sexta-feira, 4 de setembro de 2026



Se fosse morrer daqui a uma semana

Agradeceria o quê, do que tive na minha vida. Acho que por comparação com outros, tive coisas de enorme felicidade, e experiências privilegiadas. Ou pelo menos que o foram para mim.

Escrevi num papel, e saiu isto.

A música. Vi inúmeros concertos de bandas de todo o  mundo, muitos festivais, muitos momentos de arrepiar, coisas de que lembro e mais coisas de que já me esqueci. Desde aquele traumático U2 em Alvalade, a Kroke, Hedningarna,  Vartinna no Porto com o Hugo, a lindíssima Lhasa de Sela no Palácio de Cristal, todos os anos em Sines com centenas de bandas, BCUC, Dakhabraka, Kimmo Pohjonen (não fui ver a Aveiro!?), Danças Ocultas, aqueles ciganos de violinos que fui ver a Águeda de comboio, Cordel do Fogo Encantado, os afrobeats de transpirar e chorar por mais, Victor Demé, tanta tanta coisa. O noiserv, várias vezes incluindo no São Luis com a Mg. Aqueles dois concertos no São Luiz em que só tive de telefonar para a CML para ter bilhetes à borla (José Mário Branco num dia, Maria João lindíssima de arrepiar e Mário Laginha), e tantas tantas outras coisas. O Festival du Desert, uma experiência só por sí inesquecível pelas amizades e pela surrealidade de tudo aquilo, mágico demais.

Podia ficar aqui o dia todo a lembrar.

A seguir escrevi, amigos e namoradas. No primeiro, claro que pessoas como o César, o Hugo, o Luís, a Ana, vêm à cabeça. Pessoas  que estão comigo há muitos anos. O Roger e a Pat, o Hakan que me levou para UK. As pessoas das equipas com quem trabalhei e com quem fiz laços fortes (como o AndréV), etc. E claro as namoradas com quem tive relações especiais. A Rita, minha ex-, com quem ficou uma amizade forte apesar de tudo o que lhe fiz, a Sofia por quem também me sinto culpado mas felizmente encontrou o seu caminho, a Joana que rebentou a escala de intensidade e mágoa, e é claro a Mg a quem espero ter feito mais bem que mal nestes 10 anos improváveis, e que também me trouxe muita alegria.

As viagens. Foram muitos os destinos e compaheiros. A Islândia super especial com a Mg, a Austrália com a Rita, Argentina com a MJ -- nunca esquecerei aquele vento gelado na proa, sozinho, do barco em Ushuaia, no estreito, o Japão e SK com a Sofia. Muitos destinos, muita sorte. E é claro os destinos de mergulho.

Depois pensei no mergulho. O mar no Egipto com aquelas imagens de azul ralleigh, peixes coloridos, tubarões, live-aboards de mergulhar-comer-dormir-mergulhar-comer-dormir com o Duarte e Bruno e Gabi. Também as Maldivas e o tubarão-baleia, Cabo Verde com eu/Duarte/Bruno a vomitar cada um para seu lado do semi-rígido, Austrália em Cairs com a Rita, Açores. Um sortudo.

Os filmes, tantos, especialmente os dias de Indielisboa com tantos filmes em duas semanas, o Nimas, o King, o Londres, o São Jorge. Os clássicos que referi no TFC: Naked, Chungking Express, tantos outros especiais (que por acaso me vêm agora menos à cabeça).

Os livros. De sempre, afectados no entanto pelo infinite scrolling contemporâneo, contra o que continuo a lutar. O José Saramago, o Mia Couto, o Gabriel Garcia Marques, o Kafka lido com 10 anos no Algarve (e certamente despercebido). Muita coisa bonita. Terá sido por eles que fiz os cursos de escrita criativa? E os cursos de astronomia que me entreteram e apaixonaram por uns anos?

O Storytelling. O curso com a Ana Sofia Paiva na BUS, os do Rodolfo. A história contada na BUS em que senti nos olhos de uma das pessoas do público quão estava dentro das minhas palavras. As 4 histórias na Graça no Botequim com a outra senhora de cabelos de prata que faleceu. As aulas no Jardim da Parada, ou naquele estúdio perto da casa dos bicos com aquele senhor de que não me recordo o nome mas que nos pôs todos num canto da sala, com calor, em cima uns dos outros. E é claro, contar histórias sob o céu escuro no Mali, com os meus companheiros de viagem Tizi, Annie, Daniel (que me levou a música em Tel Aviv) Jim e a sua guitarra e whiskey.

E trabalho? só me dá vontade de rir. Os 4 anos da Link com as miúdas designers giras, os 14 anos da Create It com o trauma do CEO mas grande aprendizagem e crescimento, o projecto do BPI, o Zooniverse. A equipa de UK com o JdS, o trabalho com o Orrin e David, os AI Rangers com eles quase todos e a LisaF, agora os DSAs recrutados quase todos por mim. Mas os objectivos atingidos, projectoss, etc, para pouco serviram. Serviram para ter dinheiro na carteira e financiar viagens, boa comida, conforto na vida, a minha bicicleta, a consola. Mas apesar de tão importante,, significa tão pouco.

Agora aprecio os meus bonecos sempre imperfeitos, livros, os jogos, as minhas plantas, comer bem, o anime (que é demais na verdade), o andar de bicicleta numa cidade plana segura e limpa.

Uma pessoa cabe toda em meia dúzia de parágrafos, não? Mesmo se há mais por dizer.

E depois acaba tudo com o fechar de um pano vermelho cor de chouriço. (lembras-te?).





quarta-feira, 10 de junho de 2026



I love you cause I need to, not because I need you

Estive durante anos a ouvir a faixa dos U2 que tem esta frase, que fica na cabeça por algum motivo, mas de não percebia o significado. Agora, de repente, já percebo. E é-me muito pessoal, e não só de hoje.

Estou à beira de mudança. Consigo senti-la nos olhos. Pergunto-me se devo eu ser o catalizador, para acabar com a ansiedade e expectativa. Vejo-a como uma seta de Zenão, pisco os olhos e um dia passa e está mais perto.

erledigen => etwas zu Ende bringen

Apareceu agora numa das últimas aulas de alemão B1.2, imagina lá.


(piscar)

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(piscar)




segunda-feira, 8 de junho de 2026



não apetece fazer nada

NÃO ME APETECE FAZER NADA.


Escrevei eu isto em 2020 penso eu, mas não postei não sei porquê. Posto no entanto agora em Junho de 2026, em que o sentimento se mantém.

Não é bonito.




sexta-feira, 15 de dezembro de 2017



planeta absolutamente anormal

Foi inseminado para nascer, numa família normal num bairro normal de uma cidade normal de um país normal. Nove meses depois nasceu, limitado apenas pela biologia dos sentidos que a cada dia aprendia como dominar. Parecido a todos os outros, mas silencioso. Não foi daqueles bebés que fazem os pais saltar da cama estremunhados e a esfregar os olhos enquanto resmungam resignados deixa eu vou. As vezes que o ouviram chorar foram raras, e parecia que só quando os olhos atentos e brilhantes não conseguiam perceber o que lhe estava a acontecer.

Com o passar dos anos cresceu. Um rapaz normal e saudável sempre com aquele silêncio e olhos atentos brilhantes. Tendia a ficar a brincar sozinho com as suas coisas adorava pintar, ou encostado a uma parede a ver os outros jogar à bola, e só aquele ar de que algo não estava bem o manteve a salvo da adolescência e colegas belicosos. As colegas olhavam-no com curiosidade de longe, mas o excesso de atenção e a diferença mantinham-nas à distância.~

Os pais levaram-no ao médico, perguntaram se era autismo ou asperguer, mas os diagnósticos não eram conclusivos. Puseram-no a fazer desporto – excelente como guarda-redes sabia sempre onde a bola ia parar, a tocar piano –boa técnica mas pouca imaginação, a fazer teatro – era o primeiro a decorar textos e marcações, mas automático e sem emoção. Acabaram por desistir e aceitar. Afinal, era normal, não fosse o silêncio e os olhos quase assustadoramente atentos.

Esperavam que fosse estudar matemática ou ciências, mas o interesse no secundário foram as áreas humanas. Devorava tudo o que fosse filosofia, biologia, sociologia, antropologia, política, psicologia e estudava com fascínio a igreja, populismo, regimes fascistas, desigualdades sociais, pobreza, conflitos. Parecia querer compreender tudo.


Num pequeno-almoço num sábado de manhã, 16 anos recém-feitos, perguntou à mãe

“Mãe, o que é o Amor?”

Quase largou o copo, de tão inesperada a pergunta. Hesitou e começou com a conversa que já esperava não ter de ter,

“Não é isso, eu sei o que é o Sexo, reprodução e conheço o Corpo Humano. Como é que descubro o que é o Amor?”



No secundário o silêncio e olhos atentos atraíam, já não era só o estranho silencioso de olhos atentos, sempre encostado a uma parede com um pé dobrado e um livro nas mãos, mas o moço inteligente e misterioso com boas notas que se dizia ser de pais estrangeiros e que parecia inspirar sedução com os movimentos elegantes e a madeixa de cabelo solta sobre a testa.

Quando uma moça magra de olhos quase tão atentos como os seus, por trás de óculos protectores sobre um nariz empertigado, com vários livros nos braços, se foi sentar ao seu lado sem dizer palavra e só com um olhar trocado brilho com brilho, estava escrito que a resposta se ia escrever nas vidas dos dois.

Com ela descobriu o que havia para descobrir, do Amor e da Paixão, em tudo o que têm de mágico e calmo e intenso e doentio. Os corpos, o enlear e a transpiração na pele e os lábios entreabertos colados e a saliva e as curvas das pernas entrelaçadas, e o ser-se animal com outro corpo que nos quer consumir tanto quanto nós a ele… E quando meses depois ela mudou para outra cidade normal no país normal, com o final do ano de estudo e o Verão a limpar o céu de nuvens, percebeu que tinha a resposta que lhe faltava.

Saiu de casa de noite, caminhou quase três horas na noite quente para fora no bairro normal da cidade normal. Sentou-se de pernas cruzadas no cimo de um monte, com a via láctea por cima, árvores e uma ligeira brisa nos braços sem mangas, e com um sussurro percebi, fechou os olhos e deixou o país normal do planeta absolutamente anormal.



sábado, 14 de outubro de 2017



e por fora perguntei-te “já?”, e por dentro perguntei-te “e tu?”

não é que tenha alguma coisa especial para dizer, mas de repente na mente esta frase pareceu-me um bom título (lembras-te do céu vermelho côr de chouriço?) e não resisti a vir aqui beber um capuchinho contigo. senta-te, vamos, não estejas aí de pé a tremer de frio, a lareira está aí por um motivo, e os lobos estão lá fora de dentes aguçados e olhos raiados de… chouriço.

só tenho aniz, desculpa. sei que não és fã de erva doce, mas ajuda a aquecer. também te posso emprestar as minhas mãos, têm uma produção generosa de calor que partilho de bom grado contigo, e que já me ajudaram em momentos difíceis. especialmente o médio, que é o dedo com nome menos glamoroso possível, mas de função absolutamente essencial. quem mais escreveria o e ou o s com tanta arte e engenho?

não percebo porque dizem que capitular é desistir, se um capítulo é uma parte de um todo (tomo?) mais longo. terá um significado greco-latino como a luta livre, mas decapitular também era uma boa palavra para esse contexto. seja como for, ser tenacious (“don’t give up easily”, I helped Olaf) implica isso mesmo. e se há um precipício para onde os lemingues se projectam inesgotável

a minha comida tem ingredientes a mais

… inesgotável energia, dizia, eu não sou um desses, porque os meus dois pés me obedecem e não à turba que me rodeia com frémito de salto. imagino sempre os lemings

(passo muito tempo a imaginar lemings)

com penugem de cor de laranja e desenhado como aqueles bonecos dos estúdios giblitikiti no japão, uma massa inesgotável

just don’t fuck with them

… a caminho do precipício onde uma jovem estudante (penso que coreana, não sei o que estava a fazer aqui) deu um salto para cima para a fotografia e acabou por se despenhar 60 ou mais metros lá em baixo. morreu. provavelmente de pescoço partido ou outras lesões internas.

é uma história triste.

nunca a conheci (nem vou conhecer, como à vizinha do lado), mas espero que tenha brilhado tão intensamente como tu brilhas em mim.

NearNGC1365



domingo, 25 de dezembro de 2016



Miss Takes, 2016 as they say GFY

change_kxcdNot turning this into a diary, hence whatever I write may or may not be true and anyway whatever words I write will only be so vaguely connected to whatever happens or has happened or will come to happen in the future. Also, I will be using random bolding or italicizing of words to confuse you.

Which is actually the truth of most things I write here on too many interspaced occasions.

2016 was a year of change, and so full of learning opportunities that I must actually take some time out to ponder them with their due importance. which I probably will never do.

(i’m tired again of this uppercase and lowercase thing, dropping it for now)

first time i write since i moved to the uk. i am in the conservatory, alone with some music and random beeps from messaging apps, and i look outside and see the raindrops falling in the puddles in the shale grey platform outside, under the cloud covered light gray sky. random sentences come to my mind.

I have seen attack ships on fire off the shoulder of Orion.

But under spell of deep sleep he moans and turns away / Taking his protection and my desire to stay.

What a wicked game to play / to make me feel this way

change is good, they say. change is not only good, it is actually necessary. it is a fact of nature. but we are human beings, and change for the sake of change is not good. it must be because we believe it will be better for us. or must it?

 

FutureInnerProber_2FutureInnerProberI hereby present you the Future Inner Prober and Advisor: FIPA. This revolutionary machine, created to the highest standards of scientific and industrial quality, can look at your present self, analyse your feelings and emotions, and though a powerful set of machine learning algorithms harnessing the collective intelligence of millions and millions of similar humans beings (a crow just flew outside my window), as well as facts about the culture and economy and the world outside, help you make the right decisions at the right time.

Never again be in doubt. Now you can balance at every single moment, on the one hand your happiness with any given choice, and in the other how well it will turn out for you in the future.

TAKE BACK CONTROL OF YOU LIFE, WITH FIPA Mk.1! All of £69.99 (or 30€ if you are in the EU).

see the chart up there on the top right? see the two marks on the bottom left corner?

i wonder. i wonder which of these choices, of these changes, were the right ones. even if some still make me feel sad, and others fill me with joy. i feel vaguely delirious and alucinating, with a heart and mind that is both empty and full, a superposition of quantum states. just like the screaming voice in this song, which – I find – makes all the difference.

one good thing of change, regardless of the outcome, is that you prove to yourself that you can do it. even if it is jumping of a cliff or brit lemmings dropping of the EU.

 

“oh we shall endeavour to miss him dearly, he was a good chap”

 

worry not.

 

this chap here will rebuild, and smile again. after all, there is much that is good and makes him smile already.

 

i guess this is my message for 2017. or wish, or whatever.

THERE WILL BE CHANGE. “Man up”, like Jorge said once, and deal with it.

 

 

 

fuck it, this post made no sense, even for me.

 

oh, there was something else i wanted to add, something that came to my mind a few days ago. maybe the time has come for me to become an adult. finally, and after all these years. i am terrified at this.



sexta-feira, 26 de agosto de 2016



revealing.myself

lomoinstant1lomoinstant2lomoinstant3lomoinstant4lomoinstant5lomoinstant6

 

(estou bem consciente de que há uma história aqui para contar, mas não me apetece fazê-lo neste momento, cansa-me).



domingo, 21 de agosto de 2016



womaninred_landscape

(a title would be pretty obvious… something between the crying game and the woman in red)





it wasn’t meant to be this way (or: august in the UK)

Chuva no Tamisa

Canchete Muere

… but it does fill the air with the wondeful scent of the wild flowers and lavander.



sábado, 20 de agosto de 2016



seriosamente

lido4a sério que só pode ser masoquismo e continuo a achar que não trocava isto por mais nada como é satisfatório ter as veias a pulsar com sangue o coração que por vezes quase pára ou me aquece por dentro o passo interrompido por uma imagem ou palavra que nos toca como uma brisa de Verão e por vezes manda abaixo mas sentir isto é inevitavelmente bom mil vezes melhor que estar sentado numa secretária a olhar pela janela e ver os carros e pessoas passar lá fora com uma manta ao colo e braços cruzados sobre as pernas

tiro na cabeça, isso

parece que nos queremos atirar de uma janela meter num avião comboio e fazer o que não se deve e não se pode e é sempre assim nunca são as coisas como queremos mas a energia que sentimos – sinto – está dentro de mim independentemente do que o resto do mundo – e tu – sintas ou deixas de sentir

preciso disto

mesmo que nunca te toque que nunca te veja ou te beije

preciso disto

e juro-te que com 100 anos ou 80 ou 60 ou 50 ou 45 ou seja com que idade for vou sempre olhar para isto como dias que valem a pena como aventuras que enriquecem que me tornam a mim uma pessoa com mais histórias para contar e mais retalhos dentro, ainda que inamável

a sério



segunda-feira, 11 de abril de 2016



Os Principais Erros Estão Por Cometer

harpoons_cvxJ0Vê-se nos programas de mar as peles das baleias grandes e tubarões cheios de cortes e marcas.

 

Vê-se nos animais da selva, leões e outros felinos, marcas de rasgões no pelo, orelhas cortadas.

 

Em nós, homens e mulheres, estão invisíveis os maiores retalhos e cicatrizes.

 

Em nós, homens e mulheres, há a chamada “meia-idade”, uma coisa aproximada entre o nascimento e o fim da vida, e que está sempre no nosso passado. Bom era saber onde é O Meio Termo dos Erros, o ponto a partir do qual podemos descansar porque o pior já passou.

 

(e pronto, era só isto, uma reflexão)



sexta-feira, 8 de abril de 2016



esta noite os cães ladram mais alto

sem saber porquê, o diálogo consigo próprio foi interrompido centezas de vezes pela canzoada que na rua coroava a solidão devastada que sentia. olhava para trás e sentia a ausência de significado em tudo aquilo, o irromper da luz constantemente interrompido pela surpresa de não haver chão. ou de estar lá o chão de sempre, com os ladrilhos em padrão cor de tijolo como em casa da avó, e ter medo de o pisar.

passaram 700 anos, e sozinho no quartocasaprédiobairrocidadepaísplaneta continuava a olhar pela janela para o nada lá fora, as janelas abertas ao sol e ao vento morno e à luz da lua sempre brilhante sempre cheia sempre reluzente no céu, um sol nocturno.

depois de se viver na luz, tem-se medo do escuro. com a luz sempre no céu, mãos na liberdade, pode ir-se a todo o lado, sem medo das feras e dos uivos dos vultos cinzentonegros que se entrevêem. mesmo sem saber o que vai estar do outro lado. mesmo sem saber.

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domingo, 27 de março de 2016



Uma Posta Que Não É Ficção

Esta posta não é ficção. Há muito tempo que não escrevo aqui texto que não seja ficção. Mas desta vez é assim mesmo. Vou escrever uma posta no mais correcto português de que sou capaz (pré-acordo, claro), e com tanta seriedade que jamais os cantos dos lábios se desviarão da mais euclideana horizontal.

 

Ah, a questão do português posso aldrabar um bocadinho, tábem? é que ao mesmo tempo tamém mapetece escrever com marcas dóralidade, como me disse aquela professora do secundário. Mas ignora. E pensa assim: sempre quencontrares algo que te pareça um erro, repensa-te e considera: provavelmente foi intencional. É mesmo assim.

 

Um Piano na Praia com uma menina em cimaOra estava eu a caminho ou já em casa dos meus pais, para o tradicional mas não católico almoço de páscoa, quando li umas coisas nuns blogs que me passaram pelo telemóvel a caminho do cérebro. Uma destas coisas que li, na musa dominical, foi este texto caqui está. Não é nada de especial, um daqueles apelos à simplicidade pre-electrónica, ou à capacidade de conseguir (“conseguição” é palavra?) deixar algum espaço das nossas vidas fora da tecnologia. Mas a verdade verdadinha é que gostei da sugestão feita: a partir de uma determinada hora da noite, desligar todos os ecrãs. Seja de telemóvel, portátil ou televisão. Porque isso vai levar à felicidade interna (que é muito parecido com felicidade eterna, o que ia escrever, mas muito menos religioso e logo mais interessante), e dar mais tempo para um ror de outras coisas libertadores que em muito contribuirão para o bem estar matinal e nocturno.

Ora quem me conhece sabe que sinto a tentação de – estando a começar este parágrafo também com a denominativa palavra “Ora” - fazer por repetir a proeza com todos os outros daquilo que aqui vier a escrever. Mas dizia eu: quem me conhece sabe que sinto a tentação automaticamediata de ser céptico e dizer um “ya ya” dismissivo (quero lá saber que não exista), fica-te lá com a tua felicidade enquanto eu me vou aqui continuar a ler postas de lifehacking e felicidade interna no resto dos blogs. Mas alto e páróbaile, que mapece mesmo experimentar. A autora decidiu desligar ecrãs às 2300, mas esses horários matinais não são para mim. Vou fazê-lo isso sim, mas à meia nôte. Que tal? E aguarda aí que vou colocar uma alarmística na despertadoriana do telemóvel, um pouco como um kill switch na realidade: ora (lá está) atoca e adesligate. E porque o fiz? o que me persuadiu a experimentar foi este esnipet do text:

Rather than laying awake, though, likely thinking about work the next day, I chose to pick up a book. And then another, and then another. During the month of January, I read more than the previous six months combined. In fact, I could now read for an hour and still be asleep earlier than my normal time. And the best part? I didn’t feel like I had wasted any time by doing work and watching filler TV in the background.

Ora disto eu gostei (lá está, e vão 3).

 

Ora tenho mais coisas para d’zer. Depois de ler este texto passei para outro, e o que li a seguir também me transmitiu energias (pela simples recepção de fotões na minha retina, não estou a falar de disparates sobrenaturais calma lá): foi estaqui, e independentementementemente de achar que o autor está a levar alonge ademais a ideia de associar a ansiedade ao Delayed Return Environment (versus Immediate Return Environment):

Most of the choices you make today will not benefit you immediately. If you do a good job at work today, you’ll get a paycheck in a few weeks. If you save money now, you’ll have enough for retirement later. Many aspects of modern society are designed to delay rewards until some point in the future.

Mulholland-Our-Inner-VoicesOra eu podia lá está cepticamente dizer que estamos numa sociedade de consumo imediato, mas vamos por um momento suspender o tal cepticismo e seguir onde o contaautor nos leva. E onde nos leva? (agora fiquei aqui meio despalavrado na forma de continuar a frase). Leva-nos a um par de caminhos, mas o 2º foi o que me brilhou nos olhos: Shift Your Worry, from the long-term problem to a daily routine that will solve that problem. E melhor ainda, mais abaixo dá alguns exemplos pessoais, tendo eu sido inapelavelmente atraído por dois deles:

    • Writing. When I publish an article, the quality of my life is noticeably higher. Additionally, I know that if I write consistently, then my business will grow, I will publish books, and I will make enough money to sustain my life. By focusing my attention on writing each day, I increase my well-being (immediate return) while also working toward earning future income (delayed return).
    • Reading. Last year, I posted my public reading list and began reading 20 pages per day. Now, I get a sense of accomplishment whenever I do my daily reading (immediate return) and the practice helps me develop into an interesting person (delayed return).

Ora cástá. Era aqui que queria chegar. Dá-me buéeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeda gozo estar aqui contigo (eu tenho sempre só um leitor, e já desisti de quaisquer pretenções ao nobel de lit’ratura quando tinha 3 anos didade). Isto cogajo escreve é atotalmente verdade. Não faço dinheiro com palavrinhas, por isso essa parte não saplica, mas dá-me gozo estas duas coisas, são os bare essentials de mim [1]. In-descritível. Empatizei de instantimediato com a frase da qualidade de vida augmentada.

Ora mas não te vás embora ainda já tão cedo, cainda tenho mais uma cenita para referir nesta posta que tencionava introspectiva sobre uma cena gira que encontrei, mas que se está a tornar num exercício masturbatório que lembra o adolescente “Eu cá sou bom” dos Xutos.

 

 

Mmmmm.

Na realidade, fui reler a terceira cenita que queria referir-te, e na realidade não gosto muito da coisa, e o que antes vi como sendo curioso agora já não me parece sê-lo tanto assim na realidade. Talvez o cepticismo a que aludi nos dois casos anteriores me tenha invadido o cérebro como o mosquito da zika, mas olha prontos é assim mesmo e asssim sendo acho que já disse tudo o que tinha a escrever e fico-me por aqui.

Mas não temas, não temas, leitor singular. Porque se depender de mim, voltarei para te zikrinar o juízo. E com um sorriso horizontal nos beiços :-) .

 

 

[1] “Os bare essentials de mim” dava um bom nome de filme ou livro, numa outra qualquer realidade.



terça-feira, 22 de março de 2016



Dramatis personæ, diálogo

- Romeu
- Olá, Julieta
- Preciso de falar contigo
- Então?
- Reparaste que deixei de te responder às cartas?…
- Sim, claro. Porquê?
- Porque nos estávamos a aproximar, e tu não podes, e eu achei que era a opção mais sensata. E agora que nos vemos, é justo dizer-to.
(pausa)
- Fizeste bem. Obrigado. Já tinha suspeitado disso.
- Sim? Então?…
- Estavas a começar a fazer-me pensar. E não sou pessoa para tomar decisões sensatas, ainda bem que tu o és. (pausa) Despedimo-nos agora?
- Suponho que sim… mas…
- Então adeus, Julieta
(pausa)
- Adeus, Romeu

(e quando o pano cai, na sombra do invisível, colaram os lábios)



domingo, 21 de fevereiro de 2016



Rapaz, Maria

Espertos foram os que ficaram lá dentro. Quando as balas perdidas começaram a cravar-se nas paredes, a partir os vidros, e a penetrar nos corpos dos incautos, espertos foram os que ficaram lá dentro.

“A Maria-rapaz”, era como me chamavam na escola quando era miúda. Adoptei o nome quando cresci, usava o cabelo curto e vestia como lembrava ao meu pai que se finou na guerra em Flandres dois anos depois de eu nascer. “Sou a Maria Rapaz”, dizia com uma pausa a não deixar espaço à ambiguidade sobre a inexistência do hífen, ao mesmo tempo que tirava as pistolas tapadas pela samarra, e atrás de mim entravam o Diamantino e o Urbano, já com as Tommys apontadas a funcionários e clientes sem discrição ou discriminação, e com meia face coberta por lenços pretos.

Mas a vida andava difícil, tanto para nomes como para cognomes. O governo do Salazar deu à GNR uns jipes com rádios recebidos dos alemães, e tínhamos uma hora se tanto para limpar as caixas de bancos, caixas agrícolas ou CTT, amontoar os cofres de metal em sacos de serapilheira, e sair dali a toda a brida ao volante do Venâncio – que aprendeu a conduzir o Citroën Traction Avant preto que o tio trouxe de França e que foi o primeiro carro que se viu em Brinches. E para mim, se é para fazer, é para fazer bem feito - não deixar uma moeda no fundo de uma gaveta sequer. Mas o tempo não dava para tudo, e a vida andava mesmo difícil.

Em Sobral da Adiça o golpe foi simples, mas não rendeu mais que um punhado de escudos e ainda foi preciso gastar umas balas para afugentar curiosos corajosos. Abalámos pela noite para Puerto Peñas, onde o taberneiro alugava um quarto privado e todos os duvidosos da região se reuniam até o vinho adormecer sobre as mesas com o sol a raiar. Mas nessa manhã não raiaria.

“SOY EL CAPITAN ÁNGEL DE LOS CARABINEROS! SALGAN DE AHÍ CON LOS BRAZOS EN ALTO, CABRONES!”

Nunca tinha visto o Capitão Ángel, nem o seu famoso bigode preto, mas conhecia-lhe a reputação brutal nas fronteiras com Portugal e França, e não se passaram dois minutos para ver da janela do 1º andar - enquanto calçava as botas - uns quantos mal despertos saírem de mãos no ar. Seria a última súplica que fariam. “Es aquel!!!”, disse um dos Carabineros, a apontar para um jovem efeminado, e o grito despoletou os disparos.

Nunca mais vi o Diamantino, o Urbano ou o Venâncio, mas não os imaginava numa prisão espanhola, e os fogachos de luz já voavam também em direcção aos carros policiais. Saltei pelas traseiras, aproveitando para navalhar sem hesitar o pescoço do taberneiro traidor e da sua mulher pequenina que se escondiam na casa da lenha, e desapareci na serra das Peñas para nunca mais ser vista em terras de Portugal y Espanha.


Dizia-se que na América é que a vida andava fácil.



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015



Fernando “Nanã” (1950-2015)

Para mim, a morte deve ter também algo de alegria, pelo que nos foi dado pela pessoa que deixou de estar connosco, e que fica agora apenas como memória. As minhas de ti são principalmente de juventude, na Cartaria.

De caminharmos pelo pinhal à noite (descendo o vale, um atalho!) no regresso do café para casa, e de me dizeres que em em tempos – não há muito tempo - houvera lobos por ali. Café esse onde me deste as primeiras moedas para jogar no poker das máquinas, e depois ficaste a ver como a sorte me ajudou a ganhar uns quantos jogos seguidos.

De andar contigo aos pardais com a pressão de ar, de até lhes conseguir acertar mas nunca ter sido capaz de os provar sequer, a apanhar maçãs ou pêssegos ou amoras nos terrenos de um vizinho e outro (“estas maçãs são boas”, “os pêssegos do avô na cumieira? são os melhores”).

De andares a derreter luvas de borracha para enrolar em paus com que íamos fazer armadilhas para apanhar bicos-de-lacre ou verdilhões, correndo pelo campo para os apanhar quando ficavam colados e puxavas a rede.

Ou de irmos ao Agroal de bicicleta (20km!) para pescar com a minha cana verde minúscula, peixes minúsculos de rio – lembro-de de um furo num regresso, arranjado ali algures na Freixianda. Ou de pescarias no Tejo, onde agora são as docas, em que insistias comigo para não devolver e,m segredo ao rio os peixes pequenos incomestíveis que mordiam o anzol em vez dos grandes “porque assim apanhamo-los de novo!”

Ou de perceber que não havia mal nenhum em achar a missa uma seca, numa tarde à porta da igreja no Seminário da Portela, com a missa a decorrer lá dentro (seria a comunhão da Rita? :-)).

Ou pelas Ginas, secretas, que ainda aí tenho (shiiuuuu).

Ou pelos livros de cóbois, em que o heróis tinha sempre mais de “6 pés” de altura quando entrava na pequena cidade onde iria acabar por se revelar um pistoleiro bom e impôr a ordem ou vingar uma maldade, por génios da escrita como o M.L.Estefania (mais tarde descobri ser o M.L. de Marcial Lafuente). Ou pelos livros do Major Eduardo de Cook e Alvega, que impunha a ordem nos ares com o seu Spitfire a preto e branco aos quadradinhos.

Ou pelas notas de 1000$ nos aniversários ou no Verão, partilhadas com a outra afilhada Sandra.

Ou pelo inacreditável telefonema para o suporte técnico da Zapp, faltavam minutos para a meia noite de 24 de Dezembro, de onde tivemos quase de te arrancar!! :)

Ou do despertador de campaínha que te deixava sempre para tocar às 04h da manhã, quando voltava a Lisboa no fim das férias de Verão. :) Nunca comentaste, nunca soube se percebias e o desligavas antes.

Ou pelos gelados que trazias da Unilever, para os almoços de domingo em casa dos avós.

 

 

Obrigado. :’-(

 

Há uns anos segui um cortejo fúnebre que era fechado por 3 músicos cabo-verdianos a tocar mornas, no alto de são joão. Aqui fica uma música para levares contigo.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015



Sweet, cold January 1st, 2015

Mal ou bem, não podia deixar de me lembrar de que passaram 20 anos. Somos os neurónios que nos trazem consigo.



domingo, 14 de dezembro de 2014



Iuriy

It was a cold morning, that of October 9th, 2008 in Yevpatoria, Ukraine. Yuriy’s watch was showing 07:02 when he climbed the metal steps to the circular base of RT-70, and opened the locks. The 6º C and strong winds always got to him. He waved weakly to the television people setting up outside, and closed the door behind him.

One hour later the control room was clean, and there wasn’t a dust particle in the always-on computers. Technicians started coming in, and he retreated to his small room, with a window facing the back of the 70-meter radio-telescope, a few green trees on the plain outside.

He looked at his watch, his own special 1MWF Sturmanskie, given to him by his father, an astrophysicist and “failed cosmonaut”, as his mother always said. 08:27. He used it every day, but some days it felt heavier. It was just like the one Yuriy Alekseevich Gagarin had worn in the first Earth orbit in 1961, with a black bracelet and golden frame. Last time it felt this heavy was 5 years before, for Cosmic Call 2. Powerful signals were sent to deep space, to five different stars. The signal was due to reach the closest star only in 2036.

This time the target was closer. Gliese-581c, the third planet of star Gliese-581, smack in the middle of the habitable zone, believed to be a potential host for life because of the possible existence of liquid water, had been recently discovered. A super-earth, 5x the mass of our planet, its year lasts 13 days, and was found using the Radial Velocity method, where the wobble of a star is measured and used to deduce the presence, mass and size of planets around it. It’s a Red Dwarf, small and cold stars that can be comfortable for life because of their long lifetimes, and represent the majority of the stars in the Universe. Gliese-581 is one-third the size of our Sun, twice as old, and close to us at about 20 light-years away.

The popular press and social networks went wild when the planet was discovered, and the ensuing speculation led to that day: October 9, 2008. At 09:00, the A Message From Earth (AMFE) powerful radio signal was shot towards Gliese-581c, containing messages and photos selected from a global competition. The signal was expected to arrive in 2029.

After all the cameras and excitement of the television transmission, Yuriy was the last to go. A swipe of the floor, taking out the garbage, he turned off the lights and went home. He didn’t expect to be around for a return signal, 40 years in the future.

Shortly after the signal was sent, Gliese-581c was dismissed as a candidate for life. A likely runaway greenhouse effect, the scientific papers said, and temperatures exceeding 500º C. The search for life moved to other exoplanets.

But the signal went on.

 

It was the Spring of 2029 on Earth when the signal reached Gliese-581. Yuriy was in a hospital bed in Tiraspol, Moldova, exiled from home by the Russia-Ukraine war. It was long over, but he never went back. Aged 84, he slept most of the time, rotating the spring on the Sturmanskie every day.

The signal reached the 3 planets orbiting the star, closer to it than Mercury is to Sol.

Gliese-581c did not have a runaway greenhouse effect. Tidally locked, with the same side always facing the star, it has a permanent day affected only by huge sun spots, with the average temperature of about 12 degrees Celsius going down when they passed.

The center of the day-side, a roughly circular region that some would call Equator, received more light and was hotter. Mostly land, it was the home to two intelligent species: the Coldbloods inhabiting mostly in the center, and Hotbloods mostly on the coast. All of them short and strong, with wide 4 and 2 legs respectively. With the sunny side being about 450x the surface area of the Earth, there was no lack of space or need for conflicts. Plus, it was too tiring - time in 581c went by slowly. The ocean, which was circular and occupied the outer half of the planet, all around and near the dark side, was made of freshwater, and had been the source of life millions of years ago, when its metallic core was more active and volcanoes spewed lava and created solid land.

The dark side is only reachable by longboats, and only the Hotbloods go there, fascinated by the day turning into night, the water that turns into ice, the dancing lights in the sky that start halfway in the trip, and the shinning dots behind them. All around the planet, auroras that never sleep mark the separation between the day and dark side. Their cause is the same as on Earth: charged particles from the star’s winds hit the magnetic field, interact with it and cause currents of charged particles that travel to the circle that separates day from night. Reaching the atmosphere, they collide with the nitrogen and oxygen that compose it, excite them, and cause them to emit light. The Hotbloods see in the infrared, where the star emits most energy, so the color that they see in the sky is a dancing, fascinating, hot, blue.

100km into the dark side, the Hotbloods have built their first antenna facing the shiny star-dots. It took them almost 100 years to build, and 10000 years later, it had mapped the sky, the unreachable shinning dots, found thousands of planets, transmitted messages every day, waiting for a reply that never came. And even the long-lived Hotbloods grow tired. “Nothing out there”, they concluded. As it was powered off, the last Hotblood slowly entered the skidvehicle under the antenna, maybe sad of what was being left behind and would not resist the cold for long. “Nothing out there”, he thought, as the AMFE signal entered the atmosphere.

 

Back on Earth, Yuriy’s heart stopped beating.

 

 

[nota: escrito como exercício final para um curso Coursera, “Imagining Other Earths”. Poderia simplificá-lo para tirar alguma da ‘hard science’, mas fica assim]



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