sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



planeta absolutamente anormal

Foi inseminado para nascer, numa família normal num bairro normal de uma cidade normal de um país normal. Nove meses depois nasceu, limitado apenas pela biologia dos sentidos que a cada dia aprendia como dominar. Parecido a todos os outros, mas silencioso. Não foi daqueles bebés que fazem os pais saltar da cama estremunhados e a esfregar os olhos enquanto resmungam resignados deixa eu vou. As vezes que o ouviram chorar foram raras, e parecia que só quando os olhos atentos e brilhantes não conseguiam perceber o que lhe estava a acontecer.

Com o passar dos anos cresceu. Um rapaz normal e saudável sempre com aquele silêncio e olhos atentos brilhantes. Tendia a ficar a brincar sozinho com as suas coisas adorava pintar, ou encostado a uma parede a ver os outros jogar à bola, e só aquele ar de que algo não estava bem o manteve a salvo da adolescência e colegas belicosos. As colegas olhavam-no com curiosidade de longe, mas o excesso de atenção e a diferença mantinham-nas à distância.~

Os pais levaram-no ao médico, perguntaram se era autismo ou asperguer, mas os diagnósticos não eram conclusivos. Puseram-no a fazer desporto – excelente como guarda-redes sabia sempre onde a bola ia parar, a tocar piano –boa técnica mas pouca imaginação, a fazer teatro – era o primeiro a decorar textos e marcações, mas automático e sem emoção. Acabaram por desistir e aceitar. Afinal, era normal, não fosse o silêncio e os olhos quase assustadoramente atentos.

Esperavam que fosse estudar matemática ou ciências, mas o interesse no secundário foram as áreas humanas. Devorava tudo o que fosse filosofia, biologia, sociologia, antropologia, política, psicologia e estudava com fascínio a igreja, populismo, regimes fascistas, desigualdades sociais, pobreza, conflitos. Parecia querer compreender tudo.


Num pequeno-almoço num sábado de manhã, 16 anos recém-feitos, perguntou à mãe

“Mãe, o que é o Amor?”

Quase largou o copo, de tão inesperada a pergunta. Hesitou e começou com a conversa que já esperava não ter de ter,

“Não é isso, eu sei o que é o Sexo, reprodução e conheço o Corpo Humano. Como é que descubro o que é o Amor?”



No secundário o silêncio e olhos atentos atraíam, já não era só o estranho silencioso de olhos atentos, sempre encostado a uma parede com um pé dobrado e um livro nas mãos, mas o moço inteligente e misterioso com boas notas que se dizia ser de pais estrangeiros e que parecia inspirar sedução com os movimentos elegantes e a madeixa de cabelo solta sobre a testa.

Quando uma moça magra de olhos quase tão atentos como os seus, por trás de óculos protectores sobre um nariz empertigado, com vários livros nos braços, se foi sentar ao seu lado sem dizer palavra e só com um olhar trocado brilho com brilho, estava escrito que a resposta se ia escrever nas vidas dos dois.

Com ela descobriu o que havia para descobrir, do Amor e da Paixão, em tudo o que têm de mágico e calmo e intenso e doentio. Os corpos, o enlear e a transpiração na pele e os lábios entreabertos colados e a saliva e as curvas das pernas entrelaçadas, e o ser-se animal com outro corpo que nos quer consumir tanto quanto nós a ele… E quando meses depois ela mudou para outra cidade normal no país normal, com o final do ano de estudo e o Verão a limpar o céu de nuvens, percebeu que tinha a resposta que lhe faltava.

Saiu de casa de noite, caminhou quase três horas na noite quente para fora no bairro normal da cidade normal. Sentou-se de pernas cruzadas no cimo de um monte, com a via láctea por cima, árvores e uma ligeira brisa nos braços sem mangas, e com um sussurro percebi, fechou os olhos e deixou o país normal do planeta absolutamente anormal.



sábado, 14 de outubro de 2017



e por fora perguntei-te “já?”, e por dentro perguntei-te “e tu?”

não é que tenha alguma coisa especial para dizer, mas de repente na mente esta frase pareceu-me um bom título (lembras-te do céu vermelho côr de chouriço?) e não resisti a vir aqui beber um capuchinho contigo. senta-te, vamos, não estejas aí de pé a tremer de frio, a lareira está aí por um motivo, e os lobos estão lá fora de dentes aguçados e olhos raiados de… chouriço.

só tenho aniz, desculpa. sei que não és fã de erva doce, mas ajuda a aquecer. também te posso emprestar as minhas mãos, têm uma produção generosa de calor que partilho de bom grado contigo, e que já me ajudaram em momentos difíceis. especialmente o médio, que é o dedo com nome menos glamoroso possível, mas de função absolutamente essencial. quem mais escreveria o e ou o s com tanta arte e engenho?

não percebo porque dizem que capitular é desistir, se um capítulo é uma parte de um todo (tomo?) mais longo. terá um significado greco-latino como a luta livre, mas decapitular também era uma boa palavra para esse contexto. seja como for, ser tenacious (“don’t give up easily”, I helped Olaf) implica isso mesmo. e se há um precipício para onde os lemingues se projectam inesgotável

a minha comida tem ingredientes a mais

… inesgotável energia, dizia, eu não sou um desses, porque os meus dois pés me obedecem e não à turba que me rodeia com frémito de salto. imagino sempre os lemings

(passo muito tempo a imaginar lemings)

com penugem de cor de laranja e desenhado como aqueles bonecos dos estúdios giblitikiti no japão, uma massa inesgotável

just don’t fuck with them

… a caminho do precipício onde uma jovem estudante (penso que coreana, não sei o que estava a fazer aqui) deu um salto para cima para a fotografia e acabou por se despenhar 60 ou mais metros lá em baixo. morreu. provavelmente de pescoço partido ou outras lesões internas.

é uma história triste.

nunca a conheci (nem vou conhecer, como à vizinha do lado), mas espero que tenha brilhado tão intensamente como tu brilhas em mim.

NearNGC1365



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