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sábado, 20 de agosto de 2016



seriosamente

lido4a sério que só pode ser masoquismo e continuo a achar que não trocava isto por mais nada como é satisfatório ter as veias a pulsar com sangue o coração que por vezes quase pára ou me aquece por dentro o passo interrompido por uma imagem ou palavra que nos toca como uma brisa de Verão e por vezes manda abaixo mas sentir isto é inevitavelmente bom mil vezes melhor que estar sentado numa secretária a olhar pela janela e ver os carros e pessoas passar lá fora com uma manta ao colo e braços cruzados sobre as pernas

tiro na cabeça, isso

parece que nos queremos atirar de uma janela meter num avião comboio e fazer o que não se deve e não se pode e é sempre assim nunca são as coisas como queremos mas a energia que sentimos – sinto – está dentro de mim independentemente do que o resto do mundo – e tu – sintas ou deixas de sentir

preciso disto

mesmo que nunca te toque que nunca te veja ou te beije

preciso disto

e juro-te que com 100 anos ou 80 ou 60 ou 50 ou 45 ou seja com que idade for vou sempre olhar para isto como dias que valem a pena como aventuras que enriquecem que me tornam a mim uma pessoa com mais histórias para contar e mais retalhos dentro, ainda que inamável

a sério



terça-feira, 22 de março de 2016



Dramatis personæ, diálogo

- Romeu
- Olá, Julieta
- Preciso de falar contigo
- Então?
- Reparaste que deixei de te responder às cartas?…
- Sim, claro. Porquê?
- Porque nos estávamos a aproximar, e tu não podes, e eu achei que era a opção mais sensata. E agora que nos vemos, é justo dizer-to.
(pausa)
- Fizeste bem. Obrigado. Já tinha suspeitado disso.
- Sim? Então?…
- Estavas a começar a fazer-me pensar. E não sou pessoa para tomar decisões sensatas, ainda bem que tu o és. (pausa) Despedimo-nos agora?
- Suponho que sim… mas…
- Então adeus, Julieta
(pausa)
- Adeus, Romeu

(e quando o pano cai, na sombra do invisível, colaram os lábios)



segunda-feira, 9 de abril de 2012



Pedra Preta

Uma limpeza. Vieram por entre a neblina ao nascer do dia, vi-os descer o monte com erva verde de inverno, e levaram tudo o que não estava preso ao chão. Mulheres, crianças, velhos, tudo o que tivesse valor. Os homens em idade de lutar já tinham fugido. O meu pai fez-me prometer que não saía do celeiro, que esperasse pelo regresso dele, e desapareceu por entre as árvores da floresta. Levava um farnel às costas, num saco de pano castanho que a minha mãe lhe tinha dado há muitos anos atrás, em dias melhores.

Do alto do celeiro vi tudo o que se passou na aldeia. Sem me mexer, vi a passividade das pessoas, a incredulidade revoltada. Serem levados como cordeiros, à força das armas, a história do homem a repetir-se em pleno século XX. O padre, o cura, o senhor da venda que na semana passada me deixou cair a caixa de pepinos no pé. No hospital engessaram-me e mandaram-me ficar sem me mexer duas semanas. Ao fim do primeiro já tinha assinaturas de todos os amigos, um census da aldeia escrito no gesso.

Olhei o céu, vi a nuvem, branca como uma folha de papel, perfeita e redonda mesmo em cima de nós, espectadora impávida do espectáculo que sob os seus panos se escrevia. Dois tiros levaram a paz ao padeiro e à mulher, pelo atrevimento de defender o forno dos hirsutos de uniforme militar. Assustei-me, soltei um grito mal contido, quando os vi cair. Ele devagar, para a frente e dobrando-se sobre ela própria, ela projectada para trás com violência.

Vieram-me buscar pelos braços, a arrastar pelo chão e quase largado escadas abaixo.

“É um miúdo”, ouvi as vozes lá em cima, por entre pernas e canos de espingarda. “Não consegue andar”. “Pena.”, responderam-lhe. E ouvi o estampido, num cavalo humano.

 

Na noite que caiu depressa ouvi uma voz de mulher a cantar, com aquela melodia tão balcânica que tão bem conheço, suave e fria, e perguntei-me se seria a minha mãe, de quem só lembro umas fotos a preto e branco.



quinta-feira, 31 de março de 2011



do amor mais pequeno ao coração maior

a forma mais curta de dizer a outra pessoa que a amamos.

uma forma curta e singela e repleta de magia e promessas e empatia e proximidade de corpos e vidas e sentimentos e alegria e ao mesmo tempo felicidade.

um espelho em que nos olhamos mas se reflecte o outro.

uma palavra só.

não o batido verbo amor na forma reflexa. o amo-te que pode ser mágoa quando não correspondido, ou dito como despedida.

só…

 

nós.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



Last Night

caTSFicámos à frente da televisão, já não sei se a ver um filme, se a jogar um jogo. Mas adormeceste no sofá ao meu lado, e tive de com carinho te roubar da ronha e levar para o quarto comigo, enquanto protestavas com birra de sono. Fingiste que querias dormir, mas agarrei-te e beijámo-nos e… fizemos amor um com o outro. Com carinho, com paixão, com entrega, uma fusão de corpos e de espíritos, um prazer profundo e único, uma comunhão que me preencheu total e absolutamente e me deixou... feliz.

Adormecemos juntos, agarrados, a respirar no teu pescoço, junto ao teu calor, corpo com corpo, quase só uma pessoa, poucas coisas poderiam ser tão especiais como estes momentos. Se a vida fosse sempre assim todo o planeta seria um sítio muito mais feliz.

E esta foi a nossa última noite juntos.



domingo, 12 de dezembro de 2010



Comunicado Oficial da Presidência da Pessoa João

Concidadãos,

depois de aturada conversação e avaliação das circunstâncias que tão recentemente afligiram o nosso rectangular ser, gostaríamos de aproveitar a oportunidade para clarificar junto de todos um facto de que apenas há pouco tomámos conhecimento racional.

O motivo para o atraso na revelação deve-se à complexidade do processo auto-reflexivo em si, que c0m frequência levou este comité para observações circulares e argumentos e memórias secundárias, que tornaram impossível uma objectividade que apenas circunstâncias que poderemos classificar de extraordinárias permitiram revelar.

O facto em causa refere-se como não podia deixar de ser ao recente encerramento da relação com a Pessoa Que Não Vamos Nomear, nas circunstâncias que são por todos e pelos demais desconhecidas. Ao contrário do que até agora veio sendo vinculado na comunicação social, wikileaks, e inclusive comunicados anteriores à imprensa, sobre a reduzida dimensão do que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear, o que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear não era efectivamente pouco ou limitado.

Não sendo obviamente algo que fosse pretendido para agora, para o já, e serem de esperar anos e meses de maturação da ideia e de avaliação mútua das duas Pessoas envolvidas (e respectivos cidadãos), que como é de todos conhecidos têm diferenças que seria necessário avaliar e compatibilizar, o objectivo claro da Pessoa João era efectivamente forjar laços com a Pessoa Que Não Vamos Nomear de uma natureza permanente e duradoura, que teriam de ser construídos meticulosamente com base em afectos e agradabilidades mútuas mas construtivas e progressivas, e que porventura passado algum tempo resultariam em uma ou duas Pessoas Júniores e, se fosse vontade de ambos, numa união de natureza civil-matrimonial.

Desta forma desfeita falta de informação, e cientes de que o presente esclarecimento em nada altera os eventos já colocados em movimento, cumpre-nos lamentar a demora no processo reflexivo que permitiu a esta Pessoa chegar a esta conclusão, e a consequente demora na informação aos cidadãos, e esperar que em eventuais processos futuros esta clarificação e compreensão seja atingida de forma atempada.

Lamentando o sucedido,

P’la Presidência da Pessoa João,

-joão



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009



Falta-me sempre uma

Quando mais preciso dela é quando mais parece que a tenho escondida debaixo da língua, atrás da amígdala, a jogar às escondidas comigo mesmo. Sai, moça, digo, e vejo-a a espreitar de lado, mostrando algumas das suas sílabas, mas logo se esconde de volta (mas quem tem medo sou eu não ela).

Não acontece sempre, só quando é mesmo preciso, quando é im-por-tan-te, que ela nos falha, que não está lá. Ilude-nos e finta-nos e serpenteia ao nosso redor como uma abelha, “ela está dentro de nós” mas não se mostra e não quer sair.

Fica assim à porta da boca, é o que é. Porque não vens cá fora?



terça-feira, 22 de setembro de 2009



estou com um feeling

digo-te. estou com um feeling. a minha bússola não tem um mas vários nortes, e como poucas muitas vezes antes, está desorientada. mas tenho um feeling. tenho aqui um feeling guardado no bolso, dentro da carteira.

por agora vou caminhando pela rua, vejo as pessoas ao meu redor, o autocarro que se aproxima da paragem que cruzo, os carros que passam na estrada, aquela senhora de idade na varanda da janela, as caixas do minimercado que aproveitam uma pausa para fumar um cigarro encostadas à parede, a estrada feita de pedras cinzentas quadradas, o passeio feito de pedras brancas quadradas.

vou caminhando, e levo o meu feeling no bolso. sei que o vou tirar da carteira muito em breve. que o vou desdobrar da dobra em quatro, e que já não vou estar mais na rua por onde me cruzo com estranhos, com carros invisíveis, com os sons e apitos da cidade onde vivo, e que não vai ser só um feeling, mas um papagaio com a forma de uma águia de asas abertas a desenhar linhas e curvas no céu, que seguro com um sorriso ao mesmo tempo que tu, deliciada na areia, segues os movimentos que faz.

por enquanto, o feeling é um quantos-queres de papel de origami, dobrado em quatro. mas não falta muito para o abrir. não falta muito para o descobrir, para lançar os dados das dobras nos dedos de uma menina, e viver o que sair. na praia.





na verdade, não estou neste momento

ligaste-me, mas sabia que eras tu e decidi não atender. para quê ouvir mais uma vez a tua voz, para quê repetir os mesmos argumentos e discussões cansativas. melhor deixar tocar. a repetição é a mesma, mas a musiquinha é bem menos cansativa.

já sei o que pensas. aborrecido ou aborrecida, que sou uma chata ou um chato, ou que estou ocupada ou ocupado, ou que sou sempre sempre igual a mim mesmo e nunca tenho tempo para as coisas importantes.

mas a verdade é que tenho todo o tempo do mundo, para as coisas importantes. e importante para mim neste momento é ver esta planta crescer com o sol da manhã, ou ver o pôr-do-sol no mar, sentada ou sentado na areia, de ombro encostado a um outro que não é o teu, e isso me fazer sentir completamente feliz.



quarta-feira, 16 de setembro de 2009



mulher com dois olhos de trovão,

porque te conheci? porque te aproximaste de mim e se cruzaram os olhares? fizeste-me estremecer os nervos do corpo, a terra abanar, e passarem-me relâmpagos eléctricos pelos olhos. verdes como os dos gatos, a brilhar na noite, é impossível não ficar preso ao que não sei ser. semeaste o caos na minha vida. não saio à rua sem ver no céu se lá estás, se me vais assustar com o teu grito, ou iluminar as noites com o teu brilho enquanto durmo com os estores apenas meio fechados, para te deixar entrar a ti para junto de mim.

o tempo começa a estar fresco. começo a precisar, aos poucos, do teu calor. mesmo que seja para acabar por ficar acordado.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009



Mulher Diagonal, A

Nunca tive tempo para nada. Não percebo, mas parece-me só acontecer comigo. Mas deixa que te explique. Chamo-me Dorit, e não sou um peixe azul de fraca memória. Sou uma mulher de carne e osso, não tenho cabelo azul nem escamas, e vivo a vida na diagonal.

Imagino que tenha começado no leito materno, mas a primeira vez que repararam foi na maternidade: encontravam-me sempre deitada na diagonal no berço. E se me endireitavam, meia hora depois lá estava na diagonal de novo. Também nunca fui de fazer grandes birras, não havia tempo para isso, tinha de ir brincar. Fazia tudo na diagonal. Um bocadinho de choro, só para dar um sabor, um bocadinho de comida, um bocadinho de brincadeira, primeiro com brinquedos depois com amigos, um bocadinho de estudos, um bocadinho de namoros, um bocadinho de casamentos, um bocadinho de empregos.

Tudo na diagonal, e sempre cada vez mais acentuada, a viver a vida mais resumida e cada vez mais e mais depressa, a deixar coisas a meio mal começadas, uma vida de primeiros parágrafos e resumos resumidos.

Nem sei porque estou a escrever isto. Se me pedissem para reler este texto, só leria “Mulher Nunca Texto”.





indiferença

havia um episódio do twilight zone em que a pior das penas do tribunal era ser-se ignorado por todos aqueles que o rodeavam. cada condenado tinha uma marca na testa, se bem me recordo, e a convenção social era de que essas pessoas não existiam. ninguém as olhava nos olhos, ninguém falava com elas, não reconheciam a sua existência. eram como não-pessoas, no meio de pessoas com que se cruzavam na rua, uma cidade país desertos apesar de repletos de pessoas. uma condenação à solidão, fora da escuridão de uma solitária, mas capaz também ela de levar à loucura.

ter as pessoas à distância de um braço, de um olhar cruzado num passeio, e não conseguir penetrar numa barreira imposta pela necessidade de ter a sociedade equilibrada, ser-se transparente, uma convenção de distância, afinal tão actual.

e eu? porque tenho eu esta marca na testa?





nunca ninguém pergunta pelo três de paus

Vivo num castelo de cartas tão sólido que resiste à força do vento. São cartas manuscritas, cartas enviadas e não enviadas, cartas recebidas e cartas que quis ter recebido.

O meu castelo é rodeado por um fosso cheio de água, cheio de crocodilos e suas lágrimas, e tem duas portas, ambas cartas de jogar. Uma, a da direita, é um preto três de paus, uma porta de que prefiro não falar. A segunda, a da esquerda, é um encarnado Ás de copas, e só se vai abrir no mais especial dos dias, e para a mais especial das pessoas. Por mais mais forte que empurrasses, por mais rápido que corresses, nem que passasses a velocidade do som a conseguirias derrubar,

se não fores tu a pessoa certa.

Às vezes fico a olhar para a carta encarnada com o Ás de copas, com mágoa suspirante de não a ver abrir-se devagarinho, com o mistério de não saber quem a poderá atravessar.

Vivo num castelo de cartas, na minha caixa de cartas, escritas ou recebidas ou jogadas por mim ou contra mim, e quero ser eu capaz de abrir a porta, sair lá para fora, e deixar tudo isto para trás de uma vez por todas.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para escrever um texto a partir das palavras seguintes: encarnado, água, caixa, lágrima, olhar, vento, velocidade, castelo, força, mágoa. (isto foi a segunda versão)



terça-feira, 1 de setembro de 2009



O meu nome é Romeu, e sofro de Paixão

Juntei-me aos Apaixonados Anónimos há quase 5 anos, mas já não tenho esperanças de melhorar. Só continuo a ir para conhecer pessoas, ouvir as suas estórias, e dar alguns vagos conselhos que serão completamente ignorados, apesar de ser o mais experiente do grupo.

Tudo começou com a Julieta, claro. Penso que já terás ouvido falar dela, aquela coisa trágica em que morríamos os dois envenenados. Não foi bem assim. Estávamos apaixonados, sim, mas só ela é que morreu. Eu fiquei vivo, e amaldiçoado. Amaldiçoado a continuar para sempre pela vida, como um vampiro, a apaixonar-me por uma mulher depois da outra, acreditanto sempre num ilusório para sempre que nunca chegou e nem nunca deve chegar. Não a mim.

Não me confundas com D. Juan. Esse rapaz, aliás meu bom amigo, joga no campo da sedução imediata, dá umas fintas e meia dúzia de charmes inesperados, e rapidamente chega ao branco dos lençóis para um episódio de novela. Eu apaixono-me, entrego-me, seduzo pelo que sinto e não como desporto, construo sonhos vivos e repletos de energia, com princípio meio e sem fim, acredito. E quando o coração me bate no peito com mais força, vem o veneno da minha primeira pôr fim à esperança. Uma vez depois de outra vez depois de outra vez.

Estou cansado, em casa, sentado à mesa, e tenho o cálice com o líquido verde à minha frente, mais uma vez. Vejo-o contra a luz, admiro a transparência e a côr viva que tem, sinto-me seduzido e convidado a seguir pelo caminho mais percorrido. Acabo no entanto, como sempre, por voltar a pô-lo no pequeno frasco, sem sequer muito hesitar.

Prefiro mil vezes viver com paixão, penso, do que não viver de todo.





Go yon, go yon

Quando olhei para para cima, podia apostar que o céu não estava tão alto como ontem. Temos de estar atentos a estas coisas, não nunca podemos confiar. E eu podia jurar – podia mesmo jurar – que o céu ontem não estava tão baixo quanto está hoje. Não estou a falar de núvens, repara, estou mesmo a falar do céu.

Que sensação estranha. Podes pensar que estou a delirar, mas ou estou a crescer, o que é possível mas se notaria na roupa, ou o céu está a descer. Sinto-me apertado, compactado, cada vez mais denso dentro de mim, e isso não é uma boa sensação. Uma espécie de tortura medieval, mas por estranho que pareça, só eu a estou a sentir. Aqueles a quem falo disto respondem que estou a imaginar, riem-se com a piada do que lhes conto, apesar do ar grave que tenho no rosto. Estou preocupado.

Decidi não lhes contar mais. Quando começarem a ter de andar encorcundados pela rua, hão de se lembrar do que lhes disse. O céu está a cair, e mais dia menos dia vamos ter a cabeça nas núvens, depois no fim da atmostera, e acabar a ver estrelas sem conseguir respirar.

Podia jurar que já me está a faltar o ar, penso ao inspirar com sofreguidão e dificuldade… mas onde está a minha estrela?



domingo, 23 de agosto de 2009



Olá – Quem sou?

Nunca me apresentei. Pensar que já escrevo para ti há sete anos, e nunca te falei de mim.

Sinto curiosidade por quem achas que sou. Homem sim. A idade deves poder calcular. Neste momento, descomprometido e de coração em desocupância. O nome, inspirado no Kafka, vou dizer que é J. A uma consoante de distância da do génio.

Provavelmente revelo muito mais do que penso nas palavras que escrevo. Tenho consciência disso. Diz-me, como achas que sou? Eu estou aqui dentro, só sai um gotejar de palavras quando as posso e consigo apanhar e escrever, mas já são tantas, e tanto da minha vida. E nunca ninguém é o melhor juiz de si próprio, não é o que dizem? Por isso te pergunto, em vez de te responder. Quem sou eu? E porque me sinto assim?

Ajuda-me.

 

(esta posta quase de certeza vai ter uma continuação)



sexta-feira, 21 de agosto de 2009



diz-se nos fóruns da in-ter-net

muitas coisas que são mentira. mas também há por lá, nos fóruns da in-ter-net, muitas verdades incómodas, e muita sabedoria disfarçada.

agora há muitos anos que não vou aos fóruns da in-ter-net, mas antigamente ia lá muito. foi lá que te encontrei, que te conheci e que te namorei, foi lá que casámos, numa cerimónia de palavras trocadas em mensagens e respostas, e apadrinhada por todos os que nos quiseram ler ou interferir com inveja mal disfarçada.

foi lá que vivemos o nosso romance intenso e apaixonado, nos fóruns da in-ter-net. como se fosse o nosso pequeno filme, a nossa curta metragem a muitas cores, a namorar palavras entre uma mensagem e outra, num sexo animal que os corpos nunca poderão reproduzir de igual forma.

depois desligaram a in-ter-net, e nunca mais te reencontrei.





Faltam fazer tantas coisas

Não temos tanto tempo assim à nossa frente, ainda que o possamos pensar. E só temos uma vida. O que temos de fazer? o que falta fazer? não te enche de urgência, perceber o que podes estar a perder por inacção ou inibição? Quantos anos te restam, e quão ricos e repletos de coisas boas vão ser?

Já aqui falei da “maldição” do Confúcio, acho: “May you lead an interesting life”. Pois eu quero lá saber do Confúcio. Até porque ele é tudo menos exemplo, veja-se a vida do rapaz.  O teu dia de hoje valeu a pena? O meu não. Até agora, pelo menos. Quero encher tudo, todos os minutos e todos os segundos, com urgência, como se o mundo estivesse para terminar amanhã. Ao sétimo dia descanso, tudo bem, mas ainda vamos no 3º ou assim.

E tu, vens comigo?



sábado, 15 de agosto de 2009



Tenho qualquer coisa cá dentro

… que me manda escrever. Faço-o contrariado, contra vontade, os meus dedos batem nas teclas sem querer, em esforço numa maratona que não sabem se vão conseguir vencer, gotículas de suor nas articulações. Há qualquer coisa que quer sair, mas os dedos não deixam. Sabes a sensação de lutar contra ti mesmo, e não saber se vais vencer? É desorientador, porque parece que não te pertences a ti mesmo.

É como aqueles sonhos acordados que temos na cama, em que nos sentimos a cair, sabemos que estamos acordados e podemos simplesmente pensar que já não estamos a cair, mas não conseguimos. Por muito chão que nos ponhamos por baixo.

Tinha muito este tipo de sonhos, há uns anos. E também o sonho inverso, o do elevador que nunca parava de subir.

Que peculiar este sentimento. Devo estar a enlouquecer.



terça-feira, 11 de agosto de 2009



Houve um tempo em que a minha janela se abria para…

… a copa de uma árvore, num terceiro andar, e podia ver as cabeças das pessoas cada uma na sua vida, os carros a passar, uma pastelaria no prédio em frente sempre num corropio de gente a entrar e sair, sempre com croissants de chocolate especialidade, que se derrete nos cantos da boca.

quando cresci, subi para o sétimo andar, e quando comecei a estudar, para o décimo terceiro andar. comecei a trabalhar no vigésimo sétimo andar, casei-me no quinquagésimo sexto andar, consegui vista para o mar no andar duzentos e trinta e três… cada andar mais acima mais baixo que o anterior, como se a selecção natural nos estivesse a compactar verticalmente, para acomodar mais e mais gente em altura.

com o tempo, deixámos de fazer a viagem para ir à rua, ruidosa e onde mal já se consegue respirar, e que mal conseguimos ver lá em baixo, pela minha janela. quando queremos passear, vamos para um dos andares-jardim, caminhar por entre as árvores importadas, lagos feng-shui e pássaros a chirlear, com as nuvens brancas almofadadas mesmo ao lado no meio do azul, num silêncio relaxante e calmo.

a única coisa de que sinto mesmo falta, é de ter o chocolate daqueles croissants nos beiços…

 

Isto era o TPC da 2ª aula… completar a frase do título. Claramente inspirado pelo filme “Brazil” do Terry Gilliam e pelos croissants de chocolate da Tarik.



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