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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015



Fernando “Nanã” (1950-2015)

Para mim, a morte deve ter também algo de alegria, pelo que nos foi dado pela pessoa que deixou de estar connosco, e que fica agora apenas como memória. As minhas de ti são principalmente de juventude, na Cartaria.

De caminharmos pelo pinhal à noite (descendo o vale, um atalho!) no regresso do café para casa, e de me dizeres que em em tempos – não há muito tempo - houvera lobos por ali. Café esse onde me deste as primeiras moedas para jogar no poker das máquinas, e depois ficaste a ver como a sorte me ajudou a ganhar uns quantos jogos seguidos.

De andar contigo aos pardais com a pressão de ar, de até lhes conseguir acertar mas nunca ter sido capaz de os provar sequer, a apanhar maçãs ou pêssegos ou amoras nos terrenos de um vizinho e outro (“estas maçãs são boas”, “os pêssegos do avô na cumieira? são os melhores”).

De andares a derreter luvas de borracha para enrolar em paus com que íamos fazer armadilhas para apanhar bicos-de-lacre ou verdilhões, correndo pelo campo para os apanhar quando ficavam colados e puxavas a rede.

Ou de irmos ao Agroal de bicicleta (20km!) para pescar com a minha cana verde minúscula, peixes minúsculos de rio – lembro-de de um furo num regresso, arranjado ali algures na Freixianda. Ou de pescarias no Tejo, onde agora são as docas, em que insistias comigo para não devolver e,m segredo ao rio os peixes pequenos incomestíveis que mordiam o anzol em vez dos grandes “porque assim apanhamo-los de novo!”

Ou de perceber que não havia mal nenhum em achar a missa uma seca, numa tarde à porta da igreja no Seminário da Portela, com a missa a decorrer lá dentro (seria a comunhão da Rita? :-)).

Ou pelas Ginas, secretas, que ainda aí tenho (shiiuuuu).

Ou pelos livros de cóbois, em que o heróis tinha sempre mais de “6 pés” de altura quando entrava na pequena cidade onde iria acabar por se revelar um pistoleiro bom e impôr a ordem ou vingar uma maldade, por génios da escrita como o M.L.Estefania (mais tarde descobri ser o M.L. de Marcial Lafuente). Ou pelos livros do Major Eduardo de Cook e Alvega, que impunha a ordem nos ares com o seu Spitfire a preto e branco aos quadradinhos.

Ou pelas notas de 1000$ nos aniversários ou no Verão, partilhadas com a outra afilhada Sandra.

Ou pelo inacreditável telefonema para o suporte técnico da Zapp, faltavam minutos para a meia noite de 24 de Dezembro, de onde tivemos quase de te arrancar!! :)

Ou do despertador de campaínha que te deixava sempre para tocar às 04h da manhã, quando voltava a Lisboa no fim das férias de Verão. :) Nunca comentaste, nunca soube se percebias e o desligavas antes.

Ou pelos gelados que trazias da Unilever, para os almoços de domingo em casa dos avós.

 

 

Obrigado. :’-(

 

Há uns anos segui um cortejo fúnebre que era fechado por 3 músicos cabo-verdianos a tocar mornas, no alto de são joão. Aqui fica uma música para levares contigo.



domingo, 12 de dezembro de 2010



Comunicado Oficial da Presidência da Pessoa João

Concidadãos,

depois de aturada conversação e avaliação das circunstâncias que tão recentemente afligiram o nosso rectangular ser, gostaríamos de aproveitar a oportunidade para clarificar junto de todos um facto de que apenas há pouco tomámos conhecimento racional.

O motivo para o atraso na revelação deve-se à complexidade do processo auto-reflexivo em si, que c0m frequência levou este comité para observações circulares e argumentos e memórias secundárias, que tornaram impossível uma objectividade que apenas circunstâncias que poderemos classificar de extraordinárias permitiram revelar.

O facto em causa refere-se como não podia deixar de ser ao recente encerramento da relação com a Pessoa Que Não Vamos Nomear, nas circunstâncias que são por todos e pelos demais desconhecidas. Ao contrário do que até agora veio sendo vinculado na comunicação social, wikileaks, e inclusive comunicados anteriores à imprensa, sobre a reduzida dimensão do que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear, o que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear não era efectivamente pouco ou limitado.

Não sendo obviamente algo que fosse pretendido para agora, para o já, e serem de esperar anos e meses de maturação da ideia e de avaliação mútua das duas Pessoas envolvidas (e respectivos cidadãos), que como é de todos conhecidos têm diferenças que seria necessário avaliar e compatibilizar, o objectivo claro da Pessoa João era efectivamente forjar laços com a Pessoa Que Não Vamos Nomear de uma natureza permanente e duradoura, que teriam de ser construídos meticulosamente com base em afectos e agradabilidades mútuas mas construtivas e progressivas, e que porventura passado algum tempo resultariam em uma ou duas Pessoas Júniores e, se fosse vontade de ambos, numa união de natureza civil-matrimonial.

Desta forma desfeita falta de informação, e cientes de que o presente esclarecimento em nada altera os eventos já colocados em movimento, cumpre-nos lamentar a demora no processo reflexivo que permitiu a esta Pessoa chegar a esta conclusão, e a consequente demora na informação aos cidadãos, e esperar que em eventuais processos futuros esta clarificação e compreensão seja atingida de forma atempada.

Lamentando o sucedido,

P’la Presidência da Pessoa João,

-joão



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



Maldito Orgulho

Acordou devagar como sempre, entorpecido de uma noite longa, com a sensação de que alguma coisa estava errado. Já se estava a levantar quando se lembrou de que ela já não estava na sua vida.

Romperam violentamente na noite anterior, rasgaram tudo o que os tinha juntado, sem olhar para trás ou tentar perceber porquê, não houve sanidade nem violência, mas uma calma fria e cortante e incompreensível e distante, como se nem fossem eles que estivessem ali, como se não quisessem ou pudessem dar-se ao luxo de admitir que se calhar até gostavam um do outro e que as coisas podiam até resultar, porque isso era fraqueza.

Romperam violentamente, e sabia que não se iam voltar a ver. Podiam pensar um no outro, podiam querer voltar a estar juntos, de certeza que se iam perguntar o que raios lhes tinha acontecido, mas não iam mexer-se para inverter fosse o que fosse, e as linhas iam divergir inevitavelmente. Ambos conheciam as regras do jogo, jogavam-no há demasiado tempo, e sabiam dos flancos que só se expõem uma, no máximo duas vezes na vida. Não o iam fazer outra vez.

Mas quando se joga à defesa não se marca, e o maldito orgulho não os deixou sair de onde estavam, cada um por si, a retomar a sua vida normal. 85% mais pobres, que estupidez tão trágica.

Não foi capaz de sair da cama, nesse dia.



(ps: não foi orgulho. foi não quererem a mesma coisa. mas ele escreveu isto antes de tudo acontecer)



quinta-feira, 24 de setembro de 2009



a pessoa errada na altura errada no local errado

Sempre pensei que este tipo de coisas só acontecia nos filmes.

Estávamos casados há alguns anos, e a passar férias juntos, no estrangeiro, como era frequente. Sempre fomos aquele tipo de casal que faz muitas coisas em conjunto, com muita actividade, como que para nos manter ocupados e impresentes um da vida um do outro. Quando sozinhos, pouco tínhamos para nos dizer, apesar de o silêncio também ter conforto e até felicidade. Amava-te, de uma forma incomum. Nunca te odiei, nunca me foste incómoda, e gostava de passar o tempo contigo.

Naquele dia, estávamos sozinhos num miradouro sobre um penhasco. Bem junto à beira, a sentir a vertigem da altitude e do vento que nos cortava o rosto. Lá muito em baixo, depois de uma queda quase a pique, um mar de árvores. Lembrava aquelas imagens que se têem quando se voa sobre uma almofada de núvens fofas.

Numa altura em que te debruçaste um pouco para a frente, para espreitar melhor a altitude, veio-me um impulso louco à cabeça, e sem me conseguir segurar ou conter, dei-te um pequeno empurrão. Só o suficiente para começares a cair, e ainda vi o ar de surpresa a mudar para pânico nos teus olhos, um olhar que nunca vou conseguir esquecer para o resto da minha vida.

 

Porquê? Porque não sou eu que escrevo as palavras, são elas que me ditam a mim.



sexta-feira, 21 de agosto de 2009



diz-se nos fóruns da in-ter-net

muitas coisas que são mentira. mas também há por lá, nos fóruns da in-ter-net, muitas verdades incómodas, e muita sabedoria disfarçada.

agora há muitos anos que não vou aos fóruns da in-ter-net, mas antigamente ia lá muito. foi lá que te encontrei, que te conheci e que te namorei, foi lá que casámos, numa cerimónia de palavras trocadas em mensagens e respostas, e apadrinhada por todos os que nos quiseram ler ou interferir com inveja mal disfarçada.

foi lá que vivemos o nosso romance intenso e apaixonado, nos fóruns da in-ter-net. como se fosse o nosso pequeno filme, a nossa curta metragem a muitas cores, a namorar palavras entre uma mensagem e outra, num sexo animal que os corpos nunca poderão reproduzir de igual forma.

depois desligaram a in-ter-net, e nunca mais te reencontrei.



quinta-feira, 13 de agosto de 2009



Heartburn

Na língua inglesa, esta palavra significa:

Heartburn or pyrosis is a painful and burning sensation in the esophagus, just below the breastbone usually associated with regurgitation of gastric acid. (daqui)

grito_munchEm português, para mim, é aquilo que se sente quando se nos aperta o coração, mesmo no centro do peito, e parece que estamos a arder por dentro, que temos de tirar a roupa e mergulhar na água para apagar a sensação.

Inútil, no entanto, porque o fogo é por dentro, não é físico mas químico, e não se apaga assim.

Ontem tive um final de dia terrível, adormeci no sofá enrolado como num casulo, querendo distância de tudo, e hoje vou ter um mau dia também, porque o fogo ainda está cá dentro.

E o pior foi que fui eu mesmo quem o ateou.

 

Amanhã posso começar a reconstrução. Faltam demasiadas horas. Hoje resta-me arrastar-me minuto a minuto.

Ri-te à vontade, t+35, gasta os smileys todos por aí. Isto já deixou de ser sobre ti há algum tempo. Já és só um quadro deturpado e uma memória-delírio a esquecer o mais depressa possível.

Conseguiste o teu objectivo. Eu já não sou eu.



sábado, 8 de agosto de 2009



o arranca corações

toda a gente conhece o santo graal, o cálice sagrado com o sangue de jesus. poucos conhecem o arranca corações, apesar de ter a mesma longevidade e ter impacto igualmente importante. como um alicate de dentista para arrancar dentes, o arranca corações, agora à venda nas melhores lojas, permite arrancar de corações os defeitos que deles queiramos remover, e purgá-los dos virus e células danificadas. também funciona com mágoas sentimentais, memórias, saudades, falhanços, traumas, dores, apertos no coração, e dizem que até seca lágrimas.

é vendido com duas pilhas AA, custa 49,99€, e se vires algum à venda, manda-me um mail, por favor.



sábado, 1 de agosto de 2009



it gets awfully quiet in that place

quase todos os posts que aqui deixo são inspirados nos títulos. aparecem-me na cabeça sem precisar de os trabalhar e pensar, e neste caso foi também isso que aconteceu. acordei tarde, muito tarde, depois de uma noite de vício, e veio-me isto à cabeça. acho que é de uma música, mas não estou a conseguir lembrar-me.

seja como for, depois de um sono irregular e conturbado, a frase faz todo o sentido para mim. fica de facto muito quieto por lá.

pode ser um sítio qualquer. mas eu sei onde é.

conheces A Terra dos Sonhos de que fala o palma? ele escolheu cantar-nos do lado positivo, mas também há por lá os pesadelos. e parece-me mais provável que fique quieto nesse outro lado do que no que foi cantado.

isto tudo para dizer o quê? que posso confirmar. no outro lado fica de facto muito quieto. e como o sei?

ora, tens cabecinha, não tens? usa-a.



sexta-feira, 31 de julho de 2009



Message in a Blister

jillbioskop_mulherarmadilha 

Jill Bioskop, em A Mulher Armadilha de Enki Bilal.

Quanto ao que está a fazer, só o sabe Gogol D’Algol, o Gato de Riscas Verdes.



segunda-feira, 27 de julho de 2009



amigos de mails de bonecos

a obsessão é lixada, não é? rima com paixão, ainda por cima. não que isso seja incomum. aposto que em português existem pelo menos mais 10 palavras que têm a mesma terminação, incluíndo esta que acabei de escrever. eu sei que é lixada, porque sei o que é viver uma obsessão. e tu, imagino que tu também saibas. é o que sentes e sinto agora. mas aos poucos, à medida que os dias passam, à medida que o que sentes dentro de ti se acalma devagarinho, que procuras fora de ti as ocupações que te limpam a mente, e vai doendo um pouco menos (só quando estás sozinh@), começas a ganhar batalhas contra essa obsessão. ainda te vais perguntando se não podias ter feito alguma coisa mais, recapitulando aqui e ali cenas boas ou cenas más, e congelando uma memória do que já não tens e já não vives. sei como isso é. os filmes que por vezes se fazem. “e se el@ me viesse bater à porta?” mandava-@ embora? mas a verdade é que a rotura aconteceu por um motivo, e sem isso mudar, antes penar (se é que) nos dias que passam. até ao dia que acordas mais leve e te sorri o coração, e de repente já não te dói, e o que resta são muitas fotografias arrumadas e outra oportunidade desperdiçada.

não sei se já passaste por isso. eu sim.



sábado, 25 de julho de 2009



Solos de Guitarra 'slide' [Um Post Orgânico]

[Vou usar este post como base, e crescê-lo por dentro. Em tempos planeei fazer isto com um amigo, mas nunca avançámos para a ideia. Faço-o sozinho eu. Vale tudo, desde que seja a acrescentar palavras e frases, em qualquer lado do texto. Um pedaço todos os dias. É um post orgânico e reciclável.]

Quando me encontro com ele pela primeira vez, parece um monstro sonoro que entra em nós p'los ouvidos e pela boca e se deixa ficar cá dentro, como um vírus sem início e sem fim que não se sabe onde começa ou como terminar/cortar/queimar de uma vez por todas. Quando acaba o concerto, e a música já parou lá fora, e o recinto está meio vazio, o som fica dentro dos ouvidos a zunir. No chão restam latas de bebida, copos de cerveja de plástico, inúmeros pedaços de papel, beatas. Os despojos do circo moderno. Muitas histórias para contar, não duvido disso. Mas o que me preocupa é a minha própria história, e o som que está a zunir dentro de mim.

 

Estou dentro do Castelo à espera dos concertos e está o Victor Démé a tocar no som recinto, aquele blues interior que me faz sentir como se tivesse uma faca espetada no coração (o meu), uma música familiar que me faz arrepiar e que em tempos troquei contigo, no dia em que gostaste da minha música. Há sincronicidades q jogam contra nós, e esta só me vem magoar e fazer mal. Não preciso disto, já não quero estar aqui.

 

Vi-te a semana passada, sentada na relva com o teu rapaz. Um vestido verde, sandálias. Não és alta, tens um nariz altivo, uma expressão que primeiro pensei arrogante mas se tornou simpática. Percebi-te social pelos amigos que iam ter com vocês e te cumprimentavam animados, e o que me fez olhar-te foi o longo cabelo castanho e revolto numa trança selvagem, que por vezes levantavas, e bem que podias ser tu a miúda 100% perfeita para mim, mas como nessa outra estória, não te vou conhecer, e o destino não vai fazer não fez por nos juntar. Melhor sorte na próxima oportunidade. Procurei-te em fotos como ao Wally, e pouco mais encontrei que sombras. Para quê pensar nisso? Todos os dias nos cruzamos com estranhos que nunca mais vamos voltar a ver. Todos os dias. E em alguns dias, cruzamo-nos com pessoas que conhecemos e vamos deixar de conhecer, e se o soubermos, esses custam mais a passar.

 

Há muitos anos atrás, cruzei-me com uma pessoa que acreditei ter encontrado pelo Destino. Sou ateu, não acredito em nada que esteja para lá do sensorial, sou céptico. Mas todas as minhas células gritavam que Era O Destino. (Eu e esse Destino temos de ter uma conversa um destes dias). E de facto foi o Destino, mas não foi bom. Há coisas que são o Destino, que são destinadas a acontecer, e que estão destinadas a acabar mal (ou até, muito mal).
Seja como for, não acredito nisso do cem por cento perfeito, ou antes, não acredito que só haja UMA possibilidade, UMA pessoa 100% perfeita para cada um de nós. Acho (acredito) que existem inúmeras possibilidades de cem por cento, em cada momento.
E eu – neste momento - não estou a procurar cem, nem setenta e cinco sequer. Já me chega de paixões.

 

Tem um aspecto simpático e divertido, um feitio brincalhão, e quem a conheceu em tangente disse-me que parecia doce, até saberem qual o sabor. Um pouco como as amêndoas que nunca se sabe se vão ou não ser amargas. Isto fez-me pensar em café, que muitos  - como tu – enchem de açúcar até parecer um bolo, e que prefiro tomar com o sabor amargo que na realidade tem. Se calhar foi por isto que lutei tanto por ti, por estar habituado a amargos de boca, e dores no coração. Uma forma de masoquismo apaixonado. Daqui a muitos anos, quando já estiver nada em jogo, havemos de ter uma conversa, quando as rugas formarem pés de corvo nos olhos e já não tivermos o mesmo brilho no olhar, e aí vou-te explicar o que nunca foste capaz de compreender. Sempre me pareceste doce, mesmo quando já sabia que não eras, mesmo quando já te tinha provado.

 

O pior já passou, desta vez. Podes respirar de novo, moço.



sexta-feira, 24 de julho de 2009



Direito de Resposta

Já comecei esta carta várias vezes. Tenho os restos das outras amarfanhadas no chão. Só escorrem de mim palavras que não as que te quero dizer, e não gosto das formas que têm. E não penses no que se segue como uma montra. Não o uses como um pedestal daquilo que podes fazer os homens sentir. Porque como te disse tantas vezes, eu não sou um Homem qualquer. E não sou um troféu.

 

Olá,

Já passaram 15 segundos desde que nos despedimos, conscientes de que o que tínhamos contra nós era mais do que o que nos juntava. Zangados. Triste. Sei que desta vez não vou atrás de ti, e que vais aproveitar isso para fugir de vez, a coberto do que chamas de incompatibilidade e eu chamo de outra coisa. Sinto que não me vou voltar a despedir de ti, nem te vou voltar a ver.

Estes 15 dias custaram a passar. Senti angústia e mágoa, senti altos e baixos, vontade de estar sozinho com o vento num penhasco junto ao mar, junto com amigos a beber copos despreocupados, a pôr música muito alto para não me deixar ouvir os meus próprios pensamentos, a gritar sozinho no carro para te expulsar de mim, a recorrer ao ódio e à raiva como muletas. A pensar que já passaste até um aperto me mostrar que ainda não.
Não te vou procurar, e queria que tu o fizesses, e aperta-se-me o estômago de saber que não te vou ver mais e que nada disso vai acontecer.

Passados 15 meses, recordo a insensatez que foi o nosso encontro. A tua irracionalidade, a ausência de travão nas palavras, a imaturidade, a juventude. Penso que foi tudo um erro. Uma relação diferente de todas as outras por que passei, diferente da que tenho hoje com Respeito e Confiança, mas que se destacou pelos motivos errados. Recordo ainda a paixão que senti, os sonhos que construí, com uma vaga mágoa, e pergunto-me como estarás hoje.

Há 15 anos atrás, quando nos separámos, sabia que não teria nunca funcionado. Hoje, quando penso no passado, sinto Saudades tuas, sinto a falta da nossa intensidade, sinto a falta do teu sorriso que já só recordo vagamente, e dos teus longos cabelos. Nunca mais soube de ti, e imagino-te a errar entre grupos de amigos, incapaz de te prenderes. Levo a caixa que tem o teu nome para fora de casa, e dou-te um último Adeus. Foi melhor assim.

Esta é a minha carta de despedida às despedidas, espero.

João



domingo, 12 de julho de 2009



Contadores de Histórias

Ontem e hoje participei numa workshop de Contadores de Histórias.

Éramos poucos: a Sofia a servir de guia de viagem, com o Zé Luis, o Rui, a Inês e eu a aprender. Fizemos inúmeros exercícios a brincar, para nos desinibirmos, para praticar a voz, e o ritmo, e a estrutura, a audição, e a imaginação…

e quão limitada está a nossa imaginação e espontaneidade pelos anos que passam, não imaginam…

Um dos jogos giros foi aquele em que um de nós tentava contar uma história inventada, com um anjo bom à nossa esquerda que nos segredava ao ouvido uma palavra que tínhamos de usar na história, e um demónio mau à direita que nos segredava palavras a evitar. Noutro, um conferencista estrangeiro vinha fazer uma apresentação, e tinha um intérprete ao lado para traduzir o que ia dizendo. O conferencista dizia uma frase numa língua inventada, grrrya yadadao liloliloli!, gesticulando, e o intérprete tinha de inventar uma tradução, “olá venho-vos falar de sabonetes”, e assim por diante. Os gestos e entoação do conferencista a influenciarem o intérprete, e a tradução deste a influenciar os passos seguintes do conferencista. Outro jogo ainda, a pares, foi contar uma viagem a um sítio inventado, onde tudo pode acontecer. Chamava-se o Jogo do Sim, porque tínhamos de concordar com tudo o que o nosso parceir@ dissesse, e alterar a história em conformidade. Muito divertido…

Já hoje, 2º e último dia, tivemos de levar duas histórias preparadas. Uma para ler aos colegas, outra para contar de memória. A minha escolha de leitura foi o conto “Curriculum Vitae”, do livro de contos do Ruben Fonseca “Os Prisioneiros”. É um conto literário curto, sobre um homem que toca bongo. Não te vou dizer como é a história, terás de a ler se quiseres. Emocionei-me em crescendo ao lê-la, e nas últimas 4 linhas, não consegui evitar algumas lágrimas. Na repetição, com lições aprendidas, num canto da sala rodeado pelos outros bem próximo, foi ainda mais difícil contá-la… Da segunda história já te falei, e até a podes ler agora se quiseres. Traduzi-a, claro. Tentei contá-la de forma a criar ambiguidade sobre mim enquanto contador (no início) ou afinal como participante (no fim). Duvido tê-lo conseguido: apesar de os ter tirado da sala e levado para o intimista ambiente do bar, e de tentar encarnar outra pessoa, e de não lhes ter contado nada sobre o que iam ouvir. Voltei a emocionar-me, várias vezes, e quase não consegui terminar.

«É uma história triste, não achas?»

É possível que depois do Verão façam o curso (não a workshop) de Contadores de Histórias. Se o fizerem, podem contar comigo.



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