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terça-feira, 22 de março de 2016



Dramatis personæ, diálogo

- Romeu
- Olá, Julieta
- Preciso de falar contigo
- Então?
- Reparaste que deixei de te responder às cartas?…
- Sim, claro. Porquê?
- Porque nos estávamos a aproximar, e tu não podes, e eu achei que era a opção mais sensata. E agora que nos vemos, é justo dizer-to.
(pausa)
- Fizeste bem. Obrigado. Já tinha suspeitado disso.
- Sim? Então?…
- Estavas a começar a fazer-me pensar. E não sou pessoa para tomar decisões sensatas, ainda bem que tu o és. (pausa) Despedimo-nos agora?
- Suponho que sim… mas…
- Então adeus, Julieta
(pausa)
- Adeus, Romeu

(e quando o pano cai, na sombra do invisível, colaram os lábios)



domingo, 14 de dezembro de 2014



Iuriy

It was a cold morning, that of October 9th, 2008 in Yevpatoria, Ukraine. Yuriy’s watch was showing 07:02 when he climbed the metal steps to the circular base of RT-70, and opened the locks. The 6º C and strong winds always got to him. He waved weakly to the television people setting up outside, and closed the door behind him.

One hour later the control room was clean, and there wasn’t a dust particle in the always-on computers. Technicians started coming in, and he retreated to his small room, with a window facing the back of the 70-meter radio-telescope, a few green trees on the plain outside.

He looked at his watch, his own special 1MWF Sturmanskie, given to him by his father, an astrophysicist and “failed cosmonaut”, as his mother always said. 08:27. He used it every day, but some days it felt heavier. It was just like the one Yuriy Alekseevich Gagarin had worn in the first Earth orbit in 1961, with a black bracelet and golden frame. Last time it felt this heavy was 5 years before, for Cosmic Call 2. Powerful signals were sent to deep space, to five different stars. The signal was due to reach the closest star only in 2036.

This time the target was closer. Gliese-581c, the third planet of star Gliese-581, smack in the middle of the habitable zone, believed to be a potential host for life because of the possible existence of liquid water, had been recently discovered. A super-earth, 5x the mass of our planet, its year lasts 13 days, and was found using the Radial Velocity method, where the wobble of a star is measured and used to deduce the presence, mass and size of planets around it. It’s a Red Dwarf, small and cold stars that can be comfortable for life because of their long lifetimes, and represent the majority of the stars in the Universe. Gliese-581 is one-third the size of our Sun, twice as old, and close to us at about 20 light-years away.

The popular press and social networks went wild when the planet was discovered, and the ensuing speculation led to that day: October 9, 2008. At 09:00, the A Message From Earth (AMFE) powerful radio signal was shot towards Gliese-581c, containing messages and photos selected from a global competition. The signal was expected to arrive in 2029.

After all the cameras and excitement of the television transmission, Yuriy was the last to go. A swipe of the floor, taking out the garbage, he turned off the lights and went home. He didn’t expect to be around for a return signal, 40 years in the future.

Shortly after the signal was sent, Gliese-581c was dismissed as a candidate for life. A likely runaway greenhouse effect, the scientific papers said, and temperatures exceeding 500º C. The search for life moved to other exoplanets.

But the signal went on.

 

It was the Spring of 2029 on Earth when the signal reached Gliese-581. Yuriy was in a hospital bed in Tiraspol, Moldova, exiled from home by the Russia-Ukraine war. It was long over, but he never went back. Aged 84, he slept most of the time, rotating the spring on the Sturmanskie every day.

The signal reached the 3 planets orbiting the star, closer to it than Mercury is to Sol.

Gliese-581c did not have a runaway greenhouse effect. Tidally locked, with the same side always facing the star, it has a permanent day affected only by huge sun spots, with the average temperature of about 12 degrees Celsius going down when they passed.

The center of the day-side, a roughly circular region that some would call Equator, received more light and was hotter. Mostly land, it was the home to two intelligent species: the Coldbloods inhabiting mostly in the center, and Hotbloods mostly on the coast. All of them short and strong, with wide 4 and 2 legs respectively. With the sunny side being about 450x the surface area of the Earth, there was no lack of space or need for conflicts. Plus, it was too tiring - time in 581c went by slowly. The ocean, which was circular and occupied the outer half of the planet, all around and near the dark side, was made of freshwater, and had been the source of life millions of years ago, when its metallic core was more active and volcanoes spewed lava and created solid land.

The dark side is only reachable by longboats, and only the Hotbloods go there, fascinated by the day turning into night, the water that turns into ice, the dancing lights in the sky that start halfway in the trip, and the shinning dots behind them. All around the planet, auroras that never sleep mark the separation between the day and dark side. Their cause is the same as on Earth: charged particles from the star’s winds hit the magnetic field, interact with it and cause currents of charged particles that travel to the circle that separates day from night. Reaching the atmosphere, they collide with the nitrogen and oxygen that compose it, excite them, and cause them to emit light. The Hotbloods see in the infrared, where the star emits most energy, so the color that they see in the sky is a dancing, fascinating, hot, blue.

100km into the dark side, the Hotbloods have built their first antenna facing the shiny star-dots. It took them almost 100 years to build, and 10000 years later, it had mapped the sky, the unreachable shinning dots, found thousands of planets, transmitted messages every day, waiting for a reply that never came. And even the long-lived Hotbloods grow tired. “Nothing out there”, they concluded. As it was powered off, the last Hotblood slowly entered the skidvehicle under the antenna, maybe sad of what was being left behind and would not resist the cold for long. “Nothing out there”, he thought, as the AMFE signal entered the atmosphere.

 

Back on Earth, Yuriy’s heart stopped beating.

 

 

[nota: escrito como exercício final para um curso Coursera, “Imagining Other Earths”. Poderia simplificá-lo para tirar alguma da ‘hard science’, mas fica assim]



sexta-feira, 29 de março de 2013



José e Maria

José sentia a transpiração, que lhe encharcava a camisa com o calor abrasador que vinha de cima e deixava tudo seco e quente ao toque. Dos cabelos escassos e normalmente secos caíam pingos que levantavam pó seco ao tocar o chão, como uma bomba atómica no mar. A sombra que fazia no chão era o local mais agradável de todo o mar de calor em seu redor, de tão quente que lhe subia pelas calças adentro, fazia transpirar as pernas, o aquecia a ferver. Sentia nas mãos os nervos de uma pequena árvore rugosa, morta, que queimava ao toque, e onde não encontrou nada que pôr na boca. José estava molhado por fora, mas seco por dentro, e na boca seca só entravam as gotas salgadas que escorriam do rosto.

A casa estava perto, e sentia no ar um vago cheio a feijões, o almoço que imaginava na boca e saboreava, a água fresca onde queria encher-se e mergulhar o rosto, mas não conseguia abrir os olhos, a luz branca e quente do céu cegava-o, o calor roubou-lhe o caminho de casa. José estava parado, apoiado na pequena árvore, a tentar adivinhar o rumo para Maria.

Na casa quadrada de uma divisão só, como um oasis na terra amarela frinchada por milhas e milhas em todas as direcções, Maria encostava o nariz aos vidros quentes, à espera de José perdido. Beijou-o com os lábios generosos, como se beijando o vidro beijasse a José e a tudo o que estava lá fora, e aquele sinal marcado em cada um dos quatro pontos cardeais o pudesse guiar de volta. Chamou por ele baixinho, na sua voz calma e segura, pediu que não se demorasse, disse que precisava dele, que nunca devia tê-lo deixado sair com aquela idade.

Respirou fundo, deixou húmido o vidro em que tinha acabado de deixar um O, e foi abrir a arca. A tampa chiou, no silêncio ouviu-se com perfeição cristalina a fechadura de metal a bater e ceder. As mãos procuraram o tecido em fibra por baixo de todos os cobertores de lã, as camisolas que lhe picaram a pele há mais de 70 anos, quando brincava nos jardins onde os pés se enterrava com um sploch na neve, as camisas brancas e arejadas com cintura delgada de menina, de quando a grande seca ainda não tinha começado. Lembrava-se de ser branco, de ser fresco, do cheiro a novo que agora tinha sido substituído pelo de poeira e anos acumulados.

Vestiu-o, supreendendo-se por o corpo de 80 ainda caber no vestido do corpo de 20, e por ter deslizado com tanta facilidade. Arrastou os pés descalços pelo chão de madeira morno, sentindo os sulcos entre cada ripa, puxou a cadeira de madeira em frente à mesa, com pratos postos, o mesmo feijão que de tantos anos já lhes sabia a todos os dias, mas que os confortava aos dois, com o cheiro que enchia a casa quadrada de uma divisão só. Esticou a mão para a jarra de água fresca, puxada do furo profundo debaixo da casa, sentiu no frio do vidro as gotas de água gelada que continha, e sentou-se para esperar.

 

 

E quando já não o esperava, e em toda a casa nem o pó se mexia no ar, sentiu o rodar da maçaneta a encher tudo.

 

(proposto pela Sofi)



segunda-feira, 9 de abril de 2012



Pedra Preta

Uma limpeza. Vieram por entre a neblina ao nascer do dia, vi-os descer o monte com erva verde de inverno, e levaram tudo o que não estava preso ao chão. Mulheres, crianças, velhos, tudo o que tivesse valor. Os homens em idade de lutar já tinham fugido. O meu pai fez-me prometer que não saía do celeiro, que esperasse pelo regresso dele, e desapareceu por entre as árvores da floresta. Levava um farnel às costas, num saco de pano castanho que a minha mãe lhe tinha dado há muitos anos atrás, em dias melhores.

Do alto do celeiro vi tudo o que se passou na aldeia. Sem me mexer, vi a passividade das pessoas, a incredulidade revoltada. Serem levados como cordeiros, à força das armas, a história do homem a repetir-se em pleno século XX. O padre, o cura, o senhor da venda que na semana passada me deixou cair a caixa de pepinos no pé. No hospital engessaram-me e mandaram-me ficar sem me mexer duas semanas. Ao fim do primeiro já tinha assinaturas de todos os amigos, um census da aldeia escrito no gesso.

Olhei o céu, vi a nuvem, branca como uma folha de papel, perfeita e redonda mesmo em cima de nós, espectadora impávida do espectáculo que sob os seus panos se escrevia. Dois tiros levaram a paz ao padeiro e à mulher, pelo atrevimento de defender o forno dos hirsutos de uniforme militar. Assustei-me, soltei um grito mal contido, quando os vi cair. Ele devagar, para a frente e dobrando-se sobre ela própria, ela projectada para trás com violência.

Vieram-me buscar pelos braços, a arrastar pelo chão e quase largado escadas abaixo.

“É um miúdo”, ouvi as vozes lá em cima, por entre pernas e canos de espingarda. “Não consegue andar”. “Pena.”, responderam-lhe. E ouvi o estampido, num cavalo humano.

 

Na noite que caiu depressa ouvi uma voz de mulher a cantar, com aquela melodia tão balcânica que tão bem conheço, suave e fria, e perguntei-me se seria a minha mãe, de quem só lembro umas fotos a preto e branco.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010



Last Night

caTSFicámos à frente da televisão, já não sei se a ver um filme, se a jogar um jogo. Mas adormeceste no sofá ao meu lado, e tive de com carinho te roubar da ronha e levar para o quarto comigo, enquanto protestavas com birra de sono. Fingiste que querias dormir, mas agarrei-te e beijámo-nos e… fizemos amor um com o outro. Com carinho, com paixão, com entrega, uma fusão de corpos e de espíritos, um prazer profundo e único, uma comunhão que me preencheu total e absolutamente e me deixou... feliz.

Adormecemos juntos, agarrados, a respirar no teu pescoço, junto ao teu calor, corpo com corpo, quase só uma pessoa, poucas coisas poderiam ser tão especiais como estes momentos. Se a vida fosse sempre assim todo o planeta seria um sítio muito mais feliz.

E esta foi a nossa última noite juntos.



domingo, 12 de dezembro de 2010



Comunicado Oficial da Presidência da Pessoa João

Concidadãos,

depois de aturada conversação e avaliação das circunstâncias que tão recentemente afligiram o nosso rectangular ser, gostaríamos de aproveitar a oportunidade para clarificar junto de todos um facto de que apenas há pouco tomámos conhecimento racional.

O motivo para o atraso na revelação deve-se à complexidade do processo auto-reflexivo em si, que c0m frequência levou este comité para observações circulares e argumentos e memórias secundárias, que tornaram impossível uma objectividade que apenas circunstâncias que poderemos classificar de extraordinárias permitiram revelar.

O facto em causa refere-se como não podia deixar de ser ao recente encerramento da relação com a Pessoa Que Não Vamos Nomear, nas circunstâncias que são por todos e pelos demais desconhecidas. Ao contrário do que até agora veio sendo vinculado na comunicação social, wikileaks, e inclusive comunicados anteriores à imprensa, sobre a reduzida dimensão do que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear, o que a Pessoa João pretendia da Pessoa Que Não Vamos Nomear não era efectivamente pouco ou limitado.

Não sendo obviamente algo que fosse pretendido para agora, para o já, e serem de esperar anos e meses de maturação da ideia e de avaliação mútua das duas Pessoas envolvidas (e respectivos cidadãos), que como é de todos conhecidos têm diferenças que seria necessário avaliar e compatibilizar, o objectivo claro da Pessoa João era efectivamente forjar laços com a Pessoa Que Não Vamos Nomear de uma natureza permanente e duradoura, que teriam de ser construídos meticulosamente com base em afectos e agradabilidades mútuas mas construtivas e progressivas, e que porventura passado algum tempo resultariam em uma ou duas Pessoas Júniores e, se fosse vontade de ambos, numa união de natureza civil-matrimonial.

Desta forma desfeita falta de informação, e cientes de que o presente esclarecimento em nada altera os eventos já colocados em movimento, cumpre-nos lamentar a demora no processo reflexivo que permitiu a esta Pessoa chegar a esta conclusão, e a consequente demora na informação aos cidadãos, e esperar que em eventuais processos futuros esta clarificação e compreensão seja atingida de forma atempada.

Lamentando o sucedido,

P’la Presidência da Pessoa João,

-joão



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



Maldito Orgulho

Acordou devagar como sempre, entorpecido de uma noite longa, com a sensação de que alguma coisa estava errado. Já se estava a levantar quando se lembrou de que ela já não estava na sua vida.

Romperam violentamente na noite anterior, rasgaram tudo o que os tinha juntado, sem olhar para trás ou tentar perceber porquê, não houve sanidade nem violência, mas uma calma fria e cortante e incompreensível e distante, como se nem fossem eles que estivessem ali, como se não quisessem ou pudessem dar-se ao luxo de admitir que se calhar até gostavam um do outro e que as coisas podiam até resultar, porque isso era fraqueza.

Romperam violentamente, e sabia que não se iam voltar a ver. Podiam pensar um no outro, podiam querer voltar a estar juntos, de certeza que se iam perguntar o que raios lhes tinha acontecido, mas não iam mexer-se para inverter fosse o que fosse, e as linhas iam divergir inevitavelmente. Ambos conheciam as regras do jogo, jogavam-no há demasiado tempo, e sabiam dos flancos que só se expõem uma, no máximo duas vezes na vida. Não o iam fazer outra vez.

Mas quando se joga à defesa não se marca, e o maldito orgulho não os deixou sair de onde estavam, cada um por si, a retomar a sua vida normal. 85% mais pobres, que estupidez tão trágica.

Não foi capaz de sair da cama, nesse dia.



(ps: não foi orgulho. foi não quererem a mesma coisa. mas ele escreveu isto antes de tudo acontecer)



domingo, 25 de julho de 2010



Carolina

A cota está toda arranjada, hoje. Deve ter um encontro ao final do dia. Sentada à minha frente a tentar olhar-me nos olhos, com as mãos em cima das pernas cruzadas, à espera que eu fale, responda, ou faça qualquer tipo de movimento. Não tenho qualquer intenção de a satisfazer.

“É a quinta vez que cá vens, Carolina. Vais continuar sem dizer nada?”

Outra tentativa. A seguir vai perguntar se não me incomoda desperdiçar assim uma hora por semana. Vai recordar-me que é imposição legal e dos meus pais, e apelar-me ao sentimento de culpa. Sim, é uma perda de tempo, completa. Mas não estou aqui por minha vontade, e nada vai mudar isso. É palerma, se acha que lhe vou falar de mim. Quem julga ela que é? E a chamar-me Carolina? Parece de propósito para me irritar.

“Os teus pais disseram-me que começaste a ler muito nova. De que livros gostavas?”

Ok, conseguiste irritar-me. Andaste a cuscar com os meus pais. Para saber de mim. Quem te deu o direito? Começo a sentir-me tensa, posso até ter pestanejado sem querer. Fónix, raios os partam. Sim, mulher, comecei a ler muito nova. Li o Lolita. Queres que te fale disso? De como me tornei amiga dela e me seduziu o poder que tinha sobre o pobre Humbert? Sobre o mundo, até? Pois sim é verdade. E daí vais concluir que foi por isso que acabei aqui neste escritório quente, com pouca luz e cheiro a bafio, sentada muito composta em penitência com os joelhos juntos e a olhar para a parede do outro lado. E até podias ter razão, mas não te vou dar o prazer de o saber.

“Não te vou tratar com uma criança, Carolina. Estás a portar-te como uma adolescente. Igual à maioria dos outros da tua idade com quem falo, todos os dias. Revoltados com a autoridade ou mundo em geral.”, disse a voz com olhos directos e tom de constatação.

Tirou um curso em irritação, de certeza. Tenho de ver o que posso fazer acerca disso. Onde morará? Não, minha amiga, penso comigo mesma, não sou igual aos outros que por aí te entram. E se me irrito é porque me estás a fazer perder tempo. Tenho coisas para fazer lá fora. Hoje apetece-me uma tatuagem. Isso. Um falcão com garras afiadas, por trás do ombro direito, em voo picato. Os cotas vão-se passar, e vai ficar fixe no meu perfil. E se continuas a chatear-me, ponho-te a ti nessas garras, mulherzinha.

“Bom, vamos recomeçar. Eu não tenho nada melhor para fazer, Carolina. E tu achas que tens, mas não podes por minha causa. Sabes porque estás aqui?”

Claro que sei, penso, sem um pestanejar. Deve pensar que sou tola, além de calada. Os meus pais acham que sou anti-social, que não tenho amigos, que passo demasiado tempo a mandar mensagens e na net. Quem os mandou mudar para Almada, não estávamos bem em Lisboa? Também deviam querer que vestisse cor-de-rosinha em vez de preto, ou andasse de saltos altos e não botas. O que têm eles a ver com o que faço? São só os meus pais, e não devo precisar deles muito mais tempo -- já tenho o meu império, que me segue cada curta frase, que controlo por palavras e abreviaturas, e que fará tudo o que eu quiser.

É verdade, a Carolina não tem amigos. Mas para os amigos não sou Carolina. Sou Orange, Lady Orange. E tenho milhares de amigos.

 

--

A partir de um desafio de Lady Mary Jane. Elementos a usar: Carolina – para os amigos Lady Orange, Adolescente, Não gosta de saltos altos, Almada, Quer fazer uma tatuagem.



domingo, 9 de maio de 2010



Coração de Borracha

Isto aconteceu há mais de 20 anos, e fala de uma miúda chamada Susana, nos seus 12 anos talvez. Uma das minhas primeiras paixões.

Não nos falávamos, e só te conhecia de vista apesar de estarmos na mesma turma. Tinhas um olhar distante e dono de ti. Não eras linda, mas tinhas alguma coisa especial que me chamou atenção. Podia jurar que tinhas olhos cinzentos, mas posso estar enganado.

Não me lembro do teu rosto ou do teu olhar, e não te reconheceria na rua. Também não te falaria, se reconhecesse. E não te ia contar a história do coração de borracha.

 

Era Vermelho, cabia na palma da mão, e devia dizer “I Love You” em letras brancas. Deixei-to em segredo dentro da mochila num intervalo entre duas aulas, junto com uma mensagem de amor. Naquela altura eram moda as pequenas borrachas com formas e mensagens, e havia quem as coleccionasse. Miúdas.

Não sei bem como, mas acabou por voltar às minhas mãos, e nunca nos falámos sequer. Talvez tenha aparecido, devolvida num intervalo, na minha mochila.

Quando o ano acabou e mudei de escola, vi-te de mão dada com um amigo que já vestia só de preto, ouviam-se os Art Company ao fundo a cantar o teu nome e rir-se de mim.

Já a pequena borracha vermelha em forma de coração, essa seguiu-me muitos anos.



quarta-feira, 3 de março de 2010



Valsa no Fim do Tempo

Foi uma despedida, aquele dia. Quando acordei de manhã, sabia que ia ser um dia de despedida. Alguma coisa no ar parecia segredar-mo. Não acredito em premonições, mas tinha aquela sensação de que alguma coisa ia acontecer. Sentia-o todos os dias, normalmente ainda de manhã, normalmente pouco depois de acordar, normalmente para o esquecer pouco depois.

Mas naquele dia aconteceu mesmo.

Actualmente há quem comemore o fim de um casamento com uma festa de despedida de casamento. Há quem não as compreenda, por um fim de casamento ser um sinal de fracasso e de fim de amor. Há quem encare como mudança, e sinta que precisamente por ser mudança e recomeço, deva ser comemorada.

No livro mais conhecido do Heinlein, "Estranho numa terra estranha", há uma festa quando alguém morre. Como forma de ficar com um pouco dessa pessoa em si, pode até comer-se um pedaço dela. Lembra o horrendo final do "Bébé de Maçon" no filme do Peter Greenaway.

Conversámos, frente a frente, quando chegámos a casa ao final do dia. Tu e eu, os teus olhos e os meus olhos. Não foram precisas muitas palavras. Terminámos com um "Está decidido, então". Saíste de casa para ir ter com uma amiga, eu fiquei a fitar a imensidão de pormenores do tecto branco natureza.

Marcámos a festa para daí a um mês, quando já estavam os papéis assinados, já as famílias sabiam e se conformaram, já os amigos sabiam e tinham tomado lados. Havia mais que duas pessoas a separar-se, quando aquele papel fosse desassinado em triplicado.

Escolhemos um restaurante bar conhecido, que alugámos só para nós. Escolhemos a ementa os dois, eu os pratos de carne e ela os pratos de vegetais. Decidimos quem ficava em cada mesa e a sua disposição na sala, escolhemos nomes de filmes e livros para dar às mesas, fizemos os convites fashion numa gráfica. Contratámos um DJ, que ia passar à vez as músicas de um e as músicas de outro, e terminar com uma valsa para ser dançada a sós pelos dois recém-separados.

A festa foi um sucesso. Mais de duzentas pessoas acabaram por aparecer, algumas depois de muita insistência. Houve cantoria, divorciado e divorciada lançados ao ar à força de braços, o atirar do bouquet à sorte de uma das casadas da sala. A minha prima já andava insatisfeita, quando apanhou as violetas veio-lhe um sorriso ao rosto.

Fechámos como havíamos aberto. A dançar a valsa que escolhemos, só os dois na pista, rodeados pelos convidados, e ao som das palmas quando terminámos, demos o nosso último beijo nos lábios.



sábado, 27 de fevereiro de 2010



Eu faço os dias

Já não tenho paciência para os aturar. Tanto de dia, como de noite, 90% dos meus clientes são homens. Estou FAR-TI-NHA.

Partilho um táxi com a Gisela, da Guarda. O patrão acha que ter mulheres ao volante é bom para o negócio.  Eu faço os dias, ela as noites. No bar, é ao contrário. Ela faz os dias, eu as noites. Os homens de Fernão Ferro sempre preferiram as roliças na passerelle, e babam-se quando me vêm tirar peça de roupa depois de peça de roupa. Pena serem um tesos, se não fossem já não andava nisto.

Há dias reparei num que todas as noites aparecia à minha hora, se sentava bem à minha frente, e ficava a beber um whiskey e olhar-me com ar tímido. Dias a fio disto chamaram-me a atenção para ele. Doidos destes já os conheço bem. Acabou por me pedir uma dança, e balbuciou que se chamava José e me admirava muito, queria casar comigo, amava-me e achava-me a mulher mais bonita do mundo. Não lhe dei resposta, e despachei o serviço que me ia pagar a revisão do carro na garagem.

Hoje chamaram-me para um serviço no Barreiro, e quando chego entra-me no carro o José, de mão dada com uma mulherzinha baixa. Queriam ir para o aeroporto. Vi-o ficar vermelho que nem um chouriço quando me viu, e quase me ria para dentro.

Deixei-os na Portela e parei na estação de serviço para beber um café e fumar um cigarro.

“Malandros. São todos uns malandros.”, pensei ao cuspir a beata e voltar para o carro.

 

(este texto foi o exercício final do curso de escrita de viagens, um desafio de escrita livre, com base num conjunto de elementos fornecido por um colega: taxista de dia – Ernestina e stripper à noite – Priscila; o texto devia incluir ainda uma garagem, uma bomba de gasolina, um copo de whiskey, e ser passado em Fernão Ferro). O colega em causa chama-se José… (nota: pseudónimo)].



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010



Vermelho da cor de chouriço

Qual foi o meu melhor pôr-do-sol? Lembro-me de mais nasceres do sol do que de pôres-do-sol. O que não faz sentido, sabes que sou noctívago. Um de cada? Tenho de pensar. Lembro-me de um pôr-do-sol em Dubrovnik, pouco depois de chegar à cidade. Não foi especialmente bonito, e o céu não ficou vermelho da cor de chouriço, mas lembro-me desse, e que havia o brilho do sol no mar, daqueles que nunca ficam bem nas fotografias. Nascer do sol lembro-me de um nos Açores, em São Miguel. Passei a noite aninhado no carro, desconfortável e tapado com um saco-cama, para ver o sol a nascer na Ponta da Madrugada. Hem? Como foi? Estava nublado, não vi nada. Que pôr-do-sol gostava mais de ver contigo? Só me fazes perguntas difíceis, ainda para mais a esta hora da manhã, amor. Deixa pensar. No Pólo Norte, talvez. Quando o sol se põe por seis meses. Queixam-se os vinte e nove de fevereiristas de barriga cheia - lá em cima, só há um dia por ano. Sabes que os Inuit acreditam que se cantarmos ou assobiarmos para a aurora boreal, ela nos leva para o outro mundo, ou mais prosaicamente vem e nos corta o pescoço? Ainda hoje contam a estória às crianças. Já não chegava o medo do escuro, que começa com o pôr-do-sol.

Vamos?

[viagens… um texto sobre o pôr-do-sol]





Par

Deram-me os dois pauzinhos num restaurante chinês no Soho em Londres, para assinalar os 20 anos de existência do local. Eram todos diferentes uns dos outros, e os que escolhi são pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo, com uma pequena bolsa de tecido bordeux a mantê-los juntos. O final da refeição trouxe também o obrigatório bolo chinês, que dizia: “When you find the other pair, you will have found your pair”. Pareceu-me enigmático já na altura, e provavelmente uma tradução errada.

Isto foi há quase 3 anos, e desde aí andei sempre com os eles.

 

Conheci-te ontem, numa conferência a que ambos viémos. Simpatizámos um com o outro, e combinámos um jantar oriental na ChinaTown de Seattle. Caminhámos juntos do Hotel, escolhemos um restaurante pela cor do néon sobre a porta, entrámos e sentámo-nos. Escolhemos na ementa o 37 e o 42, e pedimos duas Tsin-Tao para acompanhar a conversa.

Quando veio a comida, a fumegar numa chapa quente, vi-te tirar da mala – como que em câmara lenta - uma pequena bolsa de tecido bordeux que mantinha juntos dois pauzinhos chineses, pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo.

Respirei fundo, irrequieto por dentro e nervoso demais para falar, e tirei os meus do bolso do casaco. Os pares eram idênticos ao mínimo pormenor.

 

[inspirado em… dois pauzinhos chineses, pretos e decorados com motivos simétricos em branco no topo, mantidos juntos por uma pequena bolsa bordeux]



sábado, 6 de fevereiro de 2010



Heróis do Bar

«Depois de rodadas consecutivas de margaritas, “Pablo y Sus Muchachas” – assim auto-denominadas ao fim de 4 dias no México – não tinham como não “borrachos”. O pior era que, na mesa ao lado, uns mexicanos puros com ar de poucos amigos estavam igualmente “borrachos”…»

… os tons de voz exaltavam-se com o avançar da noite, e começaram a picar-se os locais e os estrangeiros, com desafios indirectos de um lado em espanhol e em portinhol do outro.

O Bar estava cheio, o ambiente denso e com fumo, um barman de pescoço curto atrás de um comprido balcão de madeira servia impávida e eficazmente. Quatro grandes televisões debitavam decibéis e desporto para quem o quisesse ver.

Pablo, a vedeta da banda portuguesa, não aguentou a tensão no ar, e levantou-se com ar solene. “Muchachos, bamos a cantar la gloria de Portugal!” As “muchachas”, que por cá seriam conhecidos por João, Rui e Zé, levantaram-se também em volta da mesa, de copo na mão e a limpar a garganta.

“Heróis do maaaaaar…” É difícil, cantar o hino em ritmo mariachi.

O bar ficou em silêncio. Curiosamente, não hostil, mas com respeito. Quando a atrapalhada cantoria terminou, os outros presentes, da mesa ao lado e não só, replicaram solenemente com o hino mexicano.

Estavam feitas as pazes, entre gargalhadas e brindes. Pouco depois, começava o Portugal-México do Mundial. O México perdeu. Mas ninguém se importou muito, já eram amigos.

 

[Exercício do curso de escrita de viagens: completar, em 10 linhas (… que excedi claramente), a frase inicial entre aspas]



terça-feira, 19 de janeiro de 2010



O miúdo e o Mar

“Samuel. Sou o Samuel.”

Foram as primeiras e únicas palavras que lhe ouvi toda a semana, ao leme do pequeno barco de pesca. Não parecia ter 14 anos sequer, um sorriso maroto nos lábios, e muito pouco português.

Tinha ido a Cabo Verde para conhecer o fundo do Mar, mergulhar em condições artesanais em águas maravilhosas e muito pouco exploradas. Ver tubarões. O nosso guia e e dono do barco, o Carlitos, era pescador com arpão sempre que não tinha clientes europeus, o que era aliás raro.

Enquanto mergulhava, o Samuel ficava à superfície a tomar conta do barco, com aquele ar simples e a pele negra brilhante ao Sol, o mar calmo e deserto a reflectir o céu.

 

Voltei lá um ano depois, e reencontrei o Carlitos, agora sozinho com o seu barco. Perguntei pelo Samuel. Disse-me que tinha ido trabalhar para a cidade. Que tinha mulher e dois filhos para sustentar. Que tinha deixado o Mar.

 

 

[2º exercício do curso de escrita de viagens; história quase verídica; hei-de postar aqui uma foto do “Samuel”]



quinta-feira, 7 de janeiro de 2010



Serenada à Chuva

O dia estava seco, o céu azul cheio de sol e sem uma nuvem sequer. Debaixo de nós os dois já tinham passado 400 quilómetros de terra vermelha, sem se ver vivalma. É aborrecido conduzir no deserto, a única companhia lá fora os lagartos à beira da estrada e os sinais a avisar para ter cuidado com os cangurus.

Era fácil conduzir no lado errado da estrada quando não se via ninguém, e a minha companheira pediu para experimentar. Parei, trocámos de lugar com o calor a voar do chão , e recomeçámos o caminho, ainda a 50 quilómetros do parque onde iríamos passar a noite.

Não andámos cem metros sequer – juro – até o céu se encher de nuvens cinzentas muito escuro, e gotas grossas esconderem a estrada à nossa frente.

Acabámos por parar, debaixo da chuva torrencial, sem conseguir ver nada, a olhar lá para fora calmamente e sem palavras.

Só a mim, pensei a sorrir: vir apanhar isto no coração do deserto vermelho. É outra história para contar.

[1º exercício do curso de escrita de viagens; história verídica]



quarta-feira, 23 de setembro de 2009



tudo começou quando

Foi num daqueles dias de Outono que amanhecem soalheiros, e à medida que as horas avançam se vão entristecendo e acizentando, e lembro-me como se fosse hoje. Presta atenção ao que te vou contar.

O sábado amanheceu com sol, e sem núvens no azul celeste. Parecia um Verão de São Martinho, sabes? A aquela altura do ano associam-se árvores a despir e pessoas a vestir, e não dias como aquele. Segui com o olhar um pássaro solitário que passou à minha frente, a voar sobre o rio, para a outra margem. Um voo alegre como aquele só podia ser de uma andorinha, pensei. Ou um pombo, e levar a minha mensagem secreta, a pequena nota que te escrevi. Eh. Não me ligues, estou a distrair-me. Deixa-me continuar.

O dia parecia não poder ser pior para o que queria fazer, lindo e brilhante. Atravessei a ponte a pé, o chão ainda molhado da chuva da véspera, o ar limpo e agradável de respirar, e fui para o café onde nos tínhamos combinado encontrar, para mais um café e pequeno-almoço a ler o jornal da manhã.

Nesse dia levava-te uma despedida como surpresa.

Estava cansado, estava triste com o fosso entre nós no teu olhar, desanimado com ter de escalar os muros do teu castelo, como se todos os dias tivesse de reconquistar o mesmo pequeno pedaço de terra, todos os dias o mesmo ritual e a mesma batalha.

Ia dizer-te adeus, sabes? a nota que escrevera tinha tudo o que te queria dizer, o que esperava conseguir dizer-te, o que esperava ter decorado palavra-por-palavra, e que tinha de sair de mim num só fôlego.

Porque nunca te disse? Não sei. Depois do que aconteceu, deixou tudo de fazer sentido.

Fui o primeiro a chegar, como era costume, e pedi o mesmo de sempre, enquanto olhava para as pessoas e esperava por ti e pelo teu olhar perdido ensonado dos sábados de manhã. Vi-te dobrar a esquina e vir em direcção a mim ao mesmo tempo que a música que começava a tocar na rádio me envolveu, e à medida que te aproximavas, como numa bolha de sabão, tudo lá fora deixou de importar. Vi o teu cabelo de quem acabara de se levantar, o teu andar decidido e preguiçoso, e o teu sorriso como nunca vi outro a nascer. Amachuquei a nota de papel que tinha no bolso, e sorri-te de volta.

Sim, claro que me lembro da música. Queres ouvir, imagino… Mas o importante é que há alturas, meu amor, em que é preciso arriscar. Por vezes o destino sorri.

Como fez connosco.

Outro desafio, o terceiro, da mesma amiga. As palavras que serviram de inspiração? Interessam mesmo? Lamechas? So what.



quarta-feira, 16 de setembro de 2009



mulher com dois olhos de trovão,

porque te conheci? porque te aproximaste de mim e se cruzaram os olhares? fizeste-me estremecer os nervos do corpo, a terra abanar, e passarem-me relâmpagos eléctricos pelos olhos. verdes como os dos gatos, a brilhar na noite, é impossível não ficar preso ao que não sei ser. semeaste o caos na minha vida. não saio à rua sem ver no céu se lá estás, se me vais assustar com o teu grito, ou iluminar as noites com o teu brilho enquanto durmo com os estores apenas meio fechados, para te deixar entrar a ti para junto de mim.

o tempo começa a estar fresco. começo a precisar, aos poucos, do teu calor. mesmo que seja para acabar por ficar acordado.



segunda-feira, 14 de setembro de 2009



nunca ninguém pergunta pelo três de paus

Vivo num castelo de cartas tão sólido que resiste à força do vento. São cartas manuscritas, cartas enviadas e não enviadas, cartas recebidas e cartas que quis ter recebido.

O meu castelo é rodeado por um fosso cheio de água, cheio de crocodilos e suas lágrimas, e tem duas portas, ambas cartas de jogar. Uma, a da direita, é um preto três de paus, uma porta de que prefiro não falar. A segunda, a da esquerda, é um encarnado Ás de copas, e só se vai abrir no mais especial dos dias, e para a mais especial das pessoas. Por mais mais forte que empurrasses, por mais rápido que corresses, nem que passasses a velocidade do som a conseguirias derrubar,

se não fores tu a pessoa certa.

Às vezes fico a olhar para a carta encarnada com o Ás de copas, com mágoa suspirante de não a ver abrir-se devagarinho, com o mistério de não saber quem a poderá atravessar.

Vivo num castelo de cartas, na minha caixa de cartas, escritas ou recebidas ou jogadas por mim ou contra mim, e quero ser eu capaz de abrir a porta, sair lá para fora, e deixar tudo isto para trás de uma vez por todas.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para escrever um texto a partir das palavras seguintes: encarnado, água, caixa, lágrima, olhar, vento, velocidade, castelo, força, mágoa. (isto foi a segunda versão)



quarta-feira, 9 de setembro de 2009



setembro por dentro

tirei-te uma fotografia ao rosto da minha janela, quando caminhavas pela rua na minha direcção, sem me veres. sem o saberes, sem eu o perceber também, senti que eras mais que um retrato a ampliar, a preto e branco, numa moldura grande que viria a pendurar numa parede.

estávamos em setembro, aquele mês em que o tempo ainda nos deixa passar noites na praia a conversar com a luz da marginal por trás, à procura de um beijo num intervalo da conversa, em que se começam a escrever nas folhas de papel dos diários histórias que começam com “era uma vez” que duram anos, histórias de amor que começam com a paixão dos estores para baixo em quartos quentes da respiração ofegante de corpos aos pares, e terminam… ou não, quando o nosso destino o quiser.

quis conhecer-te, imaginei enquanto apertava repetidamente o botão os teus lábios macios e um abraço apertado e quente, num instante vi passar-me pelos olhos -  como se à beira da morte - toda uma vida alternativa, e nasceu-me um sorriso nos lábios. quis-te.

estranha sensação esta. pouco depois deixei a janela, e com memória de peixe, esqueci o que tinha pensado e a sensação de alegria que me deixaste. só ficaste tu. num rolo a revelar dias depois, e onde o teu sorriso e o verde invisível dos teus olhos me faria perguntar em voz alta porque não correra para falar contigo.

 

A partir de um desafio de uma amiga especial para criar uma história a partir das palavras seguintes: peixe, estores, folha, beijo, relógio, amor, paixão, setembro, tempo, direcção, janela, fotografia.



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