Se fosse morrer daqui a uma semana
Agradeceria o quê, do que tive na minha vida. Acho que por comparação com outros, tive coisas de enorme felicidade, e experiências privilegiadas. Ou pelo menos que o foram para mim.
Escrevi num papel, e saiu isto.
A música. Vi inúmeros concertos de bandas de todo o mundo, muitos festivais, muitos momentos de arrepiar, coisas de que lembro e mais coisas de que já me esqueci. Desde aquele traumático U2 em Alvalade, a Kroke, Hedningarna, Vartinna no Porto com o Hugo, a lindíssima Lhasa de Sela no Palácio de Cristal, todos os anos em Sines com centenas de bandas, BCUC, Dakhabraka, Kimmo Pohjonen (não fui ver a Aveiro!?), Danças Ocultas, aqueles ciganos de violinos que fui ver a Águeda de comboio, Cordel do Fogo Encantado, os afrobeats de transpirar e chorar por mais, Victor Demé, tanta tanta coisa. O noiserv, várias vezes incluindo no São Luis com a Mg. Aqueles dois concertos no São Luiz em que só tive de telefonar para a CML para ter bilhetes à borla (José Mário Branco num dia, Maria João lindíssima de arrepiar e Mário Laginha), e tantas tantas outras coisas. O Festival du Desert, uma experiência só por sí inesquecível pelas amizades e pela surrealidade de tudo aquilo, mágico demais.
Podia ficar aqui o dia todo a lembrar.
A seguir escrevi, amigos e namoradas. No primeiro, claro que pessoas como o César, o Hugo, o Luís, a Ana, vêm à cabeça. Pessoas que estão comigo há muitos anos. O Roger e a Pat, o Hakan que me levou para UK. As pessoas das equipas com quem trabalhei e com quem fiz laços fortes (como o AndréV), etc. E claro as namoradas com quem tive relações especiais. A Rita, minha ex-, com quem ficou uma amizade forte apesar de tudo o que lhe fiz, a Sofia por quem também me sinto culpado mas felizmente encontrou o seu caminho, a Joana que rebentou a escala de intensidade e mágoa, e é claro a Mg a quem espero ter feito mais bem que mal nestes 10 anos improváveis, e que também me trouxe muita alegria.
As viagens. Foram muitos os destinos e compaheiros. A Islândia super especial com a Mg, a Austrália com a Rita, Argentina com a MJ -- nunca esquecerei aquele vento gelado na proa, sozinho, do barco em Ushuaia, no estreito, o Japão e SK com a Sofia. Muitos destinos, muita sorte. E é claro os destinos de mergulho.
Depois pensei no mergulho. O mar no Egipto com aquelas imagens de azul ralleigh, peixes coloridos, tubarões, live-aboards de mergulhar-comer-dormir-mergulhar-comer-dormir com o Duarte e Bruno e Gabi. Também as Maldivas e o tubarão-baleia, Cabo Verde com eu/Duarte/Bruno a vomitar cada um para seu lado do semi-rígido, Austrália em Cairs com a Rita, Açores. Um sortudo.
Os filmes, tantos, especialmente os dias de Indielisboa com tantos filmes em duas semanas, o Nimas, o King, o Londres, o São Jorge. Os clássicos que referi no TFC: Naked, Chungking Express, tantos outros especiais (que por acaso me vêm agora menos à cabeça).
Os livros. De sempre, afectados no entanto pelo infinite scrolling contemporâneo, contra o que continuo a lutar. O José Saramago, o Mia Couto, o Gabriel Garcia Marques, o Kafka lido com 10 anos no Algarve (e certamente despercebido). Muita coisa bonita. Terá sido por eles que fiz os cursos de escrita criativa? E os cursos de astronomia que me entreteram e apaixonaram por uns anos?
O Storytelling. O curso com a Ana Sofia Paiva na BUS, os do Rodolfo. A história contada na BUS em que senti nos olhos de uma das pessoas do público quão estava dentro das minhas palavras. As 4 histórias na Graça no Botequim com a outra senhora de cabelos de prata que faleceu. As aulas no Jardim da Parada, ou naquele estúdio perto da casa dos bicos com aquele senhor de que não me recordo o nome mas que nos pôs todos num canto da sala, com calor, em cima uns dos outros. E é claro, contar histórias sob o céu escuro no Mali, com os meus companheiros de viagem Tizi, Annie, Daniel (que me levou a música em Tel Aviv) Jim e a sua guitarra e whiskey.
E trabalho? só me dá vontade de rir. Os 4 anos da Link com as miúdas designers giras, os 14 anos da Create It com o trauma do CEO mas grande aprendizagem e crescimento, o projecto do BPI, o Zooniverse. A equipa de UK com o JdS, o trabalho com o Orrin e David, os AI Rangers com eles quase todos e a LisaF, agora os DSAs recrutados quase todos por mim. Mas os objectivos atingidos, projectoss, etc, para pouco serviram. Serviram para ter dinheiro na carteira e financiar viagens, boa comida, conforto na vida, a minha bicicleta, a consola. Mas apesar de tão importante,, significa tão pouco.
Agora aprecio os meus bonecos sempre imperfeitos, livros, os jogos, as minhas plantas, comer bem, o anime (que é demais na verdade), o andar de bicicleta numa cidade plana segura e limpa.
Uma pessoa cabe toda em meia dúzia de parágrafos, não? Mesmo se há mais por dizer.
E depois acaba tudo com o fechar de um pano vermelho cor de chouriço. (lembras-te?).