O nosso guia e e dono do barco, o Carlitos, era pescador com arpão sempre que não tinha clientes europeus, o que era aliás raro.

Enquanto mergulhava, o Samuel ficava à superfície a tomar conta do barco, com aquele ar simples e a pele negra brilhante ao Sol, o mar calmo e deserto a reflectir o céu.

 

Voltei lá um ano depois, e reencontrei o Carlitos, agora sozinho com o seu barco. Perguntei pelo Samuel. Disse-me que tinha ido trabalhar para a cidade. Que tinha mulher e dois filhos para sustentar. Que tinha deixado o Mar.

 

 

[2º exercício do curso de escrita de viagens; história quase verídica; hei-de postar aqui uma foto do “Samuel”]



quinta-feira, 7 de janeiro de 2010



Serenada à Chuva

O dia estava seco, o céu azul cheio de sol e sem uma nuvem sequer. Debaixo de nós os dois já tinham passado 400 quilómetros de terra vermelha, sem se ver vivalma. É aborrecido conduzir no deserto, a única companhia lá fora os lagartos à beira da estrada e os sinais a avisar para ter cuidado com os cangurus.

Era fácil conduzir no lado errado da estrada quando não se via ninguém, e a minha companheira pediu para experimentar. Parei, trocámos de lugar com o calor a voar do chão , e recomeçámos o caminho, ainda a 50 quilómetros do parque onde iríamos passar a noite.

Não andámos cem metros sequer – juro – até o céu se encher de nuvens cinzentas muito escuro, e gotas grossas esconderem a estrada à nossa frente.

Acabámos por parar, debaixo da chuva torrencial, sem conseguir ver nada, a olhar lá para fora calmamente e sem palavras.

Só a mim, pensei a sorrir: vir apanhar isto no coração do deserto vermelho. É outra história para contar.

[1º exercício do curso de escrita de viagens; história verídica]



sábado, 2 de janeiro de 2010



dois mil e 10

diz o filme que dois mil e dez é o ano em que fazemos contacto. com o quê, e com quem? não sei dizer. se já estiveram por cá, será refazer o contacto. mas temos tanto medo do desconhecido, deve ser por isso que acabamos sempre por optar por soluções agressivas. aparecem e tufas, lá vai disto. não somos capazes de fazer de outra forma, está-nos nos genes (nas jeans?).

entrei em 2010 na melhor das companhias, rodeado de amigos e pessoas especiais. além de divertido, tive oportunidade de exercitar o meu recente interesse em contar histórias. contei duas, a do rei Salomão e o seu anel mágico, e a da mulher 100% perfeita, do Murakami. já as postei às duas neste blogue. as outras três li-as, e foram dois geniais textos do 1º livro de crónicas do Lobo Antunes (“os meus domingos” e “as pessoas crescidas”) e um conto do Rubem Fonseca do livro “Os Prisioneiros”, chamado “currivulum vitae”. é o nascer de um repertório!!! :-) Acabámos a noite a repetir exercícios do curso de contadores de histórias que fiz, foi muito divertido.

adoro estórias. e gosto de ouvir e de contar.

comprei há pouco um livro de textos do Freud. num dos primeiros, a defender a disciplina emergente (psicanálise), ele escreve o seguinte: “By words one person can make another blissfully happy or drive him to despair, by words the teacher conveys his knowledge to his pupils, by words the orator carries his audience with him and determines their judgments and decisions. Words provoke affects and are in general the means of mutual influence among men.” Em tempos pensei em estudar psicologia. Agora já não, mas continua a interessar-me, por vários motivos. E estas palavras dele são sabedoria pura.

e que 2010 seja o ano em que fazemos contacto.

ps: apetece-me lasanha.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009



Alien, o 7º Passageiro

obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão.

 

Ando com insónias, incapaz de dormir, e com um acordar agitado.



terça-feira, 29 de dezembro de 2009



Silent, Strange Night

Sei que me deitei cedo nesse dia, pela meia-noite. Queria começar a semana bem desperto, levantar cedo no dia seguinte para o inevitável emprego , e não passar a semana com sono a atropelar paredes e móveis.

Sei que me custou adormecer. Que vi chegar a uma da manhã, cansado já não do dia passado mas das voltas na cama. Levantei-me num intervalo para beber água e apanhar ar, e voltei aos lençóis pouco depois.

Sei que adormeci. E que acordei algumas horas depois, ainda noite escura, com demasiados sonhos na cabeça. Com pesadelos, por estranho que pareça. A sentir-me exausto e perturbado. Li no Freud a teorização do inconsciente e do mundo dos sonhos, mas não soube na altura – consciente - ler fosse o que fosse nos mesmos. E agora já é tarde demais, já não me lembro. O inconsciente não gosta de ser revelado, ao que parece.

Sei que voltei a adormecer. Deixei tocar o despertador de 9 em 9 minutos até se fartar, deixei a luz acender-se nos estores, deixei-me rolar para a esquerda primeiro e para a direita depois em busca de conforto, vezes sem conta, no mesmo mundo de pesadelo de antes. Deste inconsciente, lembro-de uma coisa apenas. De ter um sonho como se acordado, e de nesse sonho me custar andar (a caminho de uma paragem de autocarro), me custar estar de pé, por me doerem os joelhos. De pensar que só em sonhos eles me doem, mas que se estava acordado, devia estar com um problema. Como se um sonho dentro de um sonho.

Sei que acordei com o toque de uma mensagem, duas horas depois da hora a que queria acordar. Atrasado e perturbado.

O que se passou cá dentro?



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009



Falta-me sempre uma

Quando mais preciso dela é quando mais parece que a tenho escondida debaixo da língua, atrás da amígdala, a jogar às escondidas comigo mesmo. Sai, moça, digo, e vejo-a a espreitar de lado, mostrando algumas das suas sílabas, mas logo se esconde de volta (mas quem tem medo sou eu não ela).

Não acontece sempre, só quando é mesmo preciso, quando é im-por-tan-te, que ela nos falha, que não está lá. Ilude-nos e finta-nos e serpenteia ao nosso redor como uma abelha, “ela está dentro de nós” mas não se mostra e não quer sair.

Fica assim à porta da boca, é o que é. Porque não vens cá fora?



quinta-feira, 26 de novembro de 2009



Sempre soube quando ia morrer

Parte do medo que temos da morte é não saber quando e como vai acontecer. Uma outra parte, por não sabermos se haverá algo do outro lado. Ele sempre soube quando e como ia morrer. E sabia que não havia nada, do outro lado.

Claro que não sabia o mês e o dia e a hora, mas sabia o ano e sabia o como. Ao contrário de o assustar, deixou-o viver a vida sem preocupações, sem incerteza, sabendo quando e como se ia fechar a porta.

Não se lembrava disso com frequência, e quando lembrava encolhia os ombros e pensava: “o que tem de ser tem muita força”. Nem se lembrava, e sabia que nem todos tinham a mesma sensação.

Sabia que não ia cair de num avião numa viagem, que não se ia afogar no fundo do mar nem rebentar numa ida à lua, nem doente na cama com uma pneumonia, nem atropelado por um carro com um condutor em fuga. Sabia que ia morrer por dentro, e sabia com precisão que órgão ia falhar.

Quando por fim morreu, como tinha previsto e quando tinha previsto, encolheu os ombros, apertou os lábios, e fechou os olhos. Não se pode dizer que tenha morrido infeliz. Nem feliz. O que tem de ser, tem muita força.



sexta-feira, 23 de outubro de 2009



Duas Bocas

Diz quem afirma em tempos tê-los conhecido, que já foram pessoas, bastante normais até. Com as suas vidas, estudos, amigos, trabalho, viagens. Dizem que têm pena de hoje os ver assim, e alguns até dizem ter saudades. Outros, talvez menos amigos que os anteriores, comentam ironicamente que pela boca morre o peixe, o que tem meia verdade, no caso em causa.

Quando se conheceram e morderam o anzol, foi um beijo instantâneo de cola, não puderam nem quiseram largar mais os lábios um do outro.

O homem que ensinou a humanidade a grokar dizia que quando beijava, se concentrava integralmente nesse beijo, esquecia tudo o que se passava lá fora, todas as distrações, ruídos, pensamentos, pessoas, o mundo era o beijo que estava a partilhar.

Os lábios, macios, encaixaram uns nos outros como peças de puzzle, as bocas, os dentes, as línguas, primeiro numa surpresa de descoberta, na urgência inquieta do desejo, no conforto suave de uma noite de conversa num bar com música, numa noite à frente da lareira.

Não era suposto acontecer, e nenhum dos dois o esperava. Conta quem viu que ficaram presos ao primeiro beijo, unidos pelos lábios, pelas bocas, que se comeram um ao outro, consumidos por uma paixão insensata e um prazer sem portas.

Conta quem os viu pela última vez, há uns meses, que os lábios continuavam colados, e que no que restava daquelas bocas se viam enormes sorrisos felizes.



domingo, 11 de outubro de 2009



três e meia da manhã

Há acontecimentos da nossa vida que nos definem, e que marcam tudo aquilo que virá a seguir. Tive um desses acontecimentos na minha vida, passam hoje 40 anos exactos dessa noite.

Estava acordado no escuro do quarto. Ao meu lado na cama dormia a mulher com quem casei por amor, por amizade, por empatia e companheirismo, pelo humor. Respirava baixinho, virada para o outro lado da cama. Eu não conseguia dormir. Algum tempo atrás envolvera-me com outra mulher, e o espaço que isso ocupava tinha crescido em mim aos poucos.

Por favor não me julgues, não é o teu papel, nem tens legitimidade para isso. Se queres ler, lê. Se não queres, estás no teu direito.

Não sabia o que fazer. De um lado a culpa, a mentira, o que sentia ser amor. Do outro a alegria, a paixão, a inteligência. A aventura e o proibido. Desenhei um mapa das opções, tabelei prós e contras, simulei em sonhos acordados o ficar e o partir, para ver se me ajudava. Falei com os amigos mais próximos, ouvi - ou não - o que tinham a dizer. Nunca seria uma opção deles.

Levantei-me em silêncio, fui sentar-me na sala. O despertador no quarto marcava 3 e meia, e lá fora estava uma noite agradável de Verão, os candeeiros a pontilhar a rua de amarelo.

A culpa era toda minha. Somos responsáveis pelos nossos actos, não é o que se diz sempre? Cá se fazem cá se pagam, e outros ditados assim. Eu sei. Meti-me no buraco, agora tinha de sair dele, eu sozinho.

Incapaz de decidir, incapaz de tomar uma decisão quer racional quer emocional, atirei uma moeda ao ar, na escuridão quase completa da sala. Olhei para a face que saiu, depois para a rua escura lá fora, e pensei "Está feito".

Passam hoje 40 anos exactos dessa noite. E a decisão que tomei, foi a decisão errada.


Inspirado vagamente no que me recordo do Intimacy, do Hanif Kureishi, e na música Witches, dos Cowboy Junkies.



sábado, 3 de outubro de 2009



Crónica de Um Beijo Anunciado

Talvez estivesse escrito. Ou talvez tenha ficado escrito porque o estou a escrever agora.

O teu nome não o vou dizer, como não vou dizer o meu. Ambos sabíamos estar destinados a ser amigos, não amantes. A não deixar nos livros de história um do outro mais que algumas linhas, mesmo sem sabermos ainda quantas. Não há neste texto nem uma Inês nem um Pedro.

Cruzámo-nos por acaso, como tantos todos os dias. Estranhamente sem jogos, de cartas na mesa, a trocar só palavras primeiro e a partilhar segredos logo a seguir, com aquela urgência electrónica tão peculiar e sem expectativas, que se cria e se desfaz de dia para o outro, que tem de ser alimentada para se manter. Se não o tivesse sido, não estaria a escrever estas linhas.

Temos pouco a ver um com o outro. Os gostos, as experiências de vida, as emoções do momento, o momento na vida, os ideais, a música, a energia. Tudo diferente. A mim encantaste-me com um desafio, no teu signo a minha sina. A ti não sei bem, mas não restava opção que não ficarmos rapidamente amigos. A pequena química da diferença, talvez.

Conhecemo-nos e saímos umas vezes, e foi bom. Descontraído, relaxado, animado e divertido. Ficava vontade de repetir.

Disseste-me um dia sermos muito sérios um com o outro. Foi quando a provocação e o jogo começaram. As regras muito claras, as escritas logo no início deste texto, mas ainda assim um jogo de sedução, animado e divertido, com picardia, de gato e de rato - mas quem é quem? Acho que somos ambos gatos, e abrimos a época de caça.

Lançámos os dados por um beijo, mas ia beijar-te fosse qual fosse o resultado, ontem à noite. Assim que te vir, ameacei-te com a promessa. E adorei os teus lábios, o teu pescoço, respirar-te ao ouvido, sentir-te a presença, o sorriso divertido de miúda mulher, o calorzinho no peito.

Foram poucas horas. Somos, ou Fomos, amigos com cor. Com benefícios, foram as tuas palavras.

E agora? As regras continuam a ser as mesmas. Somos sinceros um com o outro. Tu tens a tua vida, eu tenho a minha. Somos amigos, e o resto logo se vê. No worries.

Escrevi-nos isto só para registar na História (estória?). Pode ser que interesse a algum investigador, daqui a muitos muitos anos.



quinta-feira, 24 de setembro de 2009



a pessoa errada na altura errada no local errado

Sempre pensei que este tipo de coisas só acontecia nos filmes.

Estávamos casados há alguns anos, e a passar férias juntos, no estrangeiro, como era frequente. Sempre fomos aquele tipo de casal que faz muitas coisas em conjunto, com muita actividade, como que para nos manter ocupados e impresentes um da vida um do outro. Quando sozinhos, pouco tínhamos para nos dizer, apesar de o silêncio também ter conforto e até felicidade. Amava-te, de uma forma incomum. Nunca te odiei, nunca me foste incómoda, e gostava de passar o tempo contigo.

Naquele dia, estávamos sozinhos num miradouro sobre um penhasco. Bem junto à beira, a sentir a vertigem da altitude e do vento que nos cortava o rosto. Lá muito em baixo, depois de uma queda quase a pique, um mar de árvores. Lembrava aquelas imagens que se têem quando se voa sobre uma almofada de núvens fofas.

Numa altura em que te debruçaste um pouco para a frente, para espreitar melhor a altitude, veio-me um impulso louco à cabeça, e sem me conseguir segurar ou conter, dei-te um pequeno empurrão. Só o suficiente para começares a cair, e ainda vi o ar de surpresa a mudar para pânico nos teus olhos, um olhar que nunca vou conseguir esquecer para o resto da minha vida.

 

Porquê? Porque não sou eu que escrevo as palavras, são elas que me ditam a mim.



quarta-feira, 23 de setembro de 2009



tudo começou quando

Foi num daqueles dias de Outono que amanhecem soalheiros, e à medida que as horas avançam se vão entristecendo e acizentando, e lembro-me como se fosse hoje. Presta atenção ao que te vou contar.

O sábado amanheceu com sol, e sem núvens no azul celeste. Parecia um Verão de São Martinho, sabes? A aquela altura do ano associam-se árvores a despir e pessoas a vestir, e não dias como aquele. Segui com o olhar um pássaro solitário que passou à minha frente, a voar sobre o rio, para a outra margem. Um voo alegre como aquele só podia ser de uma andorinha, pensei. Ou um pombo, e levar a minha mensagem secreta, a pequena nota que te escrevi. Eh. Não me ligues, estou a distrair-me. Deixa-me continuar.

O dia parecia não poder ser pior para o que queria fazer, lindo e brilhante. Atravessei a ponte a pé, o chão ainda molhado da chuva da véspera, o ar limpo e agradável de respirar, e fui para o café onde nos tínhamos combinado encontrar, para mais um café e pequeno-almoço a ler o jornal da manhã.

Nesse dia levava-te uma despedida como surpresa.

Estava cansado, estava triste com o fosso entre nós no teu olhar, desanimado com ter de escalar os muros do teu castelo, como se todos os dias tivesse de reconquistar o mesmo pequeno pedaço de terra, todos os dias o mesmo ritual e a mesma batalha.

Ia dizer-te adeus, sabes? a nota que escrevera tinha tudo o que te queria dizer, o que esperava conseguir dizer-te, o que esperava ter decorado palavra-por-palavra, e que tinha de sair de mim num só fôlego.

Porque nunca te disse? Não sei. Depois do que aconteceu, deixou tudo de fazer sentido.

Fui o primeiro a chegar, como era costume, e pedi o mesmo de sempre, enquanto olhava para as pessoas e esperava por ti e pelo teu olhar perdido ensonado dos sábados de manhã. Vi-te dobrar a esquina e vir em direcção a mim ao mesmo tempo que a música que começava a tocar na rádio me envolveu, e à medida que te aproximavas, como numa bolha de sabão, tudo lá fora deixou de importar. Vi o teu cabelo de quem acabara de se levantar, o teu andar decidido e preguiçoso, e o teu sorriso como nunca vi outro a nascer. Amachuquei a nota de papel que tinha no bolso, e sorri-te de volta.

Sim, claro que me lembro da música. Queres ouvir, imagino… Mas o importante é que há alturas, meu amor, em que é preciso arriscar. Por vezes o destino sorri.

Como fez connosco.

Outro desafio, o terceiro, da mesma amiga. As palavras que serviram de inspiração? Interessam mesmo? Lamechas? So what.



terça-feira, 22 de setembro de 2009



a esta hora já devia estar acordado

mas não. estou aqui a sonhar, quando podia estar a espreitar pela janela a ver o dia nascer, a vestir o fato e apertar a gravata, atar os atacadores dos sapatos pretos brilhantes, a preparar-me para o dia que aí vem, como o de ontem. em vez disso estou aqui, de olhos fechados a dormir em lençóis ainda com o fresco macio do verão. cada vez que olho para o relógio, vejo imagens diferentes. não sei se vejo cores, sei que não consigo perceber se a luz está acesa ou apagada, e não sei o que faz aqui este coelho branco gigante que olha para mim. já devia estar acordado. dormir não me faz bem. escrever a dormir não me faz bem. é como sonambulismo palavral. afinal, muito parecido com falar a dormir, mas fazendo muito mais sentido. e que sentido faço? só um. um sentido que retirei de um conto que li antes de adormecer, e que não te posso dizer qual é porque o poderias ler. e o sentido diz só uma coisa: ele concluiu que foste a segunda. eu, que ainda tenho uma oportunidade.

núvens.

(desculpa este tipo de posts crípticos, mas é o que sai quando se escreve a dormir).





estou com um feeling

digo-te. estou com um feeling. a minha bússola não tem um mas vários nortes, e como poucas muitas vezes antes, está desorientada. mas tenho um feeling. tenho aqui um feeling guardado no bolso, dentro da carteira.

por agora vou caminhando pela rua, vejo as pessoas ao meu redor, o autocarro que se aproxima da paragem que cruzo, os carros que passam na estrada, aquela senhora de idade na varanda da janela, as caixas do minimercado que aproveitam uma pausa para fumar um cigarro encostadas à parede, a estrada feita de pedras cinzentas quadradas, o passeio feito de pedras brancas quadradas.

vou caminhando, e levo o meu feeling no bolso. sei que o vou tirar da carteira muito em breve. que o vou desdobrar da dobra em quatro, e que já não vou estar mais na rua por onde me cruzo com estranhos, com carros invisíveis, com os sons e apitos da cidade onde vivo, e que não vai ser só um feeling, mas um papagaio com a forma de uma águia de asas abertas a desenhar linhas e curvas no céu, que seguro com um sorriso ao mesmo tempo que tu, deliciada na areia, segues os movimentos que faz.

por enquanto, o feeling é um quantos-queres de papel de origami, dobrado em quatro. mas não falta muito para o abrir. não falta muito para o descobrir, para lançar os dados das dobras nos dedos de uma menina, e viver o que sair. na praia.





na verdade, não estou neste momento

ligaste-me, mas sabia que eras tu e decidi não atender. para quê ouvir mais uma vez a tua voz, para quê repetir os mesmos argumentos e discussões cansativas. melhor deixar tocar. a repetição é a mesma, mas a musiquinha é bem menos cansativa.

já sei o que pensas. aborrecido ou aborrecida, que sou uma chata ou um chato, ou que estou ocupada ou ocupado, ou que sou sempre sempre igual a mim mesmo e nunca tenho tempo para as coisas importantes.

mas a verdade é que tenho todo o tempo do mundo, para as coisas importantes. e importante para mim neste momento é ver esta planta crescer com o sol da manhã, ou ver o pôr-do-sol no mar, sentada ou sentado na areia, de ombro encostado a um outro que não é o teu, e isso me fazer sentir completamente feliz.



quarta-feira, 16 de setembro de 2009



mulher com dois olhos de trovão,

porque te conheci? porque te aproximaste de mim e se cruzaram os olhares? fizeste-me estremecer os nervos do corpo, a terra abanar, e passarem-me relâmpagos eléctricos pelos olhos. verdes como os dos gatos, a brilhar na noite, é impossível não ficar preso ao que não sei ser. semeaste o caos na minha vida. não saio à rua sem ver no céu se lá estás, se me vais assustar com o teu grito, ou iluminar as noites com o teu brilho enquanto durmo com os estores apenas meio fechados, para te deixar entrar a ti para junto de mim.

o tempo começa a estar fresco. começo a precisar, aos poucos, do teu calor. mesmo que seja para acabar por ficar acordado.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009



Mulher Diagonal, A

Nunca tive tempo para nada. Não percebo, mas parece-me só acontecer comigo. Mas deixa que te explique. Chamo-me Dorit, e não sou um peixe azul de fraca memória. Sou uma mulher de carne e osso, não tenho cabelo azul nem escamas, e vivo a vida na diagonal.

Imagino que tenha começado no leito materno, mas a primeira vez que repararam foi na maternidade: encontravam-me sempre deitada na diagonal no berço. E se me endireitavam, meia hora depois lá estava na diagonal de novo. Também nunca fui de fazer grandes birras, não havia tempo para isso, tinha de ir brincar. Fazia tudo na diagonal. Um bocadinho de choro, só para dar um sabor, um bocadinho de comida, um bocadinho de brincadeira, primeiro com brinquedos depois com amigos, um bocadinho de estudos, um bocadinho de namoros, um bocadinho de casamentos, um bocadinho de empregos.

Tudo na diagonal, e sempre cada vez mais acentuada, a viver a vida mais resumida e cada vez mais e mais depressa, a deixar coisas a meio mal começadas, uma vida de primeiros parágrafos e resumos resumidos.

Nem sei porque estou a escrever isto. Se me pedissem para reler este texto, só leria “Mulher Nunca Texto”.





indiferença

havia um episódio do twilight zone em que a pior das penas do tribunal era ser-se ignorado por todos aqueles que o rodeavam. cada condenado tinha uma marca na testa, se bem me recordo, e a convenção social era de que essas pessoas não existiam. ninguém as olhava nos olhos, ninguém falava com elas, não reconheciam a sua existência. eram como não-pessoas, no meio de pessoas com que se cruzavam na rua, uma cidade país desertos apesar de repletos de pessoas. uma condenação à solidão, fora da escuridão de uma solitária, mas capaz também ela de levar à loucura.

ter as pessoas à distância de um braço, de um olhar cruzado num passeio, e não conseguir penetrar numa barreira imposta pela necessidade de ter a sociedade equilibrada, ser-se transparente, uma convenção de distância, afinal tão actual.

e eu? porque tenho eu esta marca na testa?





nunca ninguém pergunta pelo três de paus

Vivo num castelo de cartas tão sólido que resiste à força do vento. São cartas manuscritas, cartas enviadas e não enviadas, cartas recebidas e cartas que quis ter recebido.

O meu castelo é rodeado por um fosso cheio de água, cheio de crocodilos e suas lágrimas, e tem duas portas, ambas cartas de jogar. Uma, a da direita, é um preto três de paus, uma porta de que prefiro não falar. A segunda, a da esquerda, é um encarnado Ás de copas, e só se vai abrir no mais especial dos dias, e para a mais especial das pessoas. Por mais mais forte que empurrasses, por mais rápido que corresses, nem que passasses a velocidade do som a conseguirias derrubar,

se não fores tu a pessoa certa.

Às vezes fico a olhar para a carta encarnada com o Ás de copas, com mágoa suspirante de não a ver abrir-se devagarinho, com o mistério de não saber quem a poderá atravessar.

Vivo num castelo de cartas, na minha caixa de cartas, escritas ou recebidas ou jogadas por mim ou contra mim, e quero ser eu capaz de abrir a porta, sair lá para fora, e deixar tudo isto para trás de uma vez por todas.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para escrever um texto a partir das palavras seguintes: encarnado, água, caixa, lágrima, olhar, vento, velocidade, castelo, força, mágoa. (isto foi a segunda versão)



quarta-feira, 9 de setembro de 2009



setembro por dentro

tirei-te uma fotografia ao rosto da minha janela, quando caminhavas pela rua na minha direcção, sem me veres. sem o saberes, sem eu o perceber também, senti que eras mais que um retrato a ampliar, a preto e branco, numa moldura grande que viria a pendurar numa parede.

estávamos em setembro, aquele mês em que o tempo ainda nos deixa passar noites na praia a conversar com a luz da marginal por trás, à procura de um beijo num intervalo da conversa, em que se começam a escrever nas folhas de papel dos diários histórias que começam com “era uma vez” que duram anos, histórias de amor que começam com a paixão dos estores para baixo em quartos quentes da respiração ofegante de corpos aos pares, e terminam… ou não, quando o nosso destino o quiser.

quis conhecer-te, imaginei enquanto apertava repetidamente o botão os teus lábios macios e um abraço apertado e quente, num instante vi passar-me pelos olhos -  como se à beira da morte - toda uma vida alternativa, e nasceu-me um sorriso nos lábios. quis-te.

estranha sensação esta. pouco depois deixei a janela, e com memória de peixe, esqueci o que tinha pensado e a sensação de alegria que me deixaste. só ficaste tu. num rolo a revelar dias depois, e onde o teu sorriso e o verde invisível dos teus olhos me faria perguntar em voz alta porque não correra para falar contigo.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para criar uma história a partir das palavras seguintes: peixe, estores, folha, beijo, relógio, amor, paixão, setembro, tempo, direcção, janela, fotografia.



segunda-feira, 7 de setembro de 2009



Yellow

Por vezes temos situações na vida em que sabemos que vamos fazer asneira. Sabemos que temos o painel de controlo na nossa frente cheio de luzes a piscar, algumas delas vermelhas. Vozes ao ouvido dizem-nos:

C U I D A D O !
(as vozes ao ouvido falam em maiúsculas, como é de conhecimento comum)

Quando pensamos racionalmente, dizemos a nós próprios que mais vale cortar o mal pela raiz, nem deixar a planta crescer, porque vai correr mal, seja qual for a situação.

E o que fazemos? O mesmo que fazemos quando se nos depara um semáforo amarelo no trânsito, não temos carros à frente, e estamos já bem perto.

Aceleramos.



domingo, 6 de setembro de 2009



Os Destemperados

São cinco, como uma banda de música. O Rui, o Paulo, o Zé, a Rita e a Paula. Conhecem-se praticamente desde que nasceram, todos no mesmo ano e no mesmo mês. Estudaram juntos, escolheram cursos parecidos, encontraram empregos na mesma área, moram perto uns dos outros, encontram-se todas as semanas e falam todos os dias.

O Rui é alto, o mais sério de todos, olhos muito escuros mas com um sorriso acolhedor. A voz da sabedoria, quando é precisa. O Paulo é atormentado por dentro, com uma longa história de insucessos ao amor, muito inteligente e científico. O Zé é o irrequieto aventureiro, seria o primeiro a comprar bilhete para uma viagem a Marte ou saltar de pára-quedas do Monte Everest, o que viaja mais e sabe mais línguas. A Rita é parecida com ele, loira bonita de olhos muito muito azuis, esperta, gosta de conhecer pessoas e fazer amigos, é extrovertida e adora o mundo. A Paula é a artista culta do grupo. Gosta de escrever, de pintar, de cinema, de exposições, de tocar piano e falar francês, aquela que claro que conhece esse livro e claro que viu esse filme da década de 40 de um realizador desconhecido.

Não são parecidos entre si, não têm os mesmos gostos, os mesmos interesses, a mesma forma de ver o mundo. Mas são almas gémeas, têm uma amizade intemporal, daquelas que todos gostávamos de ter. Há um bocadinho de ti em cada um deles, seria capaz de apostar. Qual deles és tu?





O Oitédio

O Aurélio é a pessoa mais aborrecida do mundo.

Descende de uma linhagem familiar já com oito gerações de pessoas chatas. Quando se encontram entre si, ou com outras pessoas, pouco falam. Ficam cabisbaixos, silenciosos, metidos consigo mesmos, os 0lhos no chão, em longas conversas interiores e secretas com os botões da camisa e as pedras da calçada. Poder-se-ia pensar ser impossível uma família destas existir: como se conhecem? como constroem relações? São perguntas ingénuas. Existe muita gente quase tão aborrecida como Aurélio e os seus antecessores, e têm uma capacidade especial de se reconhecer entre si, de construir momentos que mesmo se aborrecidos têm chamas de magia, e ao longo dos anos isso sempre chegou para foi juntando cada um dos oito casais da família.

Aurélio é especialmente entediante. A selecção natural apurou-lhe a capacidade de ser chato, ao longo dos anos. Um factor genético, certamente. Ao contrário dos pais e dos avós e dos bisavós, no entanto, Aurélio é chato não por falar demenos, mas por falar demais. Fala desde que acorda até que se deita, fala sozinho, fala monocordicamente, sabe tudo sobre tudo, tem opinião sobre tudo, leu tudo, ouviu falar de tudo. Mete conversa com pessoas na rua que não conhece, com a porteira, com o segurança, com o empregado do café, com um antigo colega da escola primária que não via há quase vinte anos, com a pessoa que espera o mesmo autocarro na mesma fila no mesmo dia de inverno em que está a chover e o dia está cinzento. Não há quem o possa ou consiga calar.

O Aurélio é muito inteligente, e já garantiu a propagação dos genes. Encontrou a mulher ideal para si, que fala desde ainda antes de ter acordado, e ainda está a falar já depois de ter adormecido. Dão-se muito bem, mesmo se não se ouvem um ao outro, só falam, e falam, e falam. Sobre seja o que for, seja onde for, seja com quem for.

Eu conheço o Aurélio, o verdadeiro. Na verdade, até conheço muitos Aurélios, e tu também. Qualquer um de nós pode ser um Aurélio. O meu medo, no entanto, é transformar-me num deles.



terça-feira, 1 de setembro de 2009



O meu nome é Romeu, e sofro de Paixão

Juntei-me aos Apaixonados Anónimos há quase 5 anos, mas já não tenho esperanças de melhorar. Só continuo a ir para conhecer pessoas, ouvir as suas estórias, e dar alguns vagos conselhos que serão completamente ignorados, apesar de ser o mais experiente do grupo.

Tudo começou com a Julieta, claro. Penso que já terás ouvido falar dela, aquela coisa trágica em que morríamos os dois envenenados. Não foi bem assim. Estávamos apaixonados, sim, mas só ela é que morreu. Eu fiquei vivo, e amaldiçoado. Amaldiçoado a continuar para sempre pela vida, como um vampiro, a apaixonar-me por uma mulher depois da outra, acreditanto sempre num ilusório para sempre que nunca chegou e nem nunca deve chegar. Não a mim.

Não me confundas com D. Juan. Esse rapaz, aliás meu bom amigo, joga no campo da sedução imediata, dá umas fintas e meia dúzia de charmes inesperados, e rapidamente chega ao branco dos lençóis para um episódio de novela. Eu apaixono-me, entrego-me, seduzo pelo que sinto e não como desporto, construo sonhos vivos e repletos de energia, com princípio meio e sem fim, acredito. E quando o coração me bate no peito com mais força, vem o veneno da minha primeira pôr fim à esperança. Uma vez depois de outra vez depois de outra vez.

Estou cansado, em casa, sentado à mesa, e tenho o cálice com o líquido verde à minha frente, mais uma vez. Vejo-o contra a luz, admiro a transparência e a côr viva que tem, sinto-me seduzido e convidado a seguir pelo caminho mais percorrido. Acabo no entanto, como sempre, por voltar a pô-lo no pequeno frasco, sem sequer muito hesitar.

Prefiro mil vezes viver com paixão, penso, do que não viver de todo.





Go yon, go yon

Quando olhei para para cima, podia apostar que o céu não estava tão alto como ontem. Temos de estar atentos a estas coisas, não nunca podemos confiar. E eu podia jurar – podia mesmo jurar – que o céu ontem não estava tão baixo quanto está hoje. Não estou a falar de núvens, repara, estou mesmo a falar do céu.

Que sensação estranha. Podes pensar que estou a delirar, mas ou estou a crescer, o que é possível mas se notaria na roupa, ou o céu está a descer. Sinto-me apertado, compactado, cada vez mais denso dentro de mim, e isso não é uma boa sensação. Uma espécie de tortura medieval, mas por estranho que pareça, só eu a estou a sentir. Aqueles a quem falo disto respondem que estou a imaginar, riem-se com a piada do que lhes conto, apesar do ar grave que tenho no rosto. Estou preocupado.

Decidi não lhes contar mais. Quando começarem a ter de andar encorcundados pela rua, hão de se lembrar do que lhes disse. O céu está a cair, e mais dia menos dia vamos ter a cabeça nas núvens, depois no fim da atmostera, e acabar a ver estrelas sem conseguir respirar.

Podia jurar que já me está a faltar o ar, penso ao inspirar com sofreguidão e dificuldade… mas onde está a minha estrela?



sábado, 29 de agosto de 2009



hoje vi-te

Não te via há algumas semanas, mas hoje vi-te. Fui para uma esplanada com um amigo, conversar, apanhar ar, beber umas imperiais e comer caracóis. Chegaste e sentaste-te a uma mesa de distância, com o teu cabelo loiro liso e ar descontraído de fim-de-semana. Estavas com um mano black de quase dois metros, musculado e de sweat-shirt branca a deixar brilhar os ombros, e pediram uma tosta, um nectar e um café.

Achei estranho não reparares em mim. O teu companheiro reparou nos nossos olhares, e lançava-nos esgares de aviso macho de tempos a tempos. “Esta é minha”. Também estranhei o estares de calções, e o cigarro bem na ponta dos dedos, daquela forma requintada que algumas mulheres pensam ainda ser sedutora nos dias de hoje.

Acabámos os caracóis, as tostas, as imperiais, e fomo-nos embora da esplanada. Para sair, tive de passar mesmo à tua frente. E os teus olhos não deram por nada, não registaram sequer.

Se calhar porque afinal não eras tu. Ou então… porque já não era eu.





The mo[u]rning is over (versão 17)

É tudo o que se me apraz dizer. Já comecei esta posta umas dezassete vezes, e em todas elas – menos esta – apaguei o texto e recomecei de uma forma completamente diferente.

Uma amiga perguntou-me ontem ao jantar se era mais difícil escrever quando se está triste ou quando se está alegre. A resposta, no meu caso, está bem clara no primeiro parágrafo deste texto. Parece que o tormento nos faz querer deitar tudo cá para fora, e quando já não há nada mais para deitar, quando acaba a dose e voltamos ao nosso normal, é como uma luz que se apaga quando saímos de uma sala.

É como nas notícias modernas, afinal. Só interessam se tiverem desgraças e maleitas, de preferência distantes e do outro lado do planeta, mas se forem cá dentro podemos cantar “só neste país”.

Mas desengana-te. Se pensas que vou deixar agora assim de repentemente de postar e de escrever. As palavras são MINHAS. TODAS minhas. E vou usá-las e gastá-las e dar-lhes o pino.

Aliás, por isso é que discordo do acordo ortográfico. Se as palavras são minhas, porque raios não me consultaram? Está mal.

Pode ser que passe a escrever outro tipo de coisas. Como d’antigamente. Não quero voltar a isso, no entanto. Postas de “o que me aconteceu” só são permitidas esporadicamente. Quero continuar a inventar, agora que a manhã passou, a tarde vai ser muito mais longa.

As minhas tardes são sempre muito mais longas que as manhãs.

Queria contar-te acerca do Romeu. Agora não vou conseguir, porque me espera uma esplanadinha e o encerramento da caracol season, mas logo à noite conto-te a história do Romeu. Queres?



quinta-feira, 27 de agosto de 2009



Esta noite tive um Sonho (história verídica) [1]

Sabes que não é comum lembrar-me dos meus sonhos. Mas lembro-me perfeitamente do sonho com que acordei esta manhã. Pode ter sido por estar embriagado de sono, por ter recorrido ao snooze 4 vezes no despertador antes de por fim ter a energia de abrir os olhos para o Rio, não te sei dizer. Mas lembro-me vividamente do sonho com que acordei.

Morava num prédio como aquele em que moro hoje. Uma torre de uns 10 andares, com um pátio todo em redor, onde antigamente, quando era puto, se brincava às escondidas, à apanhada, e se ficava à conversa nas escadas até altas horas de noite, ou até os pais virem chamar, o que acontecesse primeiro. O pátio estava agora cheio de coisas acumuladas no passar dos anos, como mesas e cadeiras de jardim enferrujadas e com tinta a sair, tanques de lavar roupa daqueles antigos de cimento, pilares – também de cimento - de varandas, e podia até jurar algumas réplicas da estátua de Vénus. [2]

No sonho, a minha casa, estranhamente por ser ao contrário da realidade em todas as casas em que já vivi, era no rés-do-chão, e era enorme. E quando digo enorme, quero mesmo dizer enorme. Com inúmeras divisões, muitas das quais pouco visitava, e algumas tão cheias de tralha que nem nelas conseguia entrar. Vivia sozinho, também, mas não era disso que tratava o sonho.

Um dia estaciona à frente do prédio um camião gigantesco, e sai de lá um Sr. que se oferece para carregar todo aquele amontoado de cangalho [3], como se fosse o serviço camarário de monos, mas maior e mais disponível. A oferta rapidamente foi aceite por mim e pelos residentes, que começaram igualmente a trazer das suas casas tudo aquilo de que se queriam livrar. A minha, logo ali no rés-do-chão, foi das que deu mais trabalho. Móveis, mesas, cadeiras, estantes, sacos de roupa, papelada, camas, bibelots, quilos e quilos dali saíram para o camião. Recordo-me perfeitamente de chegar a um dos quartos, agora completamente vazio, com paredes brancas com sombras de móveis, e pensar que era aquilo inacreditável, que nunca tinha conseguido sequer entrar naquele quarto, tão cheio estava. Lembrava-me a arrecadação da casa dos meus pais, em que mal se conseguia entrar (e onde, curiosamente, ainda hoje há um desses tanques de lavar roupa de cimento sólido, que imagino de lá nunca vai sair).

O sonho parou por aqui, com a sensação de alívio e limpeza, minha e nos outros moradores do prédio. O pátio sem tudo o que antes o atulhava, agora limpo, a casa despida de muito peso e onde já se podiam abrir as janelas e respirar algo que não pó, e onde já entrava a luz do dia.

Odeio despertadores.

 

Diz-se e escreve-se por aí muito sobre interpretação de sonhos, com teorias verdadeiras ou inventadas, e este sonho parece-me a mim ter uma interpretação muito óbvia e directa, para ti que conheces a minha vida. Não sei se essa interpretação é verdadeira. Mas posso jurar-te uma coisa: se não for verdadeira essa interpretação directa, isso é que é estranho.

 

[1] Note-se desde já que teria escrito estória se o não fosse, já o sabes, certo?

[2] Repara: tudo isto é verdadeiro. Não estou a ficcionar, por estranho que possa parecer. Posso estar a delirar, mas isso é outra… história. [1]

[3] Se estivesse a ficcionar, improvavelmente utilizaria esta palavra.



domingo, 23 de agosto de 2009



Olá – Quem sou?

Nunca me apresentei. Pensar que já escrevo para ti há sete anos, e nunca te falei de mim.

Sinto curiosidade por quem achas que sou. Homem sim. A idade deves poder calcular. Neste momento, descomprometido e de coração em desocupância. O nome, inspirado no Kafka, vou dizer que é J. A uma consoante de distância da do génio.

Provavelmente revelo muito mais do que penso nas palavras que escrevo. Tenho consciência disso. Diz-me, como achas que sou? Eu estou aqui dentro, só sai um gotejar de palavras quando as posso e consigo apanhar e escrever, mas já são tantas, e tanto da minha vida. E nunca ninguém é o melhor juiz de si próprio, não é o que dizem? Por isso te pergunto, em vez de te responder. Quem sou eu? E porque me sinto assim?

Ajuda-me.

 

(esta posta quase de certeza vai ter uma continuação)



sexta-feira, 21 de agosto de 2009



diz-se nos fóruns da in-ter-net

muitas coisas que são mentira. mas também há por lá, nos fóruns da in-ter-net, muitas verdades incómodas, e muita sabedoria disfarçada.

agora há muitos anos que não vou aos fóruns da in-ter-net, mas antigamente ia lá muito. foi lá que te encontrei, que te conheci e que te namorei, foi lá que casámos, numa cerimónia de palavras trocadas em mensagens e respostas, e apadrinhada por todos os que nos quiseram ler ou interferir com inveja mal disfarçada.

foi lá que vivemos o nosso romance intenso e apaixonado, nos fóruns da in-ter-net. como se fosse o nosso pequeno filme, a nossa curta metragem a muitas cores, a namorar palavras entre uma mensagem e outra, num sexo animal que os corpos nunca poderão reproduzir de igual forma.

depois desligaram a in-ter-net, e nunca mais te reencontrei.





Faltam fazer tantas coisas

Não temos tanto tempo assim à nossa frente, ainda que o possamos pensar. E só temos uma vida. O que temos de fazer? o que falta fazer? não te enche de urgência, perceber o que podes estar a perder por inacção ou inibição? Quantos anos te restam, e quão ricos e repletos de coisas boas vão ser?

Já aqui falei da “maldição” do Confúcio, acho: “May you lead an interesting life”. Pois eu quero lá saber do Confúcio. Até porque ele é tudo menos exemplo, veja-se a vida do rapaz.  O teu dia de hoje valeu a pena? O meu não. Até agora, pelo menos. Quero encher tudo, todos os minutos e todos os segundos, com urgência, como se o mundo estivesse para terminar amanhã. Ao sétimo dia descanso, tudo bem, mas ainda vamos no 3º ou assim.

E tu, vens comigo?



quarta-feira, 19 de agosto de 2009



Aluguei o cérebro

A crise tem destas coisas. Para fazer face às inúmeras despesas do dia-a-dia, sustentar os vícios e as colecções de pastilhas, em que pontifica um pacote de 5, novilho em folha, de pastilhas Gorila verdes dos anos 80. Sim, aquelas que se punham todas de uma só vez na boca ao mesmo tempo até deixar de conseguir falar, com uma expressão alegre e atrapalhada na boca. Vale quase 4000€, há muitos que mas querem abocanhar, malandros!

Mas dizia eu antes de me distrair. Agora acontece muito distrair-me. Às vezes parece que sei porque é, mas quando estou quase a pôr isso por palavras, esquece-me o que ia pensar. Não é que isto de me distrair aconteça com muita frequência. Se pensar bem nisso, a última vez já foi há praí um mês e espinhos. Ainda me recordo assim mais ou menos e tudo.

Porque dizia eu antes de me distrair, e isto sim é do que queria falar. Estou aqui a bebericar um rosê enquanto escrevo para ver se me concentro. Estar a escrever com um copo na mão é curiosamente mais fácil do que escrever desarmado. Onde é que eu ia?

Ah. Estava a falar do que ia dizer antes de me confundir com os vícios e excepções. Aluguei o meu cérebro. É. Vi nos fóruns da internet, estavam a pedir voluntários, e para sustentar os meus vícios e as minhas colecções de pastilhas, decidi alugar o meu cérebro. Li uma vez numa revista que só usamos 10% do nosso cérebro, por isso decidi alugar os outros 90% para fazer investigação médica e descoberta de vida fora do sistema solar. Parece que há muita gente que anda assim, com a cabeça na lua e até mais longe.

Posso dizer que já ando há uns 8 meses nisto, e que não há risco nenhum. Tenho tido aí outros problemas, enfim o normal nestes tempos modernos, mas não tem nada a ver com isso do cérebro. É mesmo verdade o que dizem. Só usamos 10%.



terça-feira, 18 de agosto de 2009



heartfelt

Podia estar a escrever isto para ti… ou para ti… ou para ti. Mas hoje, e agora, estou a escrever só para ti. Pelas palavras directas e bonitas, e pela honestidade que me surpreendeu, e até pelo atrapalhado que fiquei quando as li.

Antigamente havia aquela publicidade

E se um estranho lhe oferecer flores?

Foi mesmo isto, e não é preciso dizer mais nada. São lindíssimas.

Obrigado.



domingo, 16 de agosto de 2009



O Novo e o Mar

Já não mergulhava há mais de um ano!... Desde o formidável live-aboard no Egipto, há algum tempo, que não sentia aquela sensação de imponderabilidade tão característica. Saí com os Andrés, de Sesimbra, e foi um regresso ao River. Um mergulho curto, e na verdade foi pouco o que vimos, mas foi uma delícia ainda assim. O ar estava quente, a água fria, o mar lisinho, a paisagem da costa é linda (a ida e o regresso fazem tanto parte da experiência quanto o mergulho em si), e ainda tivemos a sorte de ver um par de golfinhos à ida :-).
A única coisa que me chateia é a logística. Bem-ditos paraísos turísticos, água a 30 graus, e poder mergulhar de shortie!
Muito bom. :-)



sábado, 15 de agosto de 2009



Rafael e a Viagem sem Fim

Chamo-me Rafael, tenho 27 anos, e sempre adorei viajar de comboio. Quando era miúdo, lembro-me de ser acordado às 6 da manhã pelos meus pais, no meio da bruma matinal, para uma viagem de 4 horas e ligações até ao nosso destino de Verão.

Anos depois, fiz viagens semanais para o norte profundo, para um namoro semanal como o dos pássaros. Passa-se muita coisa num comboio em movimento, não é só o mundo que corre lá fora.

Um dia, ao abrir a janela de manhã, pensei: estou irremediavelmente deprimido. Era bom que assim não fosse, e até conseguia sorrir com prazer, mas não estava a dar. Fui para a Estação Oriente, pedi um bilhete para o próximo comboio a passar. Perguntaram-me o destino, tentando ajudar, mas sabia que não queria que me dessem a mão. “O próximo, e para longe.”

Apanhei-o por pouco, o relógio a tiquetaquear, tive de correr na plataforma. Era um comboio regional à antiga, e o suor escorria-me pela cara quando me sente, com o calor da corrida e da carruagem de metal.

Não queria pouca, mas muita terra, o corpo pedia-me como louco que me tornasse anónimo no meio de Vítores, Gilbertos, Alices e tantos outros ao meu lado.

Quando a viagem chegou ao fim, depois de quarenta e sete paragens, no interior do país, decidi prolongar a minha estadia no comboio, e entrei noutro para outro destino, para uma viagem interminável. Só com uma mochila às costas, passei por todo o lado, até os nomes dos sítios perderem significado e a barba se avolumar no rosto. Era uma espécie de maldição, senti, mas tinha preguiça de deixar aquela liberdade.

Quando passei a fronteira da Croácia, e andava pelos corredores das carruagens à procura de onde me sentar, vi-a a vir em direcção a mim. Também com uma mochila às costas e um brilho triste nos olhos profundos, morena e com ar estrangeiro. Mantive o passo, mas por dentro já estava a correr.

Se tivesse tido tempo de pensar, teria pensado que ela podia ser a paixão da minha vida. Mas não tive. Encontrei maneira de meter conversa, atabalhoadamente. Chamava-se Snjezana, que em português significa Floco de Neve, e na conversa que conseguimos ter senti que os dois sorrisos de viajante se iluminaram, com uma tontura de prazer confundida com o balançar da carruagem.

Horas depois, na carruagem-cama, quando nos beijámos e tocámos pela primeira vez, e depois do silêncio em que não se pode falar para não estragar, fizemos o nosso contrato vitalício:

Continuar sempre aquela viagem sem rumo. Mas agora, a dois.

 

 

Exercício final do curso. Estoirante: escrever uma história usando uma escolha de 10 palavras, 10 frases/expressões, 2 a 4 personagens e até 5 espaços/locais, de entre uma lista com uma recolha que a ‘stora compilou durante as 3 aulas anteriores. Achei interessante que a história se construiu em mim logo durante a escolha das 10 frases. Inspirações que vieram à cabeça durante aqueles 20 minutos foram o filme “2046” do Wong-Kar Wai, que tem uma longa viagem de comboio, o conto da Miúda 100% perfeita do Haruki Murakami que aqui li há umas semanas atrás, e uma amiga croata que tem o nome que usei (“Floco de Neve” era o meu 2º personagem…).

Adorei o curso, e recomendo-o a todos os que gostam de brincar com palavras.





Quando for grande não quero ser…

… nem informático, nem advogado, nem jornalista, nem trabalhar num escritório com ar condicionado, o dia todo sentado numa cadeira à frente das mesmas pessoas e do mesmo computador, a ver a rua lá fora.

Não quero fazer as mesmas coisas todos os dias, ter de levar o raio do carro à inspecção, perder horas de vida no trânsito, a beber café para combater o sono que tenho TODOS-OS-DIAS.

Não quero pagar contas, conhecer poucas pessoas, não ter tempo de ir a sítios, não quero ter amarras nem grilhetas, não poder passar todos os dias a viajar e ouvir línguas estranhas.

Não quero irritar-me, poluir o ambiente, fazer barulho, ter tristezas.

Não quero estar sozinho, e não quero ser só mais um dos muitos biliões de pessoas que já viveram neste planeta com tanta cor para conhecer.





Para crianças: A Rainha Miriam

Era uma vez Miriam, a Rainha do Mar. Poseidon, o seu marido, estava na lua, tinha ido mostrar aos filhos o Mar da Tranquilidade.

A Rainha Miriam passava os seus dias sem grande actividade, rodeada de aias sereias, mas na verdade aborrecida por não ter muito que fazer.

Numa noite de tempestade, em que lá em cima se levantavam grandes ondas e só os raios iluminavam o fundo do mar, bateram à porta do castelo de coral.

Uma sereia foi abrir, e para seu espanto viu um unicórnio branco, todo molhado, a pedir para falar com a Rainha, com o ar mais triste do mundo.

“Rainha Miriam, venho-lhe com um pedido especial, mais ninguém me pode ajudar!”

“O que se passa, Unicórnio?”

“Fui mandado pelo meu príncipe, do Mundo Seco, para lhe pedir ajuda. A princesa, a mais bela moça do reino, foi presa por um monstro do mar. Disse a Árvore Falante que os viu a desaparecer nas águas, e preciso de quem os vá salvar!”

Miriam, a Rainha, pensou um momento e respondeu.

“Unicórnio… já lá vai o tempo de me envolver em aventuras… mas vou ajudar-te.”

Saíram juntos do castelo, a Raínha montada no veloz Unicórnio branco, em direcção ao mar do monstro.

E a seguir, o que achas que aconteceu?

 

 

Outro exercício para crianças. Neste caso tivemos como mote uma selecção de palavras de entre um conjunto identificado como comum em histórias infantis, bem como no conto “A Princesa e a Ervilha”. Acabou por ficar longo demais, tive de terminar com um convite à interactividade :).





Para crianças: O que aconteceria se um crocodilo vos batesse à porta pedindo rosmaninho?

Era uma vez uma tartaruga que vivia no tronco oco de uma árvore, na Austrália dos cangurus e avestruzes. Chamava-se Zé Dundee, e tinha quase trezentos anos bem contados.

Um dia, estava Zé Dundee a fazer um chá gelado, com os seus quatro chinelos, camisa branca de alças e calções, quando lhe bateram à porta do tronco.

“Estranho”, pensou, “é meio-dia e ponto, e está tanto calor. Quem poderá ser?”

Espreitou pelo buraco da porta, e viu que era o vizinho, o crocodilo Jack Aré. Abriu, e perguntou: “Amigo Jack, o que o trás à rua com este sol?” “Oh, meu amigo, a lama do lago secou, e nem uma pinga de água ficou. Como posso refrescar-me assim? Até para dormir está calor demais! Queria era fazer como os ursos e hibernar, mas durante o Verão!” “Oh, meu vizinho, já devia ter dito. Não tenho água de sobra, mas dou-lhe um pouco deste chá de rosmaninho, e aposto que só acorda quando o Outono chegar!”

E assim foi. A tartaruga Dundee no seu tronco oco, Jack a dormir no pouco lodo do rio, ambos passaram o Verão quase sem dar por ele.

 

Outro exercício de escrita de uma história para crianças. :)





Para crianças: A tartaruga e a lebre

“Olha lá”, diz a tartaruga, “que que estás aí deitado na relva, ouvi dizer que eras o coelho mais rápido desde o bugs bunny!” “É verdade, Sr. Tartaruga. Porquê, vai desafiar-me para uma corrida'? Pensa que não conheço a história? olhe que eu não sou tolo!” “Nah, nada disso”, responde a tartaruga, “com este calor estava só a pensar se não te incomoda essa gravata” “mmm… bem, sim. Mas que quer? Isto na sociedade dos coelhos é preciso ter muito estilo!”

 

Isto era só um pequeno exercício para aquecer as palavras, numa aula metade dedicada a textos para crianças. :)





Tenho qualquer coisa cá dentro

… que me manda escrever. Faço-o contrariado, contra vontade, os meus dedos batem nas teclas sem querer, em esforço numa maratona que não sabem se vão conseguir vencer, gotículas de suor nas articulações. Há qualquer coisa que quer sair, mas os dedos não deixam. Sabes a sensação de lutar contra ti mesmo, e não saber se vais vencer? É desorientador, porque parece que não te pertences a ti mesmo.

É como aqueles sonhos acordados que temos na cama, em que nos sentimos a cair, sabemos que estamos acordados e podemos simplesmente pensar que já não estamos a cair, mas não conseguimos. Por muito chão que nos ponhamos por baixo.

Tinha muito este tipo de sonhos, há uns anos. E também o sonho inverso, o do elevador que nunca parava de subir.

Que peculiar este sentimento. Devo estar a enlouquecer.



quinta-feira, 13 de agosto de 2009



Heartburn

Na língua inglesa, esta palavra significa:

Heartburn or pyrosis is a painful and burning sensation in the esophagus, just below the breastbone usually associated with regurgitation of gastric acid. (daqui)

grito_munchEm português, para mim, é aquilo que se sente quando se nos aperta o coração, mesmo no centro do peito, e parece que estamos a arder por dentro, que temos de tirar a roupa e mergulhar na água para apagar a sensação.

Inútil, no entanto, porque o fogo é por dentro, não é físico mas químico, e não se apaga assim.

Ontem tive um final de dia terrível, adormeci no sofá enrolado como num casulo, querendo distância de tudo, e hoje vou ter um mau dia também, porque o fogo ainda está cá dentro.

E o pior foi que fui eu mesmo quem o ateou.

 

Amanhã posso começar a reconstrução. Faltam demasiadas horas. Hoje resta-me arrastar-me minuto a minuto.

Ri-te à vontade, t+35, gasta os smileys todos por aí. Isto já deixou de ser sobre ti há algum tempo. Já és só um quadro deturpado e uma memória-delírio a esquecer o mais depressa possível.

Conseguiste o teu objectivo. Eu já não sou eu.



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