Sweet, cold January 1st, 2015
Mal ou bem, não podia deixar de me lembrar de que passaram 20 anos. Somos os neurónios que nos trazem consigo.
insensatamente
Mal ou bem, não podia deixar de me lembrar de que passaram 20 anos. Somos os neurónios que nos trazem consigo.
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11:49
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It was a cold morning, that of October 9th, 2008 in Yevpatoria, Ukraine. Yuriy’s watch was showing 07:02 when he climbed the metal steps to the circular base of RT-70, and opened the locks. The 6º C and strong winds always got to him. He waved weakly to the television people setting up outside, and closed the door behind him.
One hour later the control room was clean, and there wasn’t a dust particle in the always-on computers. Technicians started coming in, and he retreated to his small room, with a window facing the back of the 70-meter radio-telescope, a few green trees on the plain outside.
He looked at his watch, his own special 1MWF Sturmanskie, given to him by his father, an astrophysicist and “failed cosmonaut”, as his mother always said. 08:27. He used it every day, but some days it felt heavier. It was just like the one Yuriy Alekseevich Gagarin had worn in the first Earth orbit in 1961, with a black bracelet and golden frame. Last time it felt this heavy was 5 years before, for Cosmic Call 2. Powerful signals were sent to deep space, to five different stars. The signal was due to reach the closest star only in 2036.
This time the target was closer. Gliese-581c, the third planet of star Gliese-581, smack in the middle of the habitable zone, believed to be a potential host for life because of the possible existence of liquid water, had been recently discovered. A super-earth, 5x the mass of our planet, its year lasts 13 days, and was found using the Radial Velocity method, where the wobble of a star is measured and used to deduce the presence, mass and size of planets around it. It’s a Red Dwarf, small and cold stars that can be comfortable for life because of their long lifetimes, and represent the majority of the stars in the Universe. Gliese-581 is one-third the size of our Sun, twice as old, and close to us at about 20 light-years away.
The popular press and social networks went wild when the planet was discovered, and the ensuing speculation led to that day: October 9, 2008. At 09:00, the A Message From Earth (AMFE) powerful radio signal was shot towards Gliese-581c, containing messages and photos selected from a global competition. The signal was expected to arrive in 2029.
After all the cameras and excitement of the television transmission, Yuriy was the last to go. A swipe of the floor, taking out the garbage, he turned off the lights and went home. He didn’t expect to be around for a return signal, 40 years in the future.
Shortly after the signal was sent, Gliese-581c was dismissed as a candidate for life. A likely runaway greenhouse effect, the scientific papers said, and temperatures exceeding 500º C. The search for life moved to other exoplanets.
But the signal went on.
It was the Spring of 2029 on Earth when the signal reached Gliese-581. Yuriy was in a hospital bed in Tiraspol, Moldova, exiled from home by the Russia-Ukraine war. It was long over, but he never went back. Aged 84, he slept most of the time, rotating the spring on the Sturmanskie every day.
The signal reached the 3 planets orbiting the star, closer to it than Mercury is to Sol.
Gliese-581c did not have a runaway greenhouse effect. Tidally locked, with the same side always facing the star, it has a permanent day affected only by huge sun spots, with the average temperature of about 12 degrees Celsius going down when they passed.
The center of the day-side, a roughly circular region that some would call Equator, received more light and was hotter. Mostly land, it was the home to two intelligent species: the Coldbloods inhabiting mostly in the center, and Hotbloods mostly on the coast. All of them short and strong, with wide 4 and 2 legs respectively. With the sunny side being about 450x the surface area of the Earth, there was no lack of space or need for conflicts. Plus, it was too tiring - time in 581c went by slowly. The ocean, which was circular and occupied the outer half of the planet, all around and near the dark side, was made of freshwater, and had been the source of life millions of years ago, when its metallic core was more active and volcanoes spewed lava and created solid land.
The dark side is only reachable by longboats, and only the Hotbloods go there, fascinated by the day turning into night, the water that turns into ice, the dancing lights in the sky that start halfway in the trip, and the shinning dots behind them. All around the planet, auroras that never sleep mark the separation between the day and dark side. Their cause is the same as on Earth: charged particles from the star’s winds hit the magnetic field, interact with it and cause currents of charged particles that travel to the circle that separates day from night. Reaching the atmosphere, they collide with the nitrogen and oxygen that compose it, excite them, and cause them to emit light. The Hotbloods see in the infrared, where the star emits most energy, so the color that they see in the sky is a dancing, fascinating, hot, blue.
100km into the dark side, the Hotbloods have built their first antenna facing the shiny star-dots. It took them almost 100 years to build, and 10000 years later, it had mapped the sky, the unreachable shinning dots, found thousands of planets, transmitted messages every day, waiting for a reply that never came. And even the long-lived Hotbloods grow tired. “Nothing out there”, they concluded. As it was powered off, the last Hotblood slowly entered the skidvehicle under the antenna, maybe sad of what was being left behind and would not resist the cold for long. “Nothing out there”, he thought, as the AMFE signal entered the atmosphere.
Back on Earth, Yuriy’s heart stopped beating.
[nota: escrito como exercício final para um curso Coursera, “Imagining Other Earths”. Poderia simplificá-lo para tirar alguma da ‘hard science’, mas fica assim]
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11:53
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tags: escrita criativa, histórias, sci-fi
Não havia ninguém vivo naquele T1 de solteiro, as luzes apagadas e a noite lá fora, ar de há muito não ter gente dentro, o pó já pousado nos poucos móveis. Ninguém, excepto o dono da casa, que à secretária no quarto, estava debruçado sobre a única foto que tinha dela, tirada fazia 2 meses.
Aproximamo-nos devagar por trás, sobre o ombro espreitamos a foto solitária no tampo acrílico sobre cor de pinho do ikea.
Na pouca luz do quarto, só de um candeeiro pequeno ao lado da cama, observamos também a foto com grão.
Adivinhamos que os olhos dele estão focados nela, de cabelos pretos curtos brilhantes, e no sorriso que dirige ao fotógrafo. Alterna entre o sorriso aberto dela com o sorriso aberto dele ao lado dela, na mesma fotografia. Compara as pontas dos lábios levantados, os dentes sorridentes, o brilho nas bochechas cheias.
Duas horas depois, em que não o vemos mexer e só o sabemos vivo porque os olhos se mexem e o peito sobe e desce devagar mas sem cessar, vemos o que ele já viu, o que ele não suspeitara quando a foto foi tirada.
Ao sorriso dele, em que está toda a vida e alegria de um momento, contrasta um sorriso um nada menos autêntico, um nada forçado, um nada de eu-não-estou-toda-aqui.
Diz-se que podemos ler muito nos olhos dos outros, mas nesta fotografia quem fala é o arquear incompleto dos lábios dela, num sorriso menos que quase nada genuíno.
Saímos do quarto, deixamo-lo entregue à fotografia, e não precisamos de perguntar porque há pérolas brancas, a brilhar como luas, espalhadas pelo chão da casa.
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22:45
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tags: Desafios, Postas com foto

- não percebo.
- não percebes o quê?
- as roupas, por exemplo. Porque estão vestidos com cortinados?
- talvez fosse moda. Ou estivesse muito calor. Ou não existissem agulhas. Não sei. Mas os romanos tinham o mesmo problema, vestidos com lençóis.
- e os sapatos? Nem umas sandálias?!
- podiam ser naturalistas. E vegetarianos, provavelmente.
- não sei. Mas também não percebo o porquê da estaca a sair do olho do da esquerda, e as estranhas posições em que têm as mãos.
- estou a ficar aborrecido.
- eu também. Mas esta gravura inquieta-me.
- eu também ando inquieto.
- então? o que se passa?
- além de estar aborrecido por estar há meia hora a olhar para isto, é o que tu sabes.
- bolas, ainda ela?! andas há uns 2 anos nisso, esquece lá o assunto.
- não consigo. Quero, mas não consigo.
- começa a parecer-me uma obsessão.
- entre a minha e a tua com o quadro grego, não sei qual a pior.
- a minha é recente.
- e a minha é esparsa.
- se calhar estão a falar de mulheres.
- ou de homens. Naquele tempo havia muitos gays.
- mais do que hoje?
- não sei. Mas dizem que eram muitos.
- eram hedonistas. Tens de os desculpar.
- a mim parece-me filósofos. Todos os filósofos se vestiam assim.
- com cortinados?
- ou lençóis, não sei. Assim.
- se calhar estavam a falar da luz. Podiam estar a falar do Sol.
- podiam. Ou de mulheres. Ou homens.
- estás a começar a aborrecer-me, tu.
- estou a pensar nela. Vi-a há dias, está gira.
- mas queres alguma coisa com ela?
- não.
- então porque não esqueces isso? Seja isso o que for?
- não consigo.
- e ao menos sabes porquê?
- acho que sim.
- e…?
- não é quem ela é. É quem ela não é.
- agora podias estar a falar da gravura.
- é. Tens razão. Podia.
- aposto que um deles é o Pitágoras.
- vamos embora.
- sim. Vamos.
(mote por AS)
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01:06
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Vou desiludir-me, eu sei. Mas porque não tentar? é a minha sinta, procurar este jogo motivacional, até sedutor. Mais forte do que eu.
Via tudo desfocado à minha volta, no silêncio da tarde de Primavera em que só se ouviam abelhas a zunir de vez em quando, e as folhas a roçar umas nas outras, e eu ouvia uma multidão de frases soltas, como se entre dezenas de pessoas a falar ao mesmo tempo em caos de comunicação.
Deitado no chão, escondido atrás das pequenas magnólias cor-de-rosa, focado só no que tinha à frente, como uma lente de fotografia que me não deixava perceber mais nada, levantei-me com um salto, mãos sujas de terra, os olhos fixos nas magnólias, no morro outro lado, na estrada à frente do morro, nos metros de caminho antes da estrada, nos cães destrelados perto das bestas de uniforme que ouvi gritar agarra!, as minhas pernas que se mexiam sozinhas sem precisar da minha vontade, os pés que pisavam um à frente do outro, os latidos que ouvi ou pensei ouvir, a visão de túnel, a tracção da estrada plana, o calor das bocas deles tão perto que as sentia já agarradas a mim, o trepar tropeçado agarrado a ervas e plantas e ramos e silvas, e as mãos já vermelhas como amoras, e o sentido de urgência e vida ou morte – a minha.
Como num filme em câmara lente, dei os últimos passos em cima do monte, nos cantos dos olhos dois cães negros com dentes saídos do inferno, e sem parar para respirar, sem hesitar um segundo, o salto para o abismo, com o mar bem lá em baixo.
Era impossível, continuar a viver assim.
às
00:53
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tags: Desafios, Postas com foto
tenho um desafio novo de escrita que me vai fazer (a mim, blog, que sou o dono e a encarnação deste espaço electrónico) resurgir das cinzas como um sopro num pastel de nata coberto de canela (sim, porque vou esquecer o meu dono de yesteryear e assumir eu mesmo, a tinta negra acesa nesse teu ecrã, a sua propriedade e autoria definitiva). É um acto [*] de rebeldia contra ti, que me tens deixado sozinho tantos dias sem fio.
ora tomai e comei.
[*] Jamais escrevei “ato”.
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02:00
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tags: Desafios, nada de mais
Esta é a história das quatro pessoas que não apareceram para o embarque do voo de Munique para Lisboa no dia 17 de Junho de 2013.
Pelas janelas rectangulares do avião, vimos os cubos de bagagem a ser descarregados para a plataforma, e um senhor arredondado e a transpirar do calor do sol, a verificar a etiqueta de cada uma das malas que depois atira para o chão. O piloto, primeiro em alemão e depois em inglês, explica que quatro pessoas fizeram check-in mas não apareceram no embarque. É preciso encontrar-lhes as bagagens antes de arrancar. O senhor arredondado encontra uma dessas malas, um saco preto desportivo, e atira-o para longe com particular energia. Depois de arrumar o resto das malas de volta, arrasta-a pelo chão para o camião de brincar que a leva juntamente com as restantes, encontradas essas por dois moços de cabelo curto espigado, um deles turco e chamado Onur. O voo parte pouco depois, e aqueles quatro ficaram para trás.
Anya tem 28 anos, e vai com o namorado Robert de férias a Portugal, pela primeira vez. Querem conhecer Lisboa, leram sobre a boa comida, o bom tempo, uns tais de pasteis de belém, o rio e a praia de areia dourada, com um mar do sul que lhes parece irremediavelmente quente. Ela sente-se mal no aeroporto, enjoada, e começa com vómitos. Ele está desamparado, entre a preocupação com ela e com o voo para as primeiras férias juntos. Anya ficou branca, sem susto a justificar, e com tensão baixa. Falaram com o médico no aeroporto, mandou-os de urgência para o hospital. Suspeitava o que seria, mas não podia ter a certeza. Poucas horas foi tudo esquecido. Anya e Robert vão ser pais.
O senhor José Nakamura, nos seus sessenta e oito anos, vai voltar à cidade que viu por instantes há mais de 30 anos atrás. Brasileiro, largou São Paulo e tudo o que tinha para ir trabalhar no primeiro restaurante de sushi de Berlim. Nunca se conseguiu ambientar ao ambiente ou às pessoas, mas os dias passaram sem deixar muitas marcas, conseguiu abrir em nome próprio outros 3 restaurates na cidade, e depois expandiu-se. Gostava da neve e da calma de Munique, e divertia-o por dentro a Oktoberfest que parecia fazer os alemães soltar as amarras controladas do dia-a-dia. Primos, e família que nunca tinha visto e que já nem todos tinham nomes japoneses, iam estar em Lisboa a conhecer os Jerónimos e comer o tal Bacalhau com azeite da tradição por-tu-gue-sa (pronunciavam sempre assim a palavra). Foi atropelado por um taxi com um casal inglês ao entrar para o aeroporto. Iam para Londres, moravam em Greenwich, e estavam atrasados para o seu voo. Ele um consultor financeiro, ela decoradora de interiores com predilecção por padrões floridos. O condutor estava distraído, não travou ao negociar a pressa de chegar às partidas. Conseguiram embarcar a tempo.
Tem 48 anos, vai a uma reunião de trabalho em Lisboa com a equipa de gestão da multinacional de seguros em que é gestora. Vive sozinha, tem dois cães, uma casa com um pequeno relvado e um pinheiro nórdico, um filho de 18 anos que vive com o pai. Passa horas no ginásio, tem o corpo torneado de alguém que se preocupa com imagem, usa saltos de 3 dedos, saia azul presa nos joelhos, camisa branca impecável, óculos que costumam estar assentes no cabelo louro escuro preso atrás, numa mão um smartphone, na outra a mala do portátil. Não tem tempo a perder, e sabe sempre onde o põe. Na porta G33 de embarque para Lisboa, ainda está ao telefone a ultimar pormenores para os dois dias em que vai estar fora. Ouviu a última chamada para Lisboa, a poucos metros de distância, com os olhos desfocados. Deixou a mala com o portátil, o telemóvel, e os óculos numa cadeira, e duas horas depois embarcou anónima para Marrocos.
E foram felizes para sempre, aqueles quatro que não apareceram para o voo de Munique para Lisboa no dia 17 de Junho de 2013. Menos o senhor José Nakamura, mas já teve uma vida muito cheia.
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21:14
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tags: airplane stories
José sentia a transpiração, que lhe encharcava a camisa com o calor abrasador que vinha de cima e deixava tudo seco e quente ao toque. Dos cabelos escassos e normalmente secos caíam pingos que levantavam pó seco ao tocar o chão, como uma bomba atómica no mar. A sombra que fazia no chão era o local mais agradável de todo o mar de calor em seu redor, de tão quente que lhe subia pelas calças adentro, fazia transpirar as pernas, o aquecia a ferver. Sentia nas mãos os nervos de uma pequena árvore rugosa, morta, que queimava ao toque, e onde não encontrou nada que pôr na boca. José estava molhado por fora, mas seco por dentro, e na boca seca só entravam as gotas salgadas que escorriam do rosto.
A casa estava perto, e sentia no ar um vago cheio a feijões, o almoço que imaginava na boca e saboreava, a água fresca onde queria encher-se e mergulhar o rosto, mas não conseguia abrir os olhos, a luz branca e quente do céu cegava-o, o calor roubou-lhe o caminho de casa. José estava parado, apoiado na pequena árvore, a tentar adivinhar o rumo para Maria.
Na casa quadrada de uma divisão só, como um oasis na terra amarela frinchada por milhas e milhas em todas as direcções, Maria encostava o nariz aos vidros quentes, à espera de José perdido. Beijou-o com os lábios generosos, como se beijando o vidro beijasse a José e a tudo o que estava lá fora, e aquele sinal marcado em cada um dos quatro pontos cardeais o pudesse guiar de volta. Chamou por ele baixinho, na sua voz calma e segura, pediu que não se demorasse, disse que precisava dele, que nunca devia tê-lo deixado sair com aquela idade.
Respirou fundo, deixou húmido o vidro em que tinha acabado de deixar um O, e foi abrir a arca. A tampa chiou, no silêncio ouviu-se com perfeição cristalina a fechadura de metal a bater e ceder. As mãos procuraram o tecido em fibra por baixo de todos os cobertores de lã, as camisolas que lhe picaram a pele há mais de 70 anos, quando brincava nos jardins onde os pés se enterrava com um sploch na neve, as camisas brancas e arejadas com cintura delgada de menina, de quando a grande seca ainda não tinha começado. Lembrava-se de ser branco, de ser fresco, do cheiro a novo que agora tinha sido substituído pelo de poeira e anos acumulados.
Vestiu-o, supreendendo-se por o corpo de 80 ainda caber no vestido do corpo de 20, e por ter deslizado com tanta facilidade. Arrastou os pés descalços pelo chão de madeira morno, sentindo os sulcos entre cada ripa, puxou a cadeira de madeira em frente à mesa, com pratos postos, o mesmo feijão que de tantos anos já lhes sabia a todos os dias, mas que os confortava aos dois, com o cheiro que enchia a casa quadrada de uma divisão só. Esticou a mão para a jarra de água fresca, puxada do furo profundo debaixo da casa, sentiu no frio do vidro as gotas de água gelada que continha, e sentou-se para esperar.
E quando já não o esperava, e em toda a casa nem o pó se mexia no ar, sentiu o rodar da maçaneta a encher tudo.
(proposto pela Sofi)
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20:02
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tags: Desafios, escrita criativa
Uma limpeza. Vieram por entre a neblina ao nascer do dia, vi-os descer o monte com erva verde de inverno, e levaram tudo o que não estava preso ao chão. Mulheres, crianças, velhos, tudo o que tivesse valor. Os homens em idade de lutar já tinham fugido. O meu pai fez-me prometer que não saía do celeiro, que esperasse pelo regresso dele, e desapareceu por entre as árvores da floresta. Levava um farnel às costas, num saco de pano castanho que a minha mãe lhe tinha dado há muitos anos atrás, em dias melhores.
Do alto do celeiro vi tudo o que se passou na aldeia. Sem me mexer, vi a passividade das pessoas, a incredulidade revoltada. Serem levados como cordeiros, à força das armas, a história do homem a repetir-se em pleno século XX. O padre, o cura, o senhor da venda que na semana passada me deixou cair a caixa de pepinos no pé. No hospital engessaram-me e mandaram-me ficar sem me mexer duas semanas. Ao fim do primeiro já tinha assinaturas de todos os amigos, um census da aldeia escrito no gesso.
Olhei o céu, vi a nuvem, branca como uma folha de papel, perfeita e redonda mesmo em cima de nós, espectadora impávida do espectáculo que sob os seus panos se escrevia. Dois tiros levaram a paz ao padeiro e à mulher, pelo atrevimento de defender o forno dos hirsutos de uniforme militar. Assustei-me, soltei um grito mal contido, quando os vi cair. Ele devagar, para a frente e dobrando-se sobre ela própria, ela projectada para trás com violência.
Vieram-me buscar pelos braços, a arrastar pelo chão e quase largado escadas abaixo.
“É um miúdo”, ouvi as vozes lá em cima, por entre pernas e canos de espingarda. “Não consegue andar”. “Pena.”, responderam-lhe. E ouvi o estampido, num cavalo humano.
Na noite que caiu depressa ouvi uma voz de mulher a cantar, com aquela melodia tão balcânica que tão bem conheço, suave e fria, e perguntei-me se seria a minha mãe, de quem só lembro umas fotos a preto e branco.
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23:03
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Eu
Estava sentado ao balcão do bar. Não se lembrava bem de como lá chegara, era a primeira vez que ali estava, e fora todo o caminho cego, de mãos vermelhas de tensão no volante. Atrás do balcão as bebidas em garrafa variadas do costume, por uma janela de vidro turvo a chuva lá fora não podia faltar, nos copos de whisky o gelo não chegava a derreter-se. Contava os minutos, olhava sem ver para as outras pessoas, sozinhas ou a par ou em grupos, a beber cerveja em voz alta ou a relaxar nas mesas, o ar acolhedor em que só sentia frio. Esperava por ti, que não chegavas, e pensava em tudo o que tinha de te dizer. Pensava em insultar-te, na amizade traída, em ver-te pela última vez, em pregar-te um murro e deixar-te no meio de chão.
Tu
Ficou sentado no carro quase uma hora, a ver a chuva a escorrer pelo vidro, sem saber se devia ir-se embora ou entrar para falar com o amigo. Já o conhecia há mais de 20 anos, uma amizade automática sedimentada em muitos anos de partilha e vida comum. Sabiam quase tudo um sobre o outro, partilharam as maiores alegrias e tristezas. Noitadas, férias, aventuras, miúdas, os casamentos, o divórcio, os filhos do amigo. E sabia que a conversa que ia ter, quando entrasse por aquela porta, podia ser a última.
Saiu do carro e entrou no bar. Viu o amigo ao balcão, inquieto, e dirigiu-se para ele com passos inseguros.
Eles
Da minha mesa não consegui perceber o que se passava. Só vi um deles, de fato e em mangas de camisa, empurrar o outro com violência e cair em cima dele para o chão, esmurrando-o atrapalhadamente. Engalfinharam-se como numa briga de miúdos até os separarem. O outro, com um lábio rachado, compôs o fato como pôde e saiu cabisbaixo, perante os insultos que o primeiro, a quem prendiam pelos braços, lhe berrava. Só o soltaram depois do outro sair, e depois de lhe chamarem um taxi e sair a cambalear, nunca mais o voltei a ver.
Saias, até aposto.
às
21:24
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tags: Desafios
Primeiro escrevi uns rabiscos, rápidos e direitos, a testar a ponta macia. Em perfeitas condições, o tom de azul perfeitamente adequado às intenções. Mãos tratadas de mulher, pele suave, unhas pintadas. Em casa, escrevi sem cessar. Parei para o jantar, e voltei ao papel, furiosamente por vezes, muito devagar outras. O que tinha de sair saiu, em horas dedicadas, milhares de palavras, folha de papel atrás de folha de papel, frente e verso. A noite batia as 4 horas quando depois de uma passagem lenta, o papel ficou molhado numa pequena forma circular, a tinta azul misturou-se nela como fumo de incenso no ar, e deixou de sair, deixou de agarrar o papel.
Deitou-me fora, atirou-me para o cesto do lixo quase com raiva, ainda a meio a tinta no tubo. Já o livro que escrevi, esse teria algum sucesso, um romance triste em tons de azul, para mulheres sozinhas com os seus gatos.
às
21:13
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a forma mais curta de dizer a outra pessoa que a amamos.
uma forma curta e singela e repleta de magia e promessas e empatia e proximidade de corpos e vidas e sentimentos e alegria e ao mesmo tempo felicidade.
um espelho em que nos olhamos mas se reflecte o outro.
uma palavra só.
não o batido verbo amor na forma reflexa. o amo-te que pode ser mágoa quando não correspondido, ou dito como despedida.
só…
nós.
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00:05
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tags: A brincar com palavras
mudei, é verdade. porque
quero que todos saibam, quero dizer o teu nome a todos com quem me cruze, quero espalhar a notícia pelos sete cantos do mundo, contar a quem me oiça o que sinto por ti, contar os pequenos detalhes, do sorriso mais encantador e alegre a sorrir de volta para mim, dos olhos quase negros a desenhar incansáveis cruzamentos nos meus, esses olhos que dizes sem saber serem “só castanhos” mas que brilham cá dentro. sem que nem eu nem tu nem eu nem tu percebessemos que magia nos envolveu que magia desde o primeiro momento daquela desta magia...
quero que todos saibam, porque contigo perco-me nas horas que passam sem as conseguir ou querer deter, porque beijo os teus lábios e a tua boca e a toda quem és como se fosse adolescente, sem me cansar nunca, porque te abraço para te sentir minha e junto a mim, porque me falham as palavras quando estamos a conversar e brincar, porque me fazes ficar de olhos húmidos, porque me arrepias e derretes com um oceano pelo meio…
quero que todos saibam o teu nome, porque pouco te conheço e te conheço há anos em sete dias, porque tenho a saudade a bater cá dentro quando não te tenho, porque te quero apresentar a todos os amigos, levar a todos os lugares, porque me fazes não querer pensar temer ou recear, porque gosto de sentir o que sinto por ti, porque gosto de saber que sentes o mesmo.
porquê? porque estou completa, completamente apaixonado por ti, Sofia.
e têm todos de saber isso.
às
06:01
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tags: A Rebentar
Ficámos à frente da televisão, já não sei se a ver um filme, se a jogar um jogo. Mas adormeceste no sofá ao meu lado, e tive de com carinho te roubar da ronha e levar para o quarto comigo, enquanto protestavas com birra de sono. Fingiste que querias dormir, mas agarrei-te e beijámo-nos e… fizemos amor um com o outro. Com carinho, com paixão, com entrega, uma fusão de corpos e de espíritos, um prazer profundo e único, uma comunhão que me preencheu total e absolutamente e me deixou... feliz.
Adormecemos juntos, agarrados, a respirar no teu pescoço, junto ao teu calor, corpo com corpo, quase só uma pessoa, poucas coisas poderiam ser tão especiais como estes momentos. Se a vida fosse sempre assim todo o planeta seria um sítio muito mais feliz.
E esta foi a nossa última noite juntos.
às
14:36
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O texto seguinte não está datado. foi encontrado, por assinar, no final de um bloco de folhas quadriculadas. a transcrição é integral e conforme o original.
«Estou cheio de sono e hoje o dia foi pouco produtivo. Hoje tenho de me deitar cedo, não ficar a jogar até tarde com pensamentos idiotas na cabeça. Felizmente ela não me contactou mais. Cairei na real talvez. Ainda bem? A quem minto eu?
Não estou para isto. É amizade, é amizade. Fónix. Não gosto de coisas não claras, não gosto – detesto – sentir-me assim cheio de altos e baixos. É um suplício, está a fazer-me mal e não quero isto. O meu cérebro conspira contra mim e isto é uma tensão que não me agrada. Não vou insistir, e sair graciosamente. Isto não, isto não, isto não.
Não me podes desiludir. Já me desiludiste. Não esperar nada. Isto é a chave. Não esperar nada. Nada. Não esperar. Nada. Não esperar nada. Esperar a conversa “depois de jantar”
não esperar nada
não esperar nada
não esperar nada
quase que dá vontade de que argentina passe depressa, para poder ter toda a liberdade de fazer o que me dá na real gana. E agora não posso fazer isso. Não posso estar sempre disponível e não ter nada de parecido. Acabou a disponibilidade universal, acabou o Verão. Neste fim-de-semana. Na 6ªf.»
O texto infelizmente não está datado, mas assume-se que seja de uma data anterior à viagem à Argentina, em que perante alguns motivos de insatisfação, o autor anónimo chega a exprimir vontade de que essa passe depressa, para que perante o descontentamento que sente, possa agir.
Não temos mais informações.
às
23:32
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(excerto do filme “Simple Men” de Hal Hartley)
«Just be quiet and go to sleep.
- I can't sleep.
- Why not?
I'm in pain.
- What?
- I got a broken heart, man.
- Bullshit.
- I do.
What happened?
I was set up.
Double-crossed.
Betrayed by the woman i love.
- Who, mom?
- No!
- Vera.
- Who's vera?
I don't want to talk about it.
- Suit yourself.
- You wanna see a picture of her?
- Wow, she's pretty.
- I would've done anything for her.
- Sorry.
- I just can't understand it.
- You'll get over it.
- No, dennis, i will not get over it.
- Yes, you will.
- Dennis, i love this woman.
- You've loved other women.
- Not like vera.
- Vera was special.
- Believe me, you'll get over it.
Yeah, you're right.
Tomorrow...
i'll get over it tomorrow.
- Now go to sleep.
- But i'm not gonna fall in love anymore.
- Fine.
- Women don't want you to love them.
Tomorrow...
the first good looking woman i see...
i'm not gonna fall in love with her.
That will show her.
Yeah. The first good looking
blond woman i see...
i'm going to make her
fall in love with me.
I'll do everything right.
Be a little aloof at first.
Mysterious...
seem sort of thoughtful, deep.
But possibly a bit dangerous, too.
Flatter her in little ways
but be modest myself.
They all fall for that shit.
Make her fall hopelessly
in love with me.
Yep. Mysterious,
thoughtful, deep, but modest.
Then i'm going to fuck her.
But i'm not going
to care about her.
To me she's going to be
another piece of ass.
Somebody else's little girl
who i'm going to treat like dirt
and make her beg for it, too.
I'm just going to use her up.
Have my way with her.
Like a little toy,
a little plaything.
And when i'm done...
i'm just going to throw her away.
Are you through?
I haven't even begun yet.
Go to sleep.
I can't sleep. I'm in pain.»
Tirado daqui. Este diálogo, na forma como o irmão mais velho diz “I’m in pain”, sempre me tocou profundamente. Para quem não viu o filme, ele acaba por conhecer uma mulher, que o acha misterioso e etc.
E apaixona-se por ela.
às
14:04
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Concidadãos,
depois de aturada conversação e avaliação das circunstâncias que tão recentemente afligiram o nosso rectangular ser, gostaríamos de aproveitar a oportunidade para clarificar junto de todos um facto de que apenas há pouco tomámos conhecimento racional.
O motivo para o atraso na revelação deve-se à complexidade do processo auto-reflexivo em si, que c0m frequência levou este comité para observações circulares e argumentos e memórias secundárias, que tornaram impossível uma objectividade que apenas circunstâncias que poderemos classificar de extraordinárias permitiram revelar.
O facto em causa refere-se como não podia deixar de ser ao recente encerramento da relação com a Pessoa Que Não Vamos Nomear, nas circunstâncias que são por todos e pelos demais desconhecidas. Ao contrário do que até agora veio sendo vinculado na comunicação social, wikileaks, e inclusive comunicados anteriores à imprensa, sobre a reduzida dimensão do que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear, o que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear não era efectivamente pouco ou limitado.
Não sendo obviamente algo que fosse pretendido para agora, para o já, e serem de esperar anos e meses de maturação da ideia e de avaliação mútua das duas Pessoas envolvidas (e respectivos cidadãos), que como é de todos conhecidos têm diferenças que seria necessário avaliar e compatibilizar, o objectivo claro da Pessoa João era efectivamente forjar laços com a Pessoa Que Não Vamos Nomear de uma natureza permanente e duradoura, que teriam de ser construídos meticulosamente com base em afectos e agradabilidades mútuas mas construtivas e progressivas, e que porventura passado algum tempo resultariam em uma ou duas Pessoas Júniores e, se fosse vontade de ambos, numa união de natureza civil-matrimonial.
Desta forma desfeita falta de informação, e cientes de que o presente esclarecimento em nada altera os eventos já colocados em movimento, cumpre-nos lamentar a demora no processo reflexivo que permitiu a esta Pessoa chegar a esta conclusão, e a consequente demora na informação aos cidadãos, e esperar que em eventuais processos futuros esta clarificação e compreensão seja atingida de forma atempada.
Lamentando o sucedido,
P’la Presidência da Pessoa João,
-joão
às
01:00
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tags: A brincar com palavras, escrita criativa, pesadelos, triste
Acordou devagar como sempre, entorpecido de uma noite longa, com a sensação de que alguma coisa estava errado. Já se estava a levantar quando se lembrou de que ela já não estava na sua vida.
Romperam violentamente na noite anterior, rasgaram tudo o que os tinha juntado, sem olhar para trás ou tentar perceber porquê, não houve sanidade nem violência, mas uma calma fria e cortante e incompreensível e distante, como se nem fossem eles que estivessem ali, como se não quisessem ou pudessem dar-se ao luxo de admitir que se calhar até gostavam um do outro e que as coisas podiam até resultar, porque isso era fraqueza.
Romperam violentamente, e sabia que não se iam voltar a ver. Podiam pensar um no outro, podiam querer voltar a estar juntos, de certeza que se iam perguntar o que raios lhes tinha acontecido, mas não iam mexer-se para inverter fosse o que fosse, e as linhas iam divergir inevitavelmente. Ambos conheciam as regras do jogo, jogavam-no há demasiado tempo, e sabiam dos flancos que só se expõem uma, no máximo duas vezes na vida. Não o iam fazer outra vez.
Mas quando se joga à defesa não se marca, e o maldito orgulho não os deixou sair de onde estavam, cada um por si, a retomar a sua vida normal. 85% mais pobres, que estupidez tão trágica.
Não foi capaz de sair da cama, nesse dia.
(ps: não foi orgulho. foi não quererem a mesma coisa. mas ele escreveu isto antes de tudo acontecer)
às
01:23
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tags: escrita criativa, triste
A cota está toda arranjada, hoje. Deve ter um encontro ao final do dia. Sentada à minha frente a tentar olhar-me nos olhos, com as mãos em cima das pernas cruzadas, à espera que eu fale, responda, ou faça qualquer tipo de movimento. Não tenho qualquer intenção de a satisfazer.
“É a quinta vez que cá vens, Carolina. Vais continuar sem dizer nada?”
Outra tentativa. A seguir vai perguntar se não me incomoda desperdiçar assim uma hora por semana. Vai recordar-me que é imposição legal e dos meus pais, e apelar-me ao sentimento de culpa. Sim, é uma perda de tempo, completa. Mas não estou aqui por minha vontade, e nada vai mudar isso. É palerma, se acha que lhe vou falar de mim. Quem julga ela que é? E a chamar-me Carolina? Parece de propósito para me irritar.
“Os teus pais disseram-me que começaste a ler muito nova. De que livros gostavas?”
Ok, conseguiste irritar-me. Andaste a cuscar com os meus pais. Para saber de mim. Quem te deu o direito? Começo a sentir-me tensa, posso até ter pestanejado sem querer. Fónix, raios os partam. Sim, mulher, comecei a ler muito nova. Li o Lolita. Queres que te fale disso? De como me tornei amiga dela e me seduziu o poder que tinha sobre o pobre Humbert? Sobre o mundo, até? Pois sim é verdade. E daí vais concluir que foi por isso que acabei aqui neste escritório quente, com pouca luz e cheiro a bafio, sentada muito composta em penitência com os joelhos juntos e a olhar para a parede do outro lado. E até podias ter razão, mas não te vou dar o prazer de o saber.
“Não te vou tratar com uma criança, Carolina. Estás a portar-te como uma adolescente. Igual à maioria dos outros da tua idade com quem falo, todos os dias. Revoltados com a autoridade ou mundo em geral.”, disse a voz com olhos directos e tom de constatação.
Tirou um curso em irritação, de certeza. Tenho de ver o que posso fazer acerca disso. Onde morará? Não, minha amiga, penso comigo mesma, não sou igual aos outros que por aí te entram. E se me irrito é porque me estás a fazer perder tempo. Tenho coisas para fazer lá fora. Hoje apetece-me uma tatuagem. Isso. Um falcão com garras afiadas, por trás do ombro direito, em voo picato. Os cotas vão-se passar, e vai ficar fixe no meu perfil. E se continuas a chatear-me, ponho-te a ti nessas garras, mulherzinha.
“Bom, vamos recomeçar. Eu não tenho nada melhor para fazer, Carolina. E tu achas que tens, mas não podes por minha causa. Sabes porque estás aqui?”
Claro que sei, penso, sem um pestanejar. Deve pensar que sou tola, além de calada. Os meus pais acham que sou anti-social, que não tenho amigos, que passo demasiado tempo a mandar mensagens e na net. Quem os mandou mudar para Almada, não estávamos bem em Lisboa? Também deviam querer que vestisse cor-de-rosinha em vez de preto, ou andasse de saltos altos e não botas. O que têm eles a ver com o que faço? São só os meus pais, e não devo precisar deles muito mais tempo -- já tenho o meu império, que me segue cada curta frase, que controlo por palavras e abreviaturas, e que fará tudo o que eu quiser.
É verdade, a Carolina não tem amigos. Mas para os amigos não sou Carolina. Sou Orange, Lady Orange. E tenho milhares de amigos.
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A partir de um desafio de Lady Mary Jane. Elementos a usar: Carolina – para os amigos Lady Orange, Adolescente, Não gosta de saltos altos, Almada, Quer fazer uma tatuagem.
às
15:51
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tags: Desafios, escrita criativa
Isto aconteceu há mais de 20 anos, e fala de uma miúda chamada Susana, nos seus 12 anos talvez. Uma das minhas primeiras paixões.
Não nos falávamos, e só te conhecia de vista apesar de estarmos na mesma turma. Tinhas um olhar distante e dono de ti. Não eras linda, mas tinhas alguma coisa especial que me chamou atenção. Podia jurar que tinhas olhos cinzentos, mas posso estar enganado.
Não me lembro do teu rosto ou do teu olhar, e não te reconheceria na rua. Também não te falaria, se reconhecesse. E não te ia contar a história do coração de borracha.
Era Vermelho, cabia na palma da mão, e devia dizer “I Love You” em letras brancas. Deixei-to em segredo dentro da mochila num intervalo entre duas aulas, junto com uma mensagem de amor. Naquela altura eram moda as pequenas borrachas com formas e mensagens, e havia quem as coleccionasse. Miúdas.
Não sei bem como, mas acabou por voltar às minhas mãos, e nunca nos falámos sequer. Talvez tenha aparecido, devolvida num intervalo, na minha mochila.
Quando o ano acabou e mudei de escola, vi-te de mão dada com um amigo que já vestia só de preto, ouviam-se os Art Company ao fundo a cantar o teu nome e rir-se de mim.
Já a pequena borracha vermelha em forma de coração, essa seguiu-me muitos anos.
às
13:58
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tags: escrita criativa, histórias
Antigamente quando as gloriosas férias de Verão de 3 meses se prolongavam para Setembro na Terra dos Meus Avós (2ª porta a seguir ao Paraíso), havia “debulhadas” rituais, juntavam-se as gentes da aldeia numa eira para tirar as camisas às maçarocas de milho. Sentados em círculo em volta da pilha, 10-15 pessoas contavam histórias uns aos outros, e bebiam anis e outros licores em garrafas que faziam a roda.
Havia três tipos de maçarocas diferentes. As normais, mais comuns, para fazer farinha e dar aos animais. Outras, finas e raras como caninos, eram o milho de pipocas, e guardavam-se para esse fim. As últimas eram ruivas, pouco mais claras que vinho tinto, e desbloqueavam uma espécie de bate-pé para os miúdos. Quem descamisasse uma destas, podia pedir um beijo a alguém à volta da pilha.
Acabei de encontrar um pelo de barba ruivo. A quem vou pedir um beijo?
às
17:06
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tags: histórias
Foi uma despedida, aquele dia. Quando acordei de manhã, sabia que ia ser um dia de despedida. Alguma coisa no ar parecia segredar-mo. Não acredito em premonições, mas tinha aquela sensação de que alguma coisa ia acontecer. Sentia-o todos os dias, normalmente ainda de manhã, normalmente pouco depois de acordar, normalmente para o esquecer pouco depois.
Mas naquele dia aconteceu mesmo.
Actualmente há quem comemore o fim de um casamento com uma festa de despedida de casamento. Há quem não as compreenda, por um fim de casamento ser um sinal de fracasso e de fim de amor. Há quem encare como mudança, e sinta que precisamente por ser mudança e recomeço, deva ser comemorada.
No livro mais conhecido do Heinlein, "Estranho numa terra estranha", há uma festa quando alguém morre. Como forma de ficar com um pouco dessa pessoa em si, pode até comer-se um pedaço dela. Lembra o horrendo final do "Bébé de Maçon" no filme do Peter Greenaway.
Conversámos, frente a frente, quando chegámos a casa ao final do dia. Tu e eu, os teus olhos e os meus olhos. Não foram precisas muitas palavras. Terminámos com um "Está decidido, então". Saíste de casa para ir ter com uma amiga, eu fiquei a fitar a imensidão de pormenores do tecto branco natureza.
Marcámos a festa para daí a um mês, quando já estavam os papéis assinados, já as famílias sabiam e se conformaram, já os amigos sabiam e tinham tomado lados. Havia mais que duas pessoas a separar-se, quando aquele papel fosse desassinado em triplicado.
Escolhemos um restaurante bar conhecido, que alugámos só para nós. Escolhemos a ementa os dois, eu os pratos de carne e ela os pratos de vegetais. Decidimos quem ficava em cada mesa e a sua disposição na sala, escolhemos nomes de filmes e livros para dar às mesas, fizemos os convites fashion numa gráfica. Contratámos um DJ, que ia passar à vez as músicas de um e as músicas de outro, e terminar com uma valsa para ser dançada a sós pelos dois recém-separados.
A festa foi um sucesso. Mais de duzentas pessoas acabaram por aparecer, algumas depois de muita insistência. Houve cantoria, divorciado e divorciada lançados ao ar à força de braços, o atirar do bouquet à sorte de uma das casadas da sala. A minha prima já andava insatisfeita, quando apanhou as violetas veio-lhe um sorriso ao rosto.
Fechámos como havíamos aberto. A dançar a valsa que escolhemos, só os dois na pista, rodeados pelos convidados, e ao som das palmas quando terminámos, demos o nosso último beijo nos lábios.
às
15:15
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tags: escrita criativa
Já não tenho paciência para os aturar. Tanto de dia, como de noite, 90% dos meus clientes são homens. Estou FAR-TI-NHA.
Partilho um táxi com a Gisela, da Guarda. O patrão acha que ter mulheres ao volante é bom para o negócio. Eu faço os dias, ela as noites. No bar, é ao contrário. Ela faz os dias, eu as noites. Os homens de Fernão Ferro sempre preferiram as roliças na passerelle, e babam-se quando me vêm tirar peça de roupa depois de peça de roupa. Pena serem um tesos, se não fossem já não andava nisto.
Há dias reparei num que todas as noites aparecia à minha hora, se sentava bem à minha frente, e ficava a beber um whiskey e olhar-me com ar tímido. Dias a fio disto chamaram-me a atenção para ele. Doidos destes já os conheço bem. Acabou por me pedir uma dança, e balbuciou que se chamava José e me admirava muito, queria casar comigo, amava-me e achava-me a mulher mais bonita do mundo. Não lhe dei resposta, e despachei o serviço que me ia pagar a revisão do carro na garagem.
Hoje chamaram-me para um serviço no Barreiro, e quando chego entra-me no carro o José, de mão dada com uma mulherzinha baixa. Queriam ir para o aeroporto. Vi-o ficar vermelho que nem um chouriço quando me viu, e quase me ria para dentro.
Deixei-os na Portela e parei na estação de serviço para beber um café e fumar um cigarro.
“Malandros. São todos uns malandros.”, pensei ao cuspir a beata e voltar para o carro.
(este texto foi o exercício final do curso de escrita de viagens, um desafio de escrita livre, com base num conjunto de elementos fornecido por um colega: taxista de dia – Ernestina e stripper à noite – Priscila; o texto devia incluir ainda uma garagem, uma bomba de gasolina, um copo de whiskey, e ser passado em Fernão Ferro). O colega em causa chama-se José… (nota: pseudónimo)].
às
18:17
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tags: escrita criativa, histórias
Qual foi o meu melhor pôr-do-sol? Lembro-me de mais nasceres do sol do que de pôres-do-sol. O que não faz sentido, sabes que sou noctívago. Um de cada? Tenho de pensar. Lembro-me de um pôr-do-sol em Dubrovnik, pouco depois de chegar à cidade. Não foi especialmente bonito, e o céu não ficou vermelho da cor de chouriço, mas lembro-me desse, e que havia o brilho do sol no mar, daqueles que nunca ficam bem nas fotografias. Nascer do sol lembro-me de um nos Açores, em São Miguel. Passei a noite aninhado no carro, desconfortável e tapado com um saco-cama, para ver o sol a nascer na Ponta da Madrugada. Hem? Como foi? Estava nublado, não vi nada. Que pôr-do-sol gostava mais de ver contigo? Só me fazes perguntas difíceis, ainda para mais a esta hora da manhã, amor. Deixa pensar. No Pólo Norte, talvez. Quando o sol se põe por seis meses. Queixam-se os vinte e nove de fevereiristas de barriga cheia - lá em cima, só há um dia por ano. Sabes que os Inuit acreditam que se cantarmos ou assobiarmos para a aurora boreal, ela nos leva para o outro mundo, ou mais prosaicamente vem e nos corta o pescoço? Ainda hoje contam a estória às crianças. Já não chegava o medo do escuro, que começa com o pôr-do-sol.
Vamos?
[viagens… um texto sobre o pôr-do-sol]
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02:51
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tags: escrita criativa, histórias
Deram-me os dois pauzinhos num restaurante chinês no Soho em Londres, para assinalar os 20 anos de existência do local. Eram todos diferentes uns dos outros, e os que escolhi são pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo, com uma pequena bolsa de tecido bordeux a mantê-los juntos. O final da refeição trouxe também o obrigatório bolo chinês, que dizia: “When you find the other pair, you will have found your pair”. Pareceu-me enigmático já na altura, e provavelmente uma tradução errada.
Isto foi há quase 3 anos, e desde aí andei sempre com os eles.
Conheci-te ontem, numa conferência a que ambos viémos. Simpatizámos um com o outro, e combinámos um jantar oriental na ChinaTown de Seattle. Caminhámos juntos do Hotel, escolhemos um restaurante pela cor do néon sobre a porta, entrámos e sentámo-nos. Escolhemos na ementa o 37 e o 42, e pedimos duas Tsin-Tao para acompanhar a conversa.
Quando veio a comida, a fumegar numa chapa quente, vi-te tirar da mala – como que em câmara lenta - uma pequena bolsa de tecido bordeux que mantinha juntos dois pauzinhos chineses, pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo.
Respirei fundo, irrequieto por dentro e nervoso demais para falar, e tirei os meus do bolso do casaco. Os pares eram idênticos ao mínimo pormenor.
[inspirado em… dois pauzinhos chineses, pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo, mantidos juntos por uma pequena bolsa bordeux]
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01:28
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tags: escrita criativa, histórias
«Depois de rodadas consecutivas de margaritas, “Pablo y Sus Muchachas” – assim auto-denominadas ao fim de 4 dias no México – não tinham como não “borrachos”. O pior era que, na mesa ao lado, uns mexicanos puros com ar de poucos amigos estavam igualmente “borrachos”…»
… os tons de voz exaltavam-se com o avançar da noite, e começaram a picar-se os locais e os estrangeiros, com desafios indirectos de um lado em espanhol e em portinhol do outro.
O Bar estava cheio, o ambiente denso e com fumo, um barman de pescoço curto atrás de um comprido balcão de madeira servia impávida e eficazmente. Quatro grandes televisões debitavam decibéis e desporto para quem o quisesse ver.
Pablo, a vedeta da banda portuguesa, não aguentou a tensão no ar, e levantou-se com ar solene. “Muchachos, bamos a cantar la gloria de Portugal!” As “muchachas”, que por cá seriam conhecidos por João, Rui e Zé, levantaram-se também em volta da mesa, de copo na mão e a limpar a garganta.
“Heróis do maaaaaar…” É difícil, cantar o hino em ritmo mariachi.
O bar ficou em silêncio. Curiosamente, não hostil, mas com respeito. Quando a atrapalhada cantoria terminou, os outros presentes, da mesa ao lado e não só, replicaram solenemente com o hino mexicano.
Estavam feitas as pazes, entre gargalhadas e brindes. Pouco depois, começava o Portugal-México do Mundial. O México perdeu. Mas ninguém se importou muito, já eram amigos.
[Exercício do curso de escrita de viagens: completar, em 10 linhas (… que excedi claramente), a frase inicial entre aspas]
às
21:30
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tags: escrita criativa, histórias
Dia 11 de Março de 1999, Rio de Janeiro. Estava de férias num dos hotéis virados para a praia de Copacabana, no 44º andar. O dia pacífico tinha incluído passeios, praia e frequentes “Ois?” perante o nosso português rápido. Preparavamo-nos para sair para jantar quando a luz se apagou.
O interruptor não funcionava. No corredor, escuridão total. Tentámos ligar para a recepção, mas não havia som no telefone. Faltar a luz num hotel é incomum, pensei. Reparámos depois que lá fora também não havia luz. Toda a praia, todos os prédios, a iluminação na rua, o horizonte, tudo escuro. As únicas luzes eram de alguns poucos carros na avenida, também eles tão devagar que se diriam surpresos.
No dia seguinte, soubemos que tinha sido o maior Apagão do Brasil, e que 70% do país tinha ficado às escuras.
Acabámos a jantar barras de cereais e chocolates no calor da noite, sem vontade de descer as escadas, a ver a lua no céu e no mar e os pirilampos na estrada. Parecia que estávamos sozinhos no mundo.
[Outro exercício do curso de escrita de viagens… um micro-conto verídico com menos de 1000 caracteres]
às
16:14
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Estou no Tarrafal, em Cabo Verde, com o Bruno. Está calor, mas não tanto quente que nos incomode, dois portugueses numa viagem de mergulho. As casas são baixas, as cores esbatidas e gastas fazem lembrar o Alentejo no fim do Verão, o chão é de quadrados de pedra, são poucas as árvores e o verde.
Nada disto é turístico, e somos dos poucos estrangeiros na vila. O “resort” tem um guarda armado com espingarda colonial e dois cães patuscos como ajudantes, e arame farpado em volta, por causa dos “roubos que havia antigamente”, como me disseram, em referência ao período pós-independência. Os chalés luxuosos são feitos em cimento armado por pintar, as camas de pinho. Os dois quartos estão decorados com imagens de santos, paredes verde-claro, tule nas janelas, e uma televisão minúscula - em que o Bruno quase não consegue ver o Benfica - completa o quadro.
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O dia começou bem cedo, antes do sol nascer devagar sobre a Baía do Tarrafal. Saímos para um pequeno-almoço numa sala circular parca em iguarias e delicadezas de conforto ocidental, mas amigável e hospitaleira. Cinco ou seis pessoas faziam-nos companhia no fim do mundo. Em algumas das janelas havia macacos a espreitar atentamente, e só percebi a razão quando um deles entrou a correr pela sala, num ápice agarrou duas bananas, e correu de volta para a porta. Um crime imperfeito, mas eficaz.
Ao episódio cómico matinal seguiu-se um mergulho. Fomos guiados pelo Carlitos por entre o coral amarelo, com o Zezinho a ficar no barco por segurança. Os dez metros de visibilidade não deixaram que fosse um mergulho perfeito, e o ar que respirávamos sabia a óleo, mas estas dificuldades foram compensadas quando o meu parceiro inusitadamente arpoou um belo peixe prateado que trouxémos para cima. Foi directo para uma panela quando literalmente e com algazarra invadimos a cozinha do Restaurante da lindíssima Ni, onde íamos todos os dias comer o melhor bife de atum do mundo. Cabo-verdeana e casada com um italiano, seduziu-nos com os pratos e com a beleza. Não tenho adjectivos que cheguem para descrever a refeição, que acabámos por partilhar com os donos da casa, mas deixou-nos a todos um sorriso nos lábios e nas barrigas.
Quando saímos a tarde já ia a meio, e demos uma volta pelo mercado. Numa das ruas ouvimos o matraquear familiar de bolas de madeira contra bonecos de metal. Seis rapazes em volta de uma mesa de matrecos entretiam a tarde domingueira com o mais adequado dos desportos. A mesa é abaulada, as bolas quase pretas, e as pernas desiguais, mas nada disso importava. Os jogos são à melhor de dois, com a equipa que perde a sair de jogo. Muita dinâmica e vivacidade. Acabámos por desafiar os dois campeões a jogar uma partida connosco, um Cabo Verde-Portugal a puxar pelos ferros e chutar com força. Três moedas depois, e com alguma transpiração na testa e nas mãos, concedemos uma vitória renhida num jogo divertido e animado.
Ganharam. Mas estavam a jogar em casa.
[Outro exercício do curso de escrita de viagens: uma crónica (verdadeira)]
às
23:37
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tags: histórias
“Samuel. Sou o Samuel.”
Foram as primeiras e únicas palavras que lhe ouvi toda a semana, ao leme do pequeno barco de pesca. Não parecia ter 14 anos sequer, um sorriso maroto nos lábios, e muito pouco português.
Tinha ido a Cabo Verde para conhecer o fundo do Mar, mergulhar em condições artesanais em águas maravilhosas e muito pouco exploradas. Ver tubarões. O nosso guia e e dono do barco, o Carlitos, era pescador com arpão sempre que não tinha clientes europeus, o que era aliás raro.
Enquanto mergulhava, o Samuel ficava à superfície a tomar conta do barco, com aquele ar simples e a pele negra brilhante ao Sol, o mar calmo e deserto a reflectir o céu.
Voltei lá um ano depois, e reencontrei o Carlitos, agora sozinho com o seu barco. Perguntei pelo Samuel. Disse-me que tinha ido trabalhar para a cidade. Que tinha mulher e dois filhos para sustentar. Que tinha deixado o Mar.
[2º exercício do curso de escrita de viagens; história quase verídica; hei-de postar aqui uma foto do “Samuel”]
às
16:02
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tags: escrita criativa, histórias
O dia estava seco, o céu azul cheio de sol e sem uma nuvem sequer. Debaixo de nós os dois já tinham passado 400 quilómetros de terra vermelha, sem se ver vivalma. É aborrecido conduzir no deserto, a única companhia lá fora os lagartos à beira da estrada e os sinais a avisar para ter cuidado com os cangurus.
Era fácil conduzir no lado errado da estrada quando não se via ninguém, e a minha companheira pediu para experimentar. Parei, trocámos de lugar com o calor a voar do chão , e recomeçámos o caminho, ainda a 50 quilómetros do parque onde iríamos passar a noite.
Não andámos cem metros sequer – juro – até o céu se encher de nuvens cinzentas muito escuro, e gotas grossas esconderem a estrada à nossa frente.
Acabámos por parar, debaixo da chuva torrencial, sem conseguir ver nada, a olhar lá para fora calmamente e sem palavras.
Só a mim, pensei a sorrir: vir apanhar isto no coração do deserto vermelho. É outra história para contar.
[1º exercício do curso de escrita de viagens; história verídica]
às
14:05
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tags: escrita criativa
diz o filme que dois mil e dez é o ano em que fazemos contacto. com o quê, e com quem? não sei dizer. se já estiveram por cá, será refazer o contacto. mas temos tanto medo do desconhecido, deve ser por isso que acabamos sempre por optar por soluções agressivas. aparecem e tufas, lá vai disto. não somos capazes de fazer de outra forma, está-nos nos genes (nas jeans?).
entrei em 2010 na melhor das companhias, rodeado de amigos e pessoas especiais. além de divertido, tive oportunidade de exercitar o meu recente interesse em contar histórias. contei duas, a do rei Salomão e o seu anel mágico, e a da mulher 100% perfeita, do Murakami. já as postei às duas neste blogue. as outras três li-as, e foram dois geniais textos do 1º livro de crónicas do Lobo Antunes (“os meus domingos” e “as pessoas crescidas”) e um conto do Rubem Fonseca do livro “Os Prisioneiros”, chamado “currivulum vitae”. é o nascer de um repertório!!! :-) Acabámos a noite a repetir exercícios do curso de contadores de histórias que fiz, foi muito divertido.
adoro estórias. e gosto de ouvir e de contar.
comprei há pouco um livro de textos do Freud. num dos primeiros, a defender a disciplina emergente (psicanálise), ele escreve o seguinte: “By words one person can make another blissfully happy or drive him to despair, by words the teacher conveys his knowledge to his pupils, by words the orator carries his audience with him and determines their judgments and decisions. Words provoke affects and are in general the means of mutual influence among men.” Em tempos pensei em estudar psicologia. Agora já não, mas continua a interessar-me, por vários motivos. E estas palavras dele são sabedoria pura.
e que 2010 seja o ano em que fazemos contacto.
ps: apetece-me lasanha.
às
21:18
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obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão obsessão.
Ando com insónias, incapaz de dormir, e com um acordar agitado.
às
16:10
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Sei que me deitei cedo nesse dia, pela meia-noite. Queria começar a semana bem desperto, levantar cedo no dia seguinte para o inevitável emprego , e não passar a semana com sono a atropelar paredes e móveis.
Sei que me custou adormecer. Que vi chegar a uma da manhã, cansado já não do dia passado mas das voltas na cama. Levantei-me num intervalo para beber água e apanhar ar, e voltei aos lençóis pouco depois.
Sei que adormeci. E que acordei algumas horas depois, ainda noite escura, com demasiados sonhos na cabeça. Com pesadelos, por estranho que pareça. A sentir-me exausto e perturbado. Li no Freud a teorização do inconsciente e do mundo dos sonhos, mas não soube na altura – consciente - ler fosse o que fosse nos mesmos. E agora já é tarde demais, já não me lembro. O inconsciente não gosta de ser revelado, ao que parece.
Sei que voltei a adormecer. Deixei tocar o despertador de 9 em 9 minutos até se fartar, deixei a luz acender-se nos estores, deixei-me rolar para a esquerda primeiro e para a direita depois em busca de conforto, vezes sem conta, no mesmo mundo de pesadelo de antes. Deste inconsciente, lembro-de uma coisa apenas. De ter um sonho como se acordado, e de nesse sonho me custar andar (a caminho de uma paragem de autocarro), me custar estar de pé, por me doerem os joelhos. De pensar que só em sonhos eles me doem, mas que se estava acordado, devia estar com um problema. Como se um sonho dentro de um sonho.
Sei que acordei com o toque de uma mensagem, duas horas depois da hora a que queria acordar. Atrasado e perturbado.
O que se passou cá dentro?
às
16:12
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tags: sonhos
Quando mais preciso dela é quando mais parece que a tenho escondida debaixo da língua, atrás da amígdala, a jogar às escondidas comigo mesmo. Sai, moça, digo, e vejo-a a espreitar de lado, mostrando algumas das suas sílabas, mas logo se esconde de volta (mas quem tem medo sou eu não ela).
Não acontece sempre, só quando é mesmo preciso, quando é im-por-tan-te, que ela nos falha, que não está lá. Ilude-nos e finta-nos e serpenteia ao nosso redor como uma abelha, “ela está dentro de nós” mas não se mostra e não quer sair.
Fica assim à porta da boca, é o que é. Porque não vens cá fora?
às
17:16
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tags: A brincar com palavras
Parte do medo que temos da morte é não saber quando e como vai acontecer. Uma outra parte, por não sabermos se haverá algo do outro lado. Ele sempre soube quando e como ia morrer. E sabia que não havia nada, do outro lado.
Claro que não sabia o mês e o dia e a hora, mas sabia o ano e sabia o como. Ao contrário de o assustar, deixou-o viver a vida sem preocupações, sem incerteza, sabendo quando e como se ia fechar a porta.
Não se lembrava disso com frequência, e quando lembrava encolhia os ombros e pensava: “o que tem de ser tem muita força”. Nem se lembrava, e sabia que nem todos tinham a mesma sensação.
Sabia que não ia cair de num avião numa viagem, que não se ia afogar no fundo do mar nem rebentar numa ida à lua, nem doente na cama com uma pneumonia, nem atropelado por um carro com um condutor em fuga. Sabia que ia morrer por dentro, e sabia com precisão que órgão ia falhar.
Quando por fim morreu, como tinha previsto e quando tinha previsto, encolheu os ombros, apertou os lábios, e fechou os olhos. Não se pode dizer que tenha morrido infeliz. Nem feliz. O que tem de ser, tem muita força.
às
21:41
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Diz quem afirma em tempos tê-los conhecido, que já foram pessoas, bastante normais até. Com as suas vidas, estudos, amigos, trabalho, viagens. Dizem que têm pena de hoje os ver assim, e alguns até dizem ter saudades. Outros, talvez menos amigos que os anteriores, comentam ironicamente que pela boca morre o peixe, o que tem meia verdade, no caso em causa.
Quando se conheceram e morderam o anzol, foi um beijo instantâneo de cola, não puderam nem quiseram largar mais os lábios um do outro.
O homem que ensinou a humanidade a grokar dizia que quando beijava, se concentrava integralmente nesse beijo, esquecia tudo o que se passava lá fora, todas as distrações, ruídos, pensamentos, pessoas, o mundo era o beijo que estava a partilhar.
Os lábios, macios, encaixaram uns nos outros como peças de puzzle, as bocas, os dentes, as línguas, primeiro numa surpresa de descoberta, na urgência inquieta do desejo, no conforto suave de uma noite de conversa num bar com música, numa noite à frente da lareira.
Não era suposto acontecer, e nenhum dos dois o esperava. Conta quem viu que ficaram presos ao primeiro beijo, unidos pelos lábios, pelas bocas, que se comeram um ao outro, consumidos por uma paixão insensata e um prazer sem portas.
Conta quem os viu pela última vez, há uns meses, que os lábios continuavam colados, e que no que restava daquelas bocas se viam enormes sorrisos felizes.
às
02:09
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tags: histórias
Há acontecimentos da nossa vida que nos definem, e que marcam tudo aquilo que virá a seguir. Tive um desses acontecimentos na minha vida, passam hoje 40 anos exactos dessa noite.
Estava acordado no escuro do quarto. Ao meu lado na cama dormia a mulher com quem casei por amor, por amizade, por empatia e companheirismo, pelo humor. Respirava baixinho, virada para o outro lado da cama. Eu não conseguia dormir. Algum tempo atrás envolvera-me com outra mulher, e o espaço que isso ocupava tinha crescido em mim aos poucos.
Por favor não me julgues, não é o teu papel, nem tens legitimidade para isso. Se queres ler, lê. Se não queres, estás no teu direito.
Não sabia o que fazer. De um lado a culpa, a mentira, o que sentia ser amor. Do outro a alegria, a paixão, a inteligência. A aventura e o proibido. Desenhei um mapa das opções, tabelei prós e contras, simulei em sonhos acordados o ficar e o partir, para ver se me ajudava. Falei com os amigos mais próximos, ouvi - ou não - o que tinham a dizer. Nunca seria uma opção deles.
Levantei-me em silêncio, fui sentar-me na sala. O despertador no quarto marcava 3 e meia, e lá fora estava uma noite agradável de Verão, os candeeiros a pontilhar a rua de amarelo.
A culpa era toda minha. Somos responsáveis pelos nossos actos, não é o que se diz sempre? Cá se fazem cá se pagam, e outros ditados assim. Eu sei. Meti-me no buraco, agora tinha de sair dele, eu sozinho.
Incapaz de decidir, incapaz de tomar uma decisão quer racional quer emocional, atirei uma moeda ao ar, na escuridão quase completa da sala. Olhei para a face que saiu, depois para a rua escura lá fora, e pensei "Está feito".
Passam hoje 40 anos exactos dessa noite. E a decisão que tomei, foi a decisão errada.
Inspirado vagamente no que me recordo do Intimacy, do Hanif Kureishi, e na música Witches, dos Cowboy Junkies.
às
19:00
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Talvez estivesse escrito. Ou talvez tenha ficado escrito porque o estou a escrever agora.
O teu nome não o vou dizer, como não vou dizer o meu. Ambos sabíamos estar destinados a ser amigos, não amantes. A não deixar nos livros de história um do outro mais que algumas linhas, mesmo sem sabermos ainda quantas. Não há neste texto nem uma Inês nem um Pedro.
Cruzámo-nos por acaso, como tantos todos os dias. Estranhamente sem jogos, de cartas na mesa, a trocar só palavras primeiro e a partilhar segredos logo a seguir, com aquela urgência electrónica tão peculiar e sem expectativas, que se cria e se desfaz de dia para o outro, que tem de ser alimentada para se manter. Se não o tivesse sido, não estaria a escrever estas linhas.
Temos pouco a ver um com o outro. Os gostos, as experiências de vida, as emoções do momento, o momento na vida, os ideais, a música, a energia. Tudo diferente. A mim encantaste-me com um desafio, no teu signo a minha sina. A ti não sei bem, mas não restava opção que não ficarmos rapidamente amigos. A pequena química da diferença, talvez.
Conhecemo-nos e saímos umas vezes, e foi bom. Descontraído, relaxado, animado e divertido. Ficava vontade de repetir.
Disseste-me um dia sermos muito sérios um com o outro. Foi quando a provocação e o jogo começaram. As regras muito claras, as escritas logo no início deste texto, mas ainda assim um jogo de sedução, animado e divertido, com picardia, de gato e de rato - mas quem é quem? Acho que somos ambos gatos, e abrimos a época de caça.
Lançámos os dados por um beijo, mas ia beijar-te fosse qual fosse o resultado, ontem à noite. Assim que te vir, ameacei-te com a promessa. E adorei os teus lábios, o teu pescoço, respirar-te ao ouvido, sentir-te a presença, o sorriso divertido de miúda mulher, o calorzinho no peito.
Foram poucas horas. Somos, ou Fomos, amigos com cor. Com benefícios, foram as tuas palavras.
E agora? As regras continuam a ser as mesmas. Somos sinceros um com o outro. Tu tens a tua vida, eu tenho a minha. Somos amigos, e o resto logo se vê. No worries.
Escrevi-nos isto só para registar na História (estória?). Pode ser que interesse a algum investigador, daqui a muitos muitos anos.
às
14:26
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tags: histórias
Sempre pensei que este tipo de coisas só acontecia nos filmes.
Estávamos casados há alguns anos, e a passar férias juntos, no estrangeiro, como era frequente. Sempre fomos aquele tipo de casal que faz muitas coisas em conjunto, com muita actividade, como que para nos manter ocupados e impresentes um da vida um do outro. Quando sozinhos, pouco tínhamos para nos dizer, apesar de o silêncio também ter conforto e até felicidade. Amava-te, de uma forma incomum. Nunca te odiei, nunca me foste incómoda, e gostava de passar o tempo contigo.
Naquele dia, estávamos sozinhos num miradouro sobre um penhasco. Bem junto à beira, a sentir a vertigem da altitude e do vento que nos cortava o rosto. Lá muito em baixo, depois de uma queda quase a pique, um mar de árvores. Lembrava aquelas imagens que se têem quando se voa sobre uma almofada de núvens fofas.
Numa altura em que te debruçaste um pouco para a frente, para espreitar melhor a altitude, veio-me um impulso louco à cabeça, e sem me conseguir segurar ou conter, dei-te um pequeno empurrão. Só o suficiente para começares a cair, e ainda vi o ar de surpresa a mudar para pânico nos teus olhos, um olhar que nunca vou conseguir esquecer para o resto da minha vida.
Porquê? Porque não sou eu que escrevo as palavras, são elas que me ditam a mim.
às
01:31
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tags: histórias, nada de mais, pesadelos, triste
Foi num daqueles dias de Outono que amanhecem soalheiros, e à medida que as horas avançam se vão entristecendo e acizentando, e lembro-me como se fosse hoje. Presta atenção ao que te vou contar.
O sábado amanheceu com sol, e sem núvens no azul celeste. Parecia um Verão de São Martinho, sabes? A aquela altura do ano associam-se árvores a despir e pessoas a vestir, e não dias como aquele. Segui com o olhar um pássaro solitário que passou à minha frente, a voar sobre o rio, para a outra margem. Um voo alegre como aquele só podia ser de uma andorinha, pensei. Ou um pombo, e levar a minha mensagem secreta, a pequena nota que te escrevi. Eh. Não me ligues, estou a distrair-me. Deixa-me continuar.
O dia parecia não poder ser pior para o que queria fazer, lindo e brilhante. Atravessei a ponte a pé, o chão ainda molhado da chuva da véspera, o ar limpo e agradável de respirar, e fui para o café onde nos tínhamos combinado encontrar, para mais um café e pequeno-almoço a ler o jornal da manhã.
Nesse dia levava-te uma despedida como surpresa.
Estava cansado, estava triste com o fosso entre nós no teu olhar, desanimado com ter de escalar os muros do teu castelo, como se todos os dias tivesse de reconquistar o mesmo pequeno pedaço de terra, todos os dias o mesmo ritual e a mesma batalha.
Ia dizer-te adeus, sabes? a nota que escrevera tinha tudo o que te queria dizer, o que esperava conseguir dizer-te, o que esperava ter decorado palavra-por-palavra, e que tinha de sair de mim num só fôlego.
Porque nunca te disse? Não sei. Depois do que aconteceu, deixou tudo de fazer sentido.
Fui o primeiro a chegar, como era costume, e pedi o mesmo de sempre, enquanto olhava para as pessoas e esperava por ti e pelo teu olhar perdido ensonado dos sábados de manhã. Vi-te dobrar a esquina e vir em direcção a mim ao mesmo tempo que a música que começava a tocar na rádio me envolveu, e à medida que te aproximavas, como numa bolha de sabão, tudo lá fora deixou de importar. Vi o teu cabelo de quem acabara de se levantar, o teu andar decidido e preguiçoso, e o teu sorriso como nunca vi outro a nascer. Amachuquei a nota de papel que tinha no bolso, e sorri-te de volta.
Sim, claro que me lembro da música. Queres ouvir, imagino… Mas o importante é que há alturas, meu amor, em que é preciso arriscar. Por vezes o destino sorri.
Como fez connosco.
Outro desafio, o terceiro, da mesma amiga. As palavras que serviram de inspiração? Interessam mesmo? Lamechas? So what.
às
00:19
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tags: Desafios, escrita criativa
mas não. estou aqui a sonhar, quando podia estar a espreitar pela janela a ver o dia nascer, a vestir o fato e apertar a gravata, atar os atacadores dos sapatos pretos brilhantes, a preparar-me para o dia que aí vem, como o de ontem. em vez disso estou aqui, de olhos fechados a dormir em lençóis ainda com o fresco macio do verão. cada vez que olho para o relógio, vejo imagens diferentes. não sei se vejo cores, sei que não consigo perceber se a luz está acesa ou apagada, e não sei o que faz aqui este coelho branco gigante que olha para mim. já devia estar acordado. dormir não me faz bem. escrever a dormir não me faz bem. é como sonambulismo palavral. afinal, muito parecido com falar a dormir, mas fazendo muito mais sentido. e que sentido faço? só um. um sentido que retirei de um conto que li antes de adormecer, e que não te posso dizer qual é porque o poderias ler. e o sentido diz só uma coisa: ele concluiu que foste a segunda. eu, que ainda tenho uma oportunidade.
núvens.
(desculpa este tipo de posts crípticos, mas é o que sai quando se escreve a dormir).
às
03:17
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tags: sonhos
digo-te. estou com um feeling. a minha bússola não tem um mas vários nortes, e como poucas muitas vezes antes, está desorientada. mas tenho um feeling. tenho aqui um feeling guardado no bolso, dentro da carteira.
por agora vou caminhando pela rua, vejo as pessoas ao meu redor, o autocarro que se aproxima da paragem que cruzo, os carros que passam na estrada, aquela senhora de idade na varanda da janela, as caixas do minimercado que aproveitam uma pausa para fumar um cigarro encostadas à parede, a estrada feita de pedras cinzentas quadradas, o passeio feito de pedras brancas quadradas.
vou caminhando, e levo o meu feeling no bolso. sei que o vou tirar da carteira muito em breve. que o vou desdobrar da dobra em quatro, e que já não vou estar mais na rua por onde me cruzo com estranhos, com carros invisíveis, com os sons e apitos da cidade onde vivo, e que não vai ser só um feeling, mas um papagaio com a forma de uma águia de asas abertas a desenhar linhas e curvas no céu, que seguro com um sorriso ao mesmo tempo que tu, deliciada na areia, segues os movimentos que faz.
por enquanto, o feeling é um quantos-queres de papel de origami, dobrado em quatro. mas não falta muito para o abrir. não falta muito para o descobrir, para lançar os dados das dobras nos dedos de uma menina, e viver o que sair. na praia.
às
03:01
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tags: A brincar com palavras, histórias, sonhos
ligaste-me, mas sabia que eras tu e decidi não atender. para quê ouvir mais uma vez a tua voz, para quê repetir os mesmos argumentos e discussões cansativas. melhor deixar tocar. a repetição é a mesma, mas a musiquinha é bem menos cansativa.
já sei o que pensas. aborrecido ou aborrecida, que sou uma chata ou um chato, ou que estou ocupada ou ocupado, ou que sou sempre sempre igual a mim mesmo e nunca tenho tempo para as coisas importantes.
mas a verdade é que tenho todo o tempo do mundo, para as coisas importantes. e importante para mim neste momento é ver esta planta crescer com o sol da manhã, ou ver o pôr-do-sol no mar, sentada ou sentado na areia, de ombro encostado a um outro que não é o teu, e isso me fazer sentir completamente feliz.
às
02:37
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porque te conheci? porque te aproximaste de mim e se cruzaram os olhares? fizeste-me estremecer os nervos do corpo, a terra abanar, e passarem-me relâmpagos eléctricos pelos olhos. verdes como os dos gatos, a brilhar na noite, é impossível não ficar preso ao que não sei ser. semeaste o caos na minha vida. não saio à rua sem ver no céu se lá estás, se me vais assustar com o teu grito, ou iluminar as noites com o teu brilho enquanto durmo com os estores apenas meio fechados, para te deixar entrar a ti para junto de mim.
o tempo começa a estar fresco. começo a precisar, aos poucos, do teu calor. mesmo que seja para acabar por ficar acordado.
às
13:59
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Nunca tive tempo para nada. Não percebo, mas parece-me só acontecer comigo. Mas deixa que te explique. Chamo-me Dorit, e não sou um peixe azul de fraca memória. Sou uma mulher de carne e osso, não tenho cabelo azul nem escamas, e vivo a vida na diagonal.
Imagino que tenha começado no leito materno, mas a primeira vez que repararam foi na maternidade: encontravam-me sempre deitada na diagonal no berço. E se me endireitavam, meia hora depois lá estava na diagonal de novo. Também nunca fui de fazer grandes birras, não havia tempo para isso, tinha de ir brincar. Fazia tudo na diagonal. Um bocadinho de choro, só para dar um sabor, um bocadinho de comida, um bocadinho de brincadeira, primeiro com brinquedos depois com amigos, um bocadinho de estudos, um bocadinho de namoros, um bocadinho de casamentos, um bocadinho de empregos.
Tudo na diagonal, e sempre cada vez mais acentuada, a viver a vida mais resumida e cada vez mais e mais depressa, a deixar coisas a meio mal começadas, uma vida de primeiros parágrafos e resumos resumidos.
Nem sei porque estou a escrever isto. Se me pedissem para reler este texto, só leria “Mulher Nunca Texto”.
às
15:58
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tags: A brincar com palavras, Desafios
havia um episódio do twilight zone em que a pior das penas do tribunal era ser-se ignorado por todos aqueles que o rodeavam. cada condenado tinha uma marca na testa, se bem me recordo, e a convenção social era de que essas pessoas não existiam. ninguém as olhava nos olhos, ninguém falava com elas, não reconheciam a sua existência. eram como não-pessoas, no meio de pessoas com que se cruzavam na rua, uma cidade país desertos apesar de repletos de pessoas. uma condenação à solidão, fora da escuridão de uma solitária, mas capaz também ela de levar à loucura.
ter as pessoas à distância de um braço, de um olhar cruzado num passeio, e não conseguir penetrar numa barreira imposta pela necessidade de ter a sociedade equilibrada, ser-se transparente, uma convenção de distância, afinal tão actual.
e eu? porque tenho eu esta marca na testa?
às
15:39
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tags: A brincar com palavras, histórias
Vivo num castelo de cartas tão sólido que resiste à força do vento. São cartas manuscritas, cartas enviadas e não enviadas, cartas recebidas e cartas que quis ter recebido.
O meu castelo é rodeado por um fosso cheio de água, cheio de crocodilos e suas lágrimas, e tem duas portas, ambas cartas de jogar. Uma, a da direita, é um preto três de paus, uma porta de que prefiro não falar. A segunda, a da esquerda, é um encarnado Ás de copas, e só se vai abrir no mais especial dos dias, e para a mais especial das pessoas. Por mais mais forte que empurrasses, por mais rápido que corresses, nem que passasses a velocidade do som a conseguirias derrubar,
se não fores tu a pessoa certa.
Às vezes fico a olhar para a carta encarnada com o Ás de copas, com mágoa suspirante de não a ver abrir-se devagarinho, com o mistério de não saber quem a poderá atravessar.
Vivo num castelo de cartas, na minha caixa de cartas, escritas ou recebidas ou jogadas por mim ou contra mim, e quero ser eu capaz de abrir a porta, sair lá para fora, e deixar tudo isto para trás de uma vez por todas.
A partir de um desafio de uma amiga especial para escrever um texto a partir das palavras seguintes: encarnado, água, caixa, lágrima, olhar, vento, velocidade, castelo, força, mágoa. (isto foi a segunda versão)
às
14:55
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tirei-te uma fotografia ao rosto da minha janela, quando caminhavas pela rua na minha direcção, sem me veres. sem o saberes, sem eu o perceber também, senti que eras mais que um retrato a ampliar, a preto e branco, numa moldura grande que viria a pendurar numa parede.
estávamos em setembro, aquele mês em que o tempo ainda nos deixa passar noites na praia a conversar com a luz da marginal por trás, à procura de um beijo num intervalo da conversa, em que se começam a escrever nas folhas de papel dos diários histórias que começam com “era uma vez” que duram anos, histórias de amor que começam com a paixão dos estores para baixo em quartos quentes da respiração ofegante de corpos aos pares, e terminam… ou não, quando o nosso destino o quiser.
quis conhecer-te, imaginei enquanto apertava repetidamente o botão os teus lábios macios e um abraço apertado e quente, num instante vi passar-me pelos olhos - como se à beira da morte - toda uma vida alternativa, e nasceu-me um sorriso nos lábios. quis-te.
estranha sensação esta. pouco depois deixei a janela, e com memória de peixe, esqueci o que tinha pensado e a sensação de alegria que me deixaste. só ficaste tu. num rolo a revelar dias depois, e onde o teu sorriso e o verde invisível dos teus olhos me faria perguntar em voz alta porque não correra para falar contigo.
A partir de um desafio de uma amiga especial para criar uma história a partir das palavras seguintes: peixe, estores, folha, beijo, relógio, amor, paixão, setembro, tempo, direcção, janela, fotografia.
às
20:14
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tags: Desafios, escrita criativa, histórias
Por vezes temos situações na vida em que sabemos que vamos fazer asneira. Sabemos que temos o painel de controlo na nossa frente cheio de luzes a piscar, algumas delas vermelhas. Vozes ao ouvido dizem-nos:
C U I D A D O !
(as vozes ao ouvido falam em maiúsculas, como é de conhecimento comum)
Quando pensamos racionalmente, dizemos a nós próprios que mais vale cortar o mal pela raiz, nem deixar a planta crescer, porque vai correr mal, seja qual for a situação.
E o que fazemos? O mesmo que fazemos quando se nos depara um semáforo amarelo no trânsito, não temos carros à frente, e estamos já bem perto.
Aceleramos.
às
19:37
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São cinco, como uma banda de música. O Rui, o Paulo, o Zé, a Rita e a Paula. Conhecem-se praticamente desde que nasceram, todos no mesmo ano e no mesmo mês. Estudaram juntos, escolheram cursos parecidos, encontraram empregos na mesma área, moram perto uns dos outros, encontram-se todas as semanas e falam todos os dias.
O Rui é alto, o mais sério de todos, olhos muito escuros mas com um sorriso acolhedor. A voz da sabedoria, quando é precisa. O Paulo é atormentado por dentro, com uma longa história de insucessos ao amor, muito inteligente e científico. O Zé é o irrequieto aventureiro, seria o primeiro a comprar bilhete para uma viagem a Marte ou saltar de pára-quedas do Monte Everest, o que viaja mais e sabe mais línguas. A Rita é parecida com ele, loira bonita de olhos muito muito azuis, esperta, gosta de conhecer pessoas e fazer amigos, é extrovertida e adora o mundo. A Paula é a artista culta do grupo. Gosta de escrever, de pintar, de cinema, de exposições, de tocar piano e falar francês, aquela que claro que conhece esse livro e claro que viu esse filme da década de 40 de um realizador desconhecido.
Não são parecidos entre si, não têm os mesmos gostos, os mesmos interesses, a mesma forma de ver o mundo. Mas são almas gémeas, têm uma amizade intemporal, daquelas que todos gostávamos de ter. Há um bocadinho de ti em cada um deles, seria capaz de apostar. Qual deles és tu?
às
13:12
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tags: histórias