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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



planeta absolutamente anormal

Foi inseminado para nascer, numa família normal num bairro normal de uma cidade normal de um país normal. Nove meses depois nasceu, limitado apenas pela biologia dos sentidos que a cada dia aprendia como dominar. Parecido a todos os outros, mas silencioso. Não foi daqueles bebés que fazem os pais saltar da cama estremunhados e a esfregar os olhos enquanto resmungam resignados deixa eu vou. As vezes que o ouviram chorar foram raras, e parecia que só quando os olhos atentos e brilhantes não conseguiam perceber o que lhe estava a acontecer.

Com o passar dos anos cresceu. Um rapaz normal e saudável sempre com aquele silêncio e olhos atentos brilhantes. Tendia a ficar a brincar sozinho com as suas coisas adorava pintar, ou encostado a uma parede a ver os outros jogar à bola, e só aquele ar de que algo não estava bem o manteve a salvo da adolescência e colegas belicosos. As colegas olhavam-no com curiosidade de longe, mas o excesso de atenção e a diferença mantinham-nas à distância.~

Os pais levaram-no ao médico, perguntaram se era autismo ou asperguer, mas os diagnósticos não eram conclusivos. Puseram-no a fazer desporto – excelente como guarda-redes sabia sempre onde a bola ia parar, a tocar piano –boa técnica mas pouca imaginação, a fazer teatro – era o primeiro a decorar textos e marcações, mas automático e sem emoção. Acabaram por desistir e aceitar. Afinal, era normal, não fosse o silêncio e os olhos quase assustadoramente atentos.

Esperavam que fosse estudar matemática ou ciências, mas o interesse no secundário foram as áreas humanas. Devorava tudo o que fosse filosofia, biologia, sociologia, antropologia, política, psicologia e estudava com fascínio a igreja, populismo, regimes fascistas, desigualdades sociais, pobreza, conflitos. Parecia querer compreender tudo.


Num pequeno-almoço num sábado de manhã, 16 anos recém-feitos, perguntou à mãe

“Mãe, o que é o Amor?”

Quase largou o copo, de tão inesperada a pergunta. Hesitou e começou com a conversa que já esperava não ter de ter,

“Não é isso, eu sei o que é o Sexo, reprodução e conheço o Corpo Humano. Como é que descubro o que é o Amor?”



No secundário o silêncio e olhos atentos atraíam, já não era só o estranho silencioso de olhos atentos, sempre encostado a uma parede com um pé dobrado e um livro nas mãos, mas o moço inteligente e misterioso com boas notas que se dizia ser de pais estrangeiros e que parecia inspirar sedução com os movimentos elegantes e a madeixa de cabelo solta sobre a testa.

Quando uma moça magra de olhos quase tão atentos como os seus, por trás de óculos protectores sobre um nariz empertigado, com vários livros nos braços, se foi sentar ao seu lado sem dizer palavra e só com um olhar trocado brilho com brilho, estava escrito que a resposta se ia escrever nas vidas dos dois.

Com ela descobriu o que havia para descobrir, do Amor e da Paixão, em tudo o que têm de mágico e calmo e intenso e doentio. Os corpos, o enlear e a transpiração na pele e os lábios entreabertos colados e a saliva e as curvas das pernas entrelaçadas, e o ser-se animal com outro corpo que nos quer consumir tanto quanto nós a ele… E quando meses depois ela mudou para outra cidade normal no país normal, com o final do ano de estudo e o Verão a limpar o céu de nuvens, percebeu que tinha a resposta que lhe faltava.

Saiu de casa de noite, caminhou quase três horas na noite quente para fora no bairro normal da cidade normal. Sentou-se de pernas cruzadas no cimo de um monte, com a via láctea por cima, árvores e uma ligeira brisa nos braços sem mangas, e com um sussurro percebi, fechou os olhos e deixou o país normal do planeta absolutamente anormal.



terça-feira, 22 de março de 2016



Dramatis personæ, diálogo

- Romeu
- Olá, Julieta
- Preciso de falar contigo
- Então?
- Reparaste que deixei de te responder às cartas?…
- Sim, claro. Porquê?
- Porque nos estávamos a aproximar, e tu não podes, e eu achei que era a opção mais sensata. E agora que nos vemos, é justo dizer-to.
(pausa)
- Fizeste bem. Obrigado. Já tinha suspeitado disso.
- Sim? Então?…
- Estavas a começar a fazer-me pensar. E não sou pessoa para tomar decisões sensatas, ainda bem que tu o és. (pausa) Despedimo-nos agora?
- Suponho que sim… mas…
- Então adeus, Julieta
(pausa)
- Adeus, Romeu

(e quando o pano cai, na sombra do invisível, colaram os lábios)



domingo, 21 de fevereiro de 2016



Rapaz, Maria

Espertos foram os que ficaram lá dentro. Quando as balas perdidas começaram a cravar-se nas paredes, a partir os vidros, e a penetrar nos corpos dos incautos, espertos foram os que ficaram lá dentro.

“A Maria-rapaz”, era como me chamavam na escola quando era miúda. Adoptei o nome quando cresci, usava o cabelo curto e vestia como lembrava ao meu pai que se finou na guerra em Flandres dois anos depois de eu nascer. “Sou a Maria Rapaz”, dizia com uma pausa a não deixar espaço à ambiguidade sobre a inexistência do hífen, ao mesmo tempo que tirava as pistolas tapadas pela samarra, e atrás de mim entravam o Diamantino e o Urbano, já com as Tommys apontadas a funcionários e clientes sem discrição ou discriminação, e com meia face coberta por lenços pretos.

Mas a vida andava difícil, tanto para nomes como para cognomes. O governo do Salazar deu à GNR uns jipes com rádios recebidos dos alemães, e tínhamos uma hora se tanto para limpar as caixas de bancos, caixas agrícolas ou CTT, amontoar os cofres de metal em sacos de serapilheira, e sair dali a toda a brida ao volante do Venâncio – que aprendeu a conduzir o Citroën Traction Avant preto que o tio trouxe de França e que foi o primeiro carro que se viu em Brinches. E para mim, se é para fazer, é para fazer bem feito - não deixar uma moeda no fundo de uma gaveta sequer. Mas o tempo não dava para tudo, e a vida andava mesmo difícil.

Em Sobral da Adiça o golpe foi simples, mas não rendeu mais que um punhado de escudos e ainda foi preciso gastar umas balas para afugentar curiosos corajosos. Abalámos pela noite para Puerto Peñas, onde o taberneiro alugava um quarto privado e todos os duvidosos da região se reuniam até o vinho adormecer sobre as mesas com o sol a raiar. Mas nessa manhã não raiaria.

“SOY EL CAPITAN ÁNGEL DE LOS CARABINEROS! SALGAN DE AHÍ CON LOS BRAZOS EN ALTO, CABRONES!”

Nunca tinha visto o Capitão Ángel, nem o seu famoso bigode preto, mas conhecia-lhe a reputação brutal nas fronteiras com Portugal e França, e não se passaram dois minutos para ver da janela do 1º andar - enquanto calçava as botas - uns quantos mal despertos saírem de mãos no ar. Seria a última súplica que fariam. “Es aquel!!!”, disse um dos Carabineros, a apontar para um jovem efeminado, e o grito despoletou os disparos.

Nunca mais vi o Diamantino, o Urbano ou o Venâncio, mas não os imaginava numa prisão espanhola, e os fogachos de luz já voavam também em direcção aos carros policiais. Saltei pelas traseiras, aproveitando para navalhar sem hesitar o pescoço do taberneiro traidor e da sua mulher pequenina que se escondiam na casa da lenha, e desapareci na serra das Peñas para nunca mais ser vista em terras de Portugal y Espanha.


Dizia-se que na América é que a vida andava fácil.



domingo, 20 de abril de 2014



ela comia pérolas

Não havia ninguém vivo naquele T1 de solteiro, as luzes apagadas e a noite lá fora, ar de há muito não ter gente dentro, o pó já pousado nos poucos móveis. Ninguém, excepto o dono da casa, que à secretária no quarto, estava debruçado sobre a única foto que tinha dela, tirada fazia 2 meses.

Aproximamo-nos devagar por trás, sobre o ombro espreitamos a foto solitária no tampo acrílico sobre cor de pinho do ikea.

Na pouca luz do quarto, só de um candeeiro pequeno ao lado da cama, observamos também a foto com grão.

Adivinhamos que os olhos dele estão focados nela, de cabelos pretos curtos brilhantes, e no sorriso que dirige ao fotógrafo. Alterna entre o sorriso aberto dela com o sorriso aberto dele ao lado dela, na mesma fotografia. Compara as pontas dos lábios levantados, os dentes sorridentes, o brilho nas bochechas cheias.

Duas horas depois, em que não o vemos mexer e só o sabemos vivo porque os olhos se mexem e o peito sobe e desce devagar mas sem cessar, vemos o que ele já viu, o que ele não suspeitara quando a foto foi tirada.

Ao sorriso dele, em que está toda a vida e alegria de um momento, contrasta um sorriso um nada menos autêntico, um nada forçado, um nada de eu-não-estou-toda-aqui.

Diz-se que podemos ler muito nos olhos dos outros, mas nesta fotografia quem fala é o arquear incompleto dos lábios dela, num sorriso menos que quase nada genuíno.

Saímos do quarto, deixamo-lo entregue à fotografia, e não precisamos de perguntar porque há pérolas brancas, a brilhar como luas, espalhadas pelo chão da casa.



segunda-feira, 31 de março de 2014



Conversa sobre o Sol

- não percebo.

- não percebes o quê?

- as roupas, por exemplo. Porque estão vestidos com cortinados?

- talvez fosse moda. Ou estivesse muito calor. Ou não existissem agulhas. Não sei. Mas os romanos tinham o mesmo problema, vestidos com lençóis.

- e os sapatos? Nem umas sandálias?!

- podiam ser naturalistas. E vegetarianos, provavelmente.

- não sei. Mas também não percebo o porquê da estaca a sair do olho do da esquerda, e as estranhas posições em que têm as mãos.

- estou a ficar aborrecido.

- eu também. Mas esta gravura inquieta-me.

- eu também ando inquieto.

- então? o que se passa?

- além de estar aborrecido por estar há meia hora a olhar para isto, é o que tu sabes.

- bolas, ainda ela?! andas há uns 2 anos nisso, esquece lá o assunto.

- não consigo. Quero, mas não consigo.

- começa a parecer-me uma obsessão.

- entre a minha e a tua com o quadro grego, não sei qual a pior.

- a minha é recente.

- e a minha é esparsa.

- se calhar estão a falar de mulheres.

- ou de homens. Naquele tempo havia muitos gays.

- mais do que hoje?

- não sei. Mas dizem que eram muitos.

- eram hedonistas. Tens de os desculpar.

- a mim parece-me filósofos. Todos os filósofos se vestiam assim.

- com cortinados?

- ou lençóis, não sei. Assim.

- se calhar estavam a falar da luz. Podiam estar a falar do Sol.

- podiam. Ou de mulheres. Ou homens.

- estás a começar a aborrecer-me, tu.

- estou a pensar nela. Vi-a há dias, está gira.

- mas queres alguma coisa com ela?

- não.

- então porque não esqueces isso? Seja isso o que for?

- não consigo.

- e ao menos sabes porquê?

- acho que sim.

- e…?

- não é quem ela é. É quem ela não é.

- agora podias estar a falar da gravura.

- é. Tens razão. Podia.

- aposto que um deles é o Pitágoras.

- vamos embora.

- sim. Vamos.

 

(mote por AS)





Magnólias

Vou desiludir-me, eu sei. Mas porque não tentar? é a minha sinta, procurar este jogo motivacional, até sedutor. Mais forte do que eu.

 

Via tudo desfocado à minha volta, no silêncio da tarde de Primavera em que só se ouviam abelhas a zunir de vez em quando, e as folhas a roçar umas nas outras, e eu ouvia uma multidão de frases soltas, como se entre dezenas de pessoas a falar ao mesmo tempo em caos de comunicação.

Deitado no chão, escondido atrás das pequenas magnólias cor-de-rosa, focado só no que tinha à frente, como uma lente de fotografia que me não deixava perceber mais nada, levantei-me com um salto, mãos sujas de terra, os olhos fixos nas magnólias, no morro outro lado, na estrada à frente do morro, nos metros de caminho antes da estrada, nos cães destrelados perto das bestas de uniforme que ouvi gritar agarra!, as minhas pernas que se mexiam sozinhas sem precisar da minha vontade, os pés que pisavam um à frente do outro, os latidos que ouvi ou pensei ouvir, a visão de túnel, a tracção da estrada plana, o calor das bocas deles tão perto que as sentia já agarradas a mim, o trepar tropeçado agarrado a ervas e plantas e ramos e silvas, e as mãos já vermelhas como amoras, e o sentido de urgência e vida ou morte – a minha.

Como num filme em câmara lente, dei os últimos passos em cima do monte, nos cantos dos olhos dois cães negros com dentes saídos do inferno, e sem parar para respirar, sem hesitar um segundo, o salto para o abismo, com o mar bem lá em baixo.

Era impossível, continuar a viver assim.



sexta-feira, 21 de março de 2014



textus novae

tenho um desafio novo de escrita que me vai fazer (a mim, blog, que sou o dono e a encarnação deste espaço electrónico) resurgir das cinzas como um sopro num pastel de nata coberto de canela (sim, porque vou esquecer o meu dono de yesteryear e assumir eu mesmo, a tinta negra acesa nesse teu ecrã, a sua propriedade e autoria definitiva). É um acto [*] de rebeldia contra ti, que me tens deixado sozinho tantos dias sem fio.

ora tomai e comei.

 

[*] Jamais escrevei “ato”.



sexta-feira, 29 de março de 2013



José e Maria

José sentia a transpiração, que lhe encharcava a camisa com o calor abrasador que vinha de cima e deixava tudo seco e quente ao toque. Dos cabelos escassos e normalmente secos caíam pingos que levantavam pó seco ao tocar o chão, como uma bomba atómica no mar. A sombra que fazia no chão era o local mais agradável de todo o mar de calor em seu redor, de tão quente que lhe subia pelas calças adentro, fazia transpirar as pernas, o aquecia a ferver. Sentia nas mãos os nervos de uma pequena árvore rugosa, morta, que queimava ao toque, e onde não encontrou nada que pôr na boca. José estava molhado por fora, mas seco por dentro, e na boca seca só entravam as gotas salgadas que escorriam do rosto.

A casa estava perto, e sentia no ar um vago cheio a feijões, o almoço que imaginava na boca e saboreava, a água fresca onde queria encher-se e mergulhar o rosto, mas não conseguia abrir os olhos, a luz branca e quente do céu cegava-o, o calor roubou-lhe o caminho de casa. José estava parado, apoiado na pequena árvore, a tentar adivinhar o rumo para Maria.

Na casa quadrada de uma divisão só, como um oasis na terra amarela frinchada por milhas e milhas em todas as direcções, Maria encostava o nariz aos vidros quentes, à espera de José perdido. Beijou-o com os lábios generosos, como se beijando o vidro beijasse a José e a tudo o que estava lá fora, e aquele sinal marcado em cada um dos quatro pontos cardeais o pudesse guiar de volta. Chamou por ele baixinho, na sua voz calma e segura, pediu que não se demorasse, disse que precisava dele, que nunca devia tê-lo deixado sair com aquela idade.

Respirou fundo, deixou húmido o vidro em que tinha acabado de deixar um O, e foi abrir a arca. A tampa chiou, no silêncio ouviu-se com perfeição cristalina a fechadura de metal a bater e ceder. As mãos procuraram o tecido em fibra por baixo de todos os cobertores de lã, as camisolas que lhe picaram a pele há mais de 70 anos, quando brincava nos jardins onde os pés se enterrava com um sploch na neve, as camisas brancas e arejadas com cintura delgada de menina, de quando a grande seca ainda não tinha começado. Lembrava-se de ser branco, de ser fresco, do cheiro a novo que agora tinha sido substituído pelo de poeira e anos acumulados.

Vestiu-o, supreendendo-se por o corpo de 80 ainda caber no vestido do corpo de 20, e por ter deslizado com tanta facilidade. Arrastou os pés descalços pelo chão de madeira morno, sentindo os sulcos entre cada ripa, puxou a cadeira de madeira em frente à mesa, com pratos postos, o mesmo feijão que de tantos anos já lhes sabia a todos os dias, mas que os confortava aos dois, com o cheiro que enchia a casa quadrada de uma divisão só. Esticou a mão para a jarra de água fresca, puxada do furo profundo debaixo da casa, sentiu no frio do vidro as gotas de água gelada que continha, e sentou-se para esperar.

 

 

E quando já não o esperava, e em toda a casa nem o pó se mexia no ar, sentiu o rodar da maçaneta a encher tudo.

 

(proposto pela Sofi)



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012



3 quadros

Eu

Estava sentado ao balcão do bar. Não se lembrava bem de como lá chegara, era a primeira vez que ali estava, e fora todo o caminho cego, de mãos vermelhas de tensão no volante. Atrás do balcão as bebidas em garrafa variadas do costume, por uma janela de vidro turvo a chuva lá fora não podia faltar, nos copos de whisky o gelo não chegava a derreter-se. Contava os minutos, olhava sem ver para as outras pessoas, sozinhas ou a par ou em grupos, a beber cerveja em voz alta ou a relaxar nas mesas, o ar acolhedor em que só sentia frio. Esperava por ti, que não chegavas, e pensava em tudo o que tinha de te dizer. Pensava em insultar-te, na amizade traída, em ver-te pela última vez, em pregar-te um murro e deixar-te no meio de chão.

Tu

Ficou sentado no carro quase uma hora, a ver a chuva a escorrer pelo vidro, sem saber se devia ir-se embora ou entrar para falar com o amigo. Já o conhecia há mais de 20 anos, uma amizade automática sedimentada em muitos anos de partilha e vida comum. Sabiam quase tudo um sobre o outro, partilharam as maiores alegrias e tristezas. Noitadas, férias, aventuras, miúdas, os casamentos, o divórcio, os filhos do amigo. E sabia que a conversa que ia ter, quando entrasse por aquela porta, podia ser a última.

Saiu do carro e entrou no bar. Viu o amigo ao balcão, inquieto, e dirigiu-se para ele com passos inseguros.

Eles

Da minha mesa não consegui perceber o que se passava. Só vi um deles, de fato e em mangas de camisa, empurrar o outro com violência e cair em cima dele para o chão, esmurrando-o atrapalhadamente. Engalfinharam-se como numa briga de miúdos até os separarem. O outro, com um lábio rachado, compôs o fato como pôde e saiu cabisbaixo, perante os insultos que o primeiro, a quem prendiam pelos braços, lhe berrava. Só o soltaram depois do outro sair, e depois de lhe chamarem um taxi e sair a cambalear, nunca mais o voltei a ver.

Saias, até aposto.



domingo, 25 de julho de 2010



Carolina

A cota está toda arranjada, hoje. Deve ter um encontro ao final do dia. Sentada à minha frente a tentar olhar-me nos olhos, com as mãos em cima das pernas cruzadas, à espera que eu fale, responda, ou faça qualquer tipo de movimento. Não tenho qualquer intenção de a satisfazer.

“É a quinta vez que cá vens, Carolina. Vais continuar sem dizer nada?”

Outra tentativa. A seguir vai perguntar se não me incomoda desperdiçar assim uma hora por semana. Vai recordar-me que é imposição legal e dos meus pais, e apelar-me ao sentimento de culpa. Sim, é uma perda de tempo, completa. Mas não estou aqui por minha vontade, e nada vai mudar isso. É palerma, se acha que lhe vou falar de mim. Quem julga ela que é? E a chamar-me Carolina? Parece de propósito para me irritar.

“Os teus pais disseram-me que começaste a ler muito nova. De que livros gostavas?”

Ok, conseguiste irritar-me. Andaste a cuscar com os meus pais. Para saber de mim. Quem te deu o direito? Começo a sentir-me tensa, posso até ter pestanejado sem querer. Fónix, raios os partam. Sim, mulher, comecei a ler muito nova. Li o Lolita. Queres que te fale disso? De como me tornei amiga dela e me seduziu o poder que tinha sobre o pobre Humbert? Sobre o mundo, até? Pois sim é verdade. E daí vais concluir que foi por isso que acabei aqui neste escritório quente, com pouca luz e cheiro a bafio, sentada muito composta em penitência com os joelhos juntos e a olhar para a parede do outro lado. E até podias ter razão, mas não te vou dar o prazer de o saber.

“Não te vou tratar com uma criança, Carolina. Estás a portar-te como uma adolescente. Igual à maioria dos outros da tua idade com quem falo, todos os dias. Revoltados com a autoridade ou mundo em geral.”, disse a voz com olhos directos e tom de constatação.

Tirou um curso em irritação, de certeza. Tenho de ver o que posso fazer acerca disso. Onde morará? Não, minha amiga, penso comigo mesma, não sou igual aos outros que por aí te entram. E se me irrito é porque me estás a fazer perder tempo. Tenho coisas para fazer lá fora. Hoje apetece-me uma tatuagem. Isso. Um falcão com garras afiadas, por trás do ombro direito, em voo picato. Os cotas vão-se passar, e vai ficar fixe no meu perfil. E se continuas a chatear-me, ponho-te a ti nessas garras, mulherzinha.

“Bom, vamos recomeçar. Eu não tenho nada melhor para fazer, Carolina. E tu achas que tens, mas não podes por minha causa. Sabes porque estás aqui?”

Claro que sei, penso, sem um pestanejar. Deve pensar que sou tola, além de calada. Os meus pais acham que sou anti-social, que não tenho amigos, que passo demasiado tempo a mandar mensagens e na net. Quem os mandou mudar para Almada, não estávamos bem em Lisboa? Também deviam querer que vestisse cor-de-rosinha em vez de preto, ou andasse de saltos altos e não botas. O que têm eles a ver com o que faço? São só os meus pais, e não devo precisar deles muito mais tempo -- já tenho o meu império, que me segue cada curta frase, que controlo por palavras e abreviaturas, e que fará tudo o que eu quiser.

É verdade, a Carolina não tem amigos. Mas para os amigos não sou Carolina. Sou Orange, Lady Orange. E tenho milhares de amigos.

 

--

A partir de um desafio de Lady Mary Jane. Elementos a usar: Carolina – para os amigos Lady Orange, Adolescente, Não gosta de saltos altos, Almada, Quer fazer uma tatuagem.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010



Cidades às Escuras

Dia 11 de Março de 1999, Rio de Janeiro. Estava de férias num dos hotéis virados para a praia de Copacabana, no 44º andar. O dia pacífico tinha incluído passeios, praia e frequentes “Ois?” perante o nosso português rápido. Preparavamo-nos para sair para jantar quando a luz se apagou.

O interruptor não funcionava. No corredor, escuridão total. Tentámos ligar para a recepção, mas não havia som no telefone. Faltar a luz num hotel é incomum, pensei. Reparámos depois que lá fora também não havia luz. Toda a praia, todos os prédios, a iluminação na rua, o horizonte, tudo escuro. As únicas luzes eram de alguns poucos carros na avenida, também eles tão devagar que se diriam surpresos.

No dia seguinte, soubemos que tinha sido o maior Apagão do Brasil, e que 70% do país tinha ficado às escuras.

Acabámos a jantar barras de cereais e chocolates no calor da noite, sem vontade de descer as escadas, a ver a lua no céu e no mar e os pirilampos na estrada. Parecia que estávamos sozinhos no mundo.

 

[Outro exercício do curso de escrita de viagens… um micro-conto verídico com menos de 1000 caracteres]



quarta-feira, 23 de setembro de 2009



tudo começou quando

Foi num daqueles dias de Outono que amanhecem soalheiros, e à medida que as horas avançam se vão entristecendo e acizentando, e lembro-me como se fosse hoje. Presta atenção ao que te vou contar.

O sábado amanheceu com sol, e sem núvens no azul celeste. Parecia um Verão de São Martinho, sabes? A aquela altura do ano associam-se árvores a despir e pessoas a vestir, e não dias como aquele. Segui com o olhar um pássaro solitário que passou à minha frente, a voar sobre o rio, para a outra margem. Um voo alegre como aquele só podia ser de uma andorinha, pensei. Ou um pombo, e levar a minha mensagem secreta, a pequena nota que te escrevi. Eh. Não me ligues, estou a distrair-me. Deixa-me continuar.

O dia parecia não poder ser pior para o que queria fazer, lindo e brilhante. Atravessei a ponte a pé, o chão ainda molhado da chuva da véspera, o ar limpo e agradável de respirar, e fui para o café onde nos tínhamos combinado encontrar, para mais um café e pequeno-almoço a ler o jornal da manhã.

Nesse dia levava-te uma despedida como surpresa.

Estava cansado, estava triste com o fosso entre nós no teu olhar, desanimado com ter de escalar os muros do teu castelo, como se todos os dias tivesse de reconquistar o mesmo pequeno pedaço de terra, todos os dias o mesmo ritual e a mesma batalha.

Ia dizer-te adeus, sabes? a nota que escrevera tinha tudo o que te queria dizer, o que esperava conseguir dizer-te, o que esperava ter decorado palavra-por-palavra, e que tinha de sair de mim num só fôlego.

Porque nunca te disse? Não sei. Depois do que aconteceu, deixou tudo de fazer sentido.

Fui o primeiro a chegar, como era costume, e pedi o mesmo de sempre, enquanto olhava para as pessoas e esperava por ti e pelo teu olhar perdido ensonado dos sábados de manhã. Vi-te dobrar a esquina e vir em direcção a mim ao mesmo tempo que a música que começava a tocar na rádio me envolveu, e à medida que te aproximavas, como numa bolha de sabão, tudo lá fora deixou de importar. Vi o teu cabelo de quem acabara de se levantar, o teu andar decidido e preguiçoso, e o teu sorriso como nunca vi outro a nascer. Amachuquei a nota de papel que tinha no bolso, e sorri-te de volta.

Sim, claro que me lembro da música. Queres ouvir, imagino… Mas o importante é que há alturas, meu amor, em que é preciso arriscar. Por vezes o destino sorri.

Como fez connosco.

Outro desafio, o terceiro, da mesma amiga. As palavras que serviram de inspiração? Interessam mesmo? Lamechas? So what.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009



Mulher Diagonal, A

Nunca tive tempo para nada. Não percebo, mas parece-me só acontecer comigo. Mas deixa que te explique. Chamo-me Dorit, e não sou um peixe azul de fraca memória. Sou uma mulher de carne e osso, não tenho cabelo azul nem escamas, e vivo a vida na diagonal.

Imagino que tenha começado no leito materno, mas a primeira vez que repararam foi na maternidade: encontravam-me sempre deitada na diagonal no berço. E se me endireitavam, meia hora depois lá estava na diagonal de novo. Também nunca fui de fazer grandes birras, não havia tempo para isso, tinha de ir brincar. Fazia tudo na diagonal. Um bocadinho de choro, só para dar um sabor, um bocadinho de comida, um bocadinho de brincadeira, primeiro com brinquedos depois com amigos, um bocadinho de estudos, um bocadinho de namoros, um bocadinho de casamentos, um bocadinho de empregos.

Tudo na diagonal, e sempre cada vez mais acentuada, a viver a vida mais resumida e cada vez mais e mais depressa, a deixar coisas a meio mal começadas, uma vida de primeiros parágrafos e resumos resumidos.

Nem sei porque estou a escrever isto. Se me pedissem para reler este texto, só leria “Mulher Nunca Texto”.





nunca ninguém pergunta pelo três de paus

Vivo num castelo de cartas tão sólido que resiste à força do vento. São cartas manuscritas, cartas enviadas e não enviadas, cartas recebidas e cartas que quis ter recebido.

O meu castelo é rodeado por um fosso cheio de água, cheio de crocodilos e suas lágrimas, e tem duas portas, ambas cartas de jogar. Uma, a da direita, é um preto três de paus, uma porta de que prefiro não falar. A segunda, a da esquerda, é um encarnado Ás de copas, e só se vai abrir no mais especial dos dias, e para a mais especial das pessoas. Por mais mais forte que empurrasses, por mais rápido que corresses, nem que passasses a velocidade do som a conseguirias derrubar,

se não fores tu a pessoa certa.

Às vezes fico a olhar para a carta encarnada com o Ás de copas, com mágoa suspirante de não a ver abrir-se devagarinho, com o mistério de não saber quem a poderá atravessar.

Vivo num castelo de cartas, na minha caixa de cartas, escritas ou recebidas ou jogadas por mim ou contra mim, e quero ser eu capaz de abrir a porta, sair lá para fora, e deixar tudo isto para trás de uma vez por todas.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para escrever um texto a partir das palavras seguintes: encarnado, água, caixa, lágrima, olhar, vento, velocidade, castelo, força, mágoa. (isto foi a segunda versão)



quarta-feira, 9 de setembro de 2009



setembro por dentro

tirei-te uma fotografia ao rosto da minha janela, quando caminhavas pela rua na minha direcção, sem me veres. sem o saberes, sem eu o perceber também, senti que eras mais que um retrato a ampliar, a preto e branco, numa moldura grande que viria a pendurar numa parede.

estávamos em setembro, aquele mês em que o tempo ainda nos deixa passar noites na praia a conversar com a luz da marginal por trás, à procura de um beijo num intervalo da conversa, em que se começam a escrever nas folhas de papel dos diários histórias que começam com “era uma vez” que duram anos, histórias de amor que começam com a paixão dos estores para baixo em quartos quentes da respiração ofegante de corpos aos pares, e terminam… ou não, quando o nosso destino o quiser.

quis conhecer-te, imaginei enquanto apertava repetidamente o botão os teus lábios macios e um abraço apertado e quente, num instante vi passar-me pelos olhos -  como se à beira da morte - toda uma vida alternativa, e nasceu-me um sorriso nos lábios. quis-te.

estranha sensação esta. pouco depois deixei a janela, e com memória de peixe, esqueci o que tinha pensado e a sensação de alegria que me deixaste. só ficaste tu. num rolo a revelar dias depois, e onde o teu sorriso e o verde invisível dos teus olhos me faria perguntar em voz alta porque não correra para falar contigo.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para criar uma história a partir das palavras seguintes: peixe, estores, folha, beijo, relógio, amor, paixão, setembro, tempo, direcção, janela, fotografia.



segunda-feira, 7 de setembro de 2009



Yellow

Por vezes temos situações na vida em que sabemos que vamos fazer asneira. Sabemos que temos o painel de controlo na nossa frente cheio de luzes a piscar, algumas delas vermelhas. Vozes ao ouvido dizem-nos:

C U I D A D O !
(as vozes ao ouvido falam em maiúsculas, como é de conhecimento comum)

Quando pensamos racionalmente, dizemos a nós próprios que mais vale cortar o mal pela raiz, nem deixar a planta crescer, porque vai correr mal, seja qual for a situação.

E o que fazemos? O mesmo que fazemos quando se nos depara um semáforo amarelo no trânsito, não temos carros à frente, e estamos já bem perto.

Aceleramos.



domingo, 23 de agosto de 2009



Olá – Quem sou?

Nunca me apresentei. Pensar que já escrevo para ti há sete anos, e nunca te falei de mim.

Sinto curiosidade por quem achas que sou. Homem sim. A idade deves poder calcular. Neste momento, descomprometido e de coração em desocupância. O nome, inspirado no Kafka, vou dizer que é J. A uma consoante de distância da do génio.

Provavelmente revelo muito mais do que penso nas palavras que escrevo. Tenho consciência disso. Diz-me, como achas que sou? Eu estou aqui dentro, só sai um gotejar de palavras quando as posso e consigo apanhar e escrever, mas já são tantas, e tanto da minha vida. E nunca ninguém é o melhor juiz de si próprio, não é o que dizem? Por isso te pergunto, em vez de te responder. Quem sou eu? E porque me sinto assim?

Ajuda-me.

 

(esta posta quase de certeza vai ter uma continuação)



sábado, 25 de julho de 2009



Solos de Guitarra 'slide' [Um Post Orgânico]

[Vou usar este post como base, e crescê-lo por dentro. Em tempos planeei fazer isto com um amigo, mas nunca avançámos para a ideia. Faço-o sozinho eu. Vale tudo, desde que seja a acrescentar palavras e frases, em qualquer lado do texto. Um pedaço todos os dias. É um post orgânico e reciclável.]

Quando me encontro com ele pela primeira vez, parece um monstro sonoro que entra em nós p'los ouvidos e pela boca e se deixa ficar cá dentro, como um vírus sem início e sem fim que não se sabe onde começa ou como terminar/cortar/queimar de uma vez por todas. Quando acaba o concerto, e a música já parou lá fora, e o recinto está meio vazio, o som fica dentro dos ouvidos a zunir. No chão restam latas de bebida, copos de cerveja de plástico, inúmeros pedaços de papel, beatas. Os despojos do circo moderno. Muitas histórias para contar, não duvido disso. Mas o que me preocupa é a minha própria história, e o som que está a zunir dentro de mim.

 

Estou dentro do Castelo à espera dos concertos e está o Victor Démé a tocar no som recinto, aquele blues interior que me faz sentir como se tivesse uma faca espetada no coração (o meu), uma música familiar que me faz arrepiar e que em tempos troquei contigo, no dia em que gostaste da minha música. Há sincronicidades q jogam contra nós, e esta só me vem magoar e fazer mal. Não preciso disto, já não quero estar aqui.

 

Vi-te a semana passada, sentada na relva com o teu rapaz. Um vestido verde, sandálias. Não és alta, tens um nariz altivo, uma expressão que primeiro pensei arrogante mas se tornou simpática. Percebi-te social pelos amigos que iam ter com vocês e te cumprimentavam animados, e o que me fez olhar-te foi o longo cabelo castanho e revolto numa trança selvagem, que por vezes levantavas, e bem que podias ser tu a miúda 100% perfeita para mim, mas como nessa outra estória, não te vou conhecer, e o destino não vai fazer não fez por nos juntar. Melhor sorte na próxima oportunidade. Procurei-te em fotos como ao Wally, e pouco mais encontrei que sombras. Para quê pensar nisso? Todos os dias nos cruzamos com estranhos que nunca mais vamos voltar a ver. Todos os dias. E em alguns dias, cruzamo-nos com pessoas que conhecemos e vamos deixar de conhecer, e se o soubermos, esses custam mais a passar.

 

Há muitos anos atrás, cruzei-me com uma pessoa que acreditei ter encontrado pelo Destino. Sou ateu, não acredito em nada que esteja para lá do sensorial, sou céptico. Mas todas as minhas células gritavam que Era O Destino. (Eu e esse Destino temos de ter uma conversa um destes dias). E de facto foi o Destino, mas não foi bom. Há coisas que são o Destino, que são destinadas a acontecer, e que estão destinadas a acabar mal (ou até, muito mal).
Seja como for, não acredito nisso do cem por cento perfeito, ou antes, não acredito que só haja UMA possibilidade, UMA pessoa 100% perfeita para cada um de nós. Acho (acredito) que existem inúmeras possibilidades de cem por cento, em cada momento.
E eu – neste momento - não estou a procurar cem, nem setenta e cinco sequer. Já me chega de paixões.

 

Tem um aspecto simpático e divertido, um feitio brincalhão, e quem a conheceu em tangente disse-me que parecia doce, até saberem qual o sabor. Um pouco como as amêndoas que nunca se sabe se vão ou não ser amargas. Isto fez-me pensar em café, que muitos  - como tu – enchem de açúcar até parecer um bolo, e que prefiro tomar com o sabor amargo que na realidade tem. Se calhar foi por isto que lutei tanto por ti, por estar habituado a amargos de boca, e dores no coração. Uma forma de masoquismo apaixonado. Daqui a muitos anos, quando já estiver nada em jogo, havemos de ter uma conversa, quando as rugas formarem pés de corvo nos olhos e já não tivermos o mesmo brilho no olhar, e aí vou-te explicar o que nunca foste capaz de compreender. Sempre me pareceste doce, mesmo quando já sabia que não eras, mesmo quando já te tinha provado.

 

O pior já passou, desta vez. Podes respirar de novo, moço.



quinta-feira, 23 de julho de 2009



Mensagem das Estrelas (A Carta Mais Importante)

Imagina uma carta. Um envelope amarelo de papel reciclado. Por fora só com o teu nome e morada, um selo da minha própria cidade, o carimbo redondo com a data de dois dias antes.

Já não se escrevem cartas. O que poderia ser isto? Abri, e tinha duas páginas manuscritas, em papel muito fino (quase transparente). Começava com Olá, e o resto é só meu. Mas era a Carta Mais Importante.

Se fosses tu a receber esta carta, o que querias que dissesse? De quem querias que fosse?

 

Sei que já não temos o hábito de parar para pensar. E não quero saber a resposta. Quero só que pares. E que penses.



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